Os transtornos
incluídos nesta seção caracterizam-se por terem como aspecto
definidor a presença de sintomas psicóticos. Outros transtornos
que podem apresentar sintomas psicóticos (mas não como aspectos
definidores) estão incluídos em outros locais deste manual
(por ex., Demência do Tipo Alzheimer e Delirium Induzido
por Substância na seção "Delirium, Demência, Transtorno
Amnéstico e Outros Transtornos Cognitivos"; Transtorno
Depressivo Maior, Com Características Psicóticas, na seção
"Transtornos do Humor"). O termo psicótico tem
recebido, historicamente, diversas definições diferentes,
nenhuma conquistando aceitação universal. A definição mais
estreita de psicótico está restrita a delírios ou alucinações
proeminentes, com as alucinações ocorrendo na ausência de
insight para sua natureza patológica. Uma definição levemente
menos restritiva inclui também alucinações proeminentes
que o indivíduo percebe como sendo experiências alucinatórias.
Ainda mais ampla é a definição que também inclui outros
sintomas positivos da Esquizofrenia (isto é, discurso desorganizado,
comportamento amplamente desorganizado ou catatônico). Diferentemente
dessas definições baseadas em sintomas, a definição usada
em classificações anteriores (por ex., DSM-II e CID-9) provavelmente
era demasiado abrangente e focalizada na gravidade do prejuízo
funcional, de modo que um transtorno mental era chamado
de "psicótico" se resultava em "prejuízo
que interfere amplamente na capacidade de atender às exigências
da vida". Finalmente, o termo foi conceitualmente definido
como uma perda dos limites do ego ou um amplo prejuízo no
teste de realidade. Os diferentes transtornos nesta seção
salientam diferentes aspectos das várias definições de psicótico.
Na Esquizofrenia, no Transtorno Esquizofreniforme e no Transtorno
Psicótico Breve, o termo psicótico refere-se a delírios,
quaisquer alucinações proeminentes, discurso desorganizado
ou comportamento desorganizado ou catatônico. No Transtorno
Psicótico Devido a uma Condição Médica Geral e no Transtorno
Psicótico Induzido por Substância, psicótico refere-se a
delírios ou apenas àquelas alucinações que não são acompanhadas
de insight. Finalmente, no Transtorno Delirante e no Transtorno
Psicótico Compartilhado, psicótico equivale a delirante.
Os seguintes transtornos estão incluídos nesta seção:
| A
Esquizofrenia é uma perturbação que dura pelo
menos 6 meses e inclui pelo menos 1 mês de sintomas
da fase ativa (isto é, dois [ou mais] dos seguintes:
delírios, alucinações, discurso desorganizado,
comportamento amplamente desorganizado ou catatônico,
sintomas negativos). |
| O
Transtorno Esquizofreniforme caracteriza-se por
um quadro sintomático equivalente à Esquizofrenia,
exceto por sua duração (isto é, a perturbação
dura de 1 a 6 meses) e ausência da exigência de
um declínio no funcionamento. |
| O
Transtorno Esquizoafetivo é uma perturbação na
qual um episódio de humor e sintomas da fase ativa
da Esquizofrenia ocorrem juntos e foram precedidos
ou seguidos por pelo menos 2 semanas de delírios
ou alucinações sem sintomas proeminentes de humor. |
| O
Transtorno Delirante caracteriza-se por pelo menos
1 mês de delírios não-bizarros sem outros sintomas
da fase ativa da Esquizofrenia. |
| O
Transtorno Psicótico Breve é uma perturbação psicótica
com duração maior que 1 dia e remissão em 1 mês. |
| O
Transtorno Psicótico Compartilhado é uma perturbação
que se desenvolve em um indivíduo influenciado
por outra pessoa com um delírio estabelecido de
conteúdo similar. |
| No
Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica
Geral, os sintomas psicóticos são considerados
uma conseqüência fisiológica direta de uma condição
médica geral. |
| No
Transtorno Psicótico Induzido por Substância,
os sintomas psicóticos são considerados uma conseqüência
fisiológica direta de uma droga de abuso, um medicamento
ou exposição a toxina. |
| O
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação é
incluído para a classificação de quadros psicóticos
que não satisfazem os critérios para qualquer
dos Transtornos Psicóticos específicos definidos
nesta seção ou de uma sintomatologia psicótica
acerca da qual existem informações inadequadas
ou contraditórias. |
| Transtorno
Esquizofrênico
.....Tipo
Paranóide
.....Tipo Desorganizado
.....Tipo Catatônico
.....Tipo Indiferenciado
.....Tipo Residual
Transtorno Esquizofreniforme
Transtorno Esquizoafetivo
Transtorno Delirante
Transtorno Psicótico Breve
Transtorno Psicótico Compartilhado
Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica
Geral
Transtorno Psicótico Induzido por Substância |
Os aspectos essenciais da Esquizofrenia são um misto de
sinais e sintomas característicos (tanto positivos quanto
negativos) que estiveram presentes por um período de tempo
significativo durante 1 mês (ou por um tempo menor, se tratados
com sucesso), com alguns sinais do transtorno persistindo
por pelo menos 6 meses (Critérios A e C). Esses sinais e
sintomas estão associados com acentuada disfunção social
ou ocupacional (Critério B). A perturbação não é melhor
explicada por um Transtorno Esquizoafetivo ou Transtorno
do Humor Com Características Psicóticas nem se deve aos
efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou de uma
condição médica geral (Critérios D e E). Em indivíduos com
um diagnóstico prévio de Transtorno Autista (ou outro Transtorno
Invasivo do Desenvolvimento), o diagnóstico adicional de
Esquizofrenia aplica-se apenas se delírios ou alucinações
proeminentes estão presentes por pelo menos 1 mês (Critério
F). Os sintomas característicos de Esquizofrenia envolvem
uma faixa de disfunções cognitivas e emocionais que acometem
a percepção, o pensamento inferencial, a linguagem e a comunicação,
o monitoramento comportamental, o afeto, a fluência e produtividade
do pensamento e do discurso, a capacidade hedônica, a volição,
o impulso e a atenção. Nenhum sintoma isolado é patognomônico
de Esquizofrenia; o diagnóstico envolve o reconhecimento
de uma constelação de sinais e sintomas associados com prejuízo
no funcionamento ocupacional ou social. Os sintomas característicos
(Critério A) podem ser conceitualizados como enquadrando-se
em duas amplas categorias positivos e negativos.
Os sintomas positivos parecem refletir um excesso ou distorção
de funções normais, enquanto os sintomas negativos parecem
refletir uma diminuição ou perda de funções normais. Os
sintomas positivos (Critérios A1-A4) incluem distorções
ou exageros do pensamento inferencial (delírios), da percepção
(alucinações), da linguagem e comunicação (discurso desorganizado)
e do monitoramento comportamental (comportamento amplamente
desorganizado ou catatônico). Esses sintomas positivos podem
compreender duas dimensões distintas, que, por sua vez,
podem estar relacionadas a diferentes mecanismos neurais
e correlações clínicas subjacentes: a "dimensão psicótica"
inclui delírios e alucinações, enquanto a "dimensão
da desorganização" inclui o discurso e comportamento
desorganizados. Os sintomas negativos (Critério A5) incluem
restrições na amplitude e intensidade da expressão emocional
(embotamento do afeto), na fluência e produtividade do pensamento
(alogia) e na iniciação de comportamentos dirigidos a um
objetivo (avolição). Os delírios (Critério A1) são crenças
errôneas, habitualmente envolvendo a interpretação falsa
de percepções ou experiências. Seu conteúdo pode incluir
uma variedade de temas (por ex., persecutórios, referenciais,
somáticos, religiosos, ou grandiosos). Os delírios persecutórios
são os mais comuns; neles a pessoa acredita estar sendo
atormentada, seguida, enganada, espionada ou ridicularizada.
Os delírios de referência também são comuns; neles a pessoa
crê que certos gestos, comentários, passagens de livros,
um delírio e uma idéia vigorosamente mantida às vezes é
difícil, e depende do grau de convicção com o qual a crença
é mantida, apesar de evidências nitidamente contrárias.
Embora os delírios bizarros sejam considerados especialmente
característicos da Esquizofrenia, pode ser difícil avaliar
o grau de "bizarria", especialmente entre diferentes
culturas. Os delírios são considerados bizarros se são claramente
implausíveis e incompreensíveis e não derivam de experiências
comuns da vida. Um exemplo de delírio bizarro é a crença
de uma pessoa de que um estranho retirou seus órgãos internos
e os substituiu pelos de outra, sem deixar quaisquer cicatrizes
ou ferimentos. Um exemplo de delírio não-bizarro é a falsa
crença de estar sob vigilância policial. Os delírios que
expressam uma perda de controle sobre a mente ou o corpo
(isto é, aqueles incluídos na lista de "sintomas de
primeira ordem" de Schneider) geralmente são considerados
bizarros; eles incluem a crença da pessoa de que seus pensamentos
foram retirados por alguma força externa ("extração
de pensamentos"), que pensamentos estranhos foram colocados
em sua mente ("inserção de pensamentos") ou que
seu corpo ou ações estão sendo manipulados por alguma força
externa ("delírios de controle"). Se os delírios
são considerados bizarros, este sintoma isolado já basta
para satisfazer o Critério A para Esquizofrenia. As alucinações
(Critério A2) podem ocorrer em qualquer modalidade sensorial
(por ex., auditivas, visuais, olfativas, gustativas e táteis),
mas as alucinações auditivas são, de longe, as mais comuns
e características da Esquizofrenia, sendo geralmente experimentadas
como vozes conhecidas ou estranhas, que são percebidas como
distintas dos pensamentos da própria pessoa. O conteúdo
pode ser bastante variável, embora as vozes pejorativas
ou ameaçadoras sejam especialmente comuns. Certos tipos
de alucinações auditivas (duas ou mais vozes conversando
entre si ou comentando os pensamentos ou o comportamento
da pessoa) têm sido considerados particularmente característicos
da Esquizofrenia e foram incluídos na lista de sintomas
de primeira ordem de Schneider. Se esses tipos de alucinações
estão presentes, então basta apenas este sintoma isolado
para satisfazer o critério A. As alucinações devem ocorrer
no contexto de um sensório claro; aquelas que ocorrem enquanto
o indivíduo adormece (hipnagógicas) ou desperta (hipnopômpicas)
são consideradas parte da faixa de experiências normais.
Experiências isoladas de ouvir o próprio nome sendo chamado
ou experiências que não possuem a qualidade de uma percepção
externa (por ex., zumbidos na própria cabeça) também não
são consideradas alucinações características da Esquizofrenia.
As alucinações podem ser também um componente normal de
uma experiência religiosa, em certos contextos culturais.
A desorganização do pensamento ("transtorno do pensamento
formal", "afrouxamento de associações") é
defendida por alguns autores (Bleuler, em particular) como
o aspecto mais importante da Esquizofrenia. Em vista da
dificuldade inerente ao desenvolvimento de uma definição
objetiva de "transtorno do pensamento", e uma
vez que em um contexto clínico as inferências sobre o pensamento
estão baseadas primariamente no discurso do indivíduo, o
conceito de discurso desorganizado (Critério A3) foi salientado
na definição de Esquizofrenia usada neste manual. O discurso
dos indivíduos com Esquizofrenia pode ser desorganizado
de variadas maneiras. A pessoa pode "sair dos trilhos",
saltando de um assunto para outro ("descarrilamento"
ou "associações frouxas"); as respostas podem
estar obliquamente relacionadas ou não ter relação alguma
com as perguntas ("tangencialidade"); raramente,
o discurso pode estar desorganizado de forma tão severa,
que é praticamente incompreensível e se assemelha à afasia
receptiva em sua desorganização lingüística ("incoerência",
"salada de palavras"). Uma vez que um discurso
ligeiramente desorganizado é comum e inespecífico, o sintoma
deve ser suficientemente severo para prejudicar substancialmente
a comunicação efetiva. Um pensamento ou discurso desorganizado
em um nível menos severo pode ocorrer durante o pródromo
e períodos residuais da Esquizofrenia (ver Critério C).
Um comportamento amplamente desorganizado (Critério A4)
pode manifestar-se de variadas maneiras, indo desde o comportamento
tolo e pueril até a agitação imprevisível. Podem ser notados
problemas em qualquer forma de comportamento dirigido a
um objetivo, acarretando dificuldades no desempenho de atividades
da vida diária, tais como organizar as refeições ou manter
a higiene. A pessoa pode parecer mostrar-se acentuadamente
desleixada, vestir-se de modo incomum (por ex., usar casacos
sobrepostos, cachecóis e luvas em um dia quente), pode exibir
um comportamento sexual nitidamente inadequado (por ex.,
masturbar-se em público) ou uma agitação imprevisível e
sem um desencadeante (por ex., gritar ou praguejar). O profissional
deve ter o cuidado de não aplicar este critério de um modo
demasiadamente amplo. O comportamento muito desorganizado
deve ser diferenciado de um comportamento meramente desprovido
de objetivos e do comportamento organizado motivado por
crenças delirantes. Similarmente, alguns casos de comportamento
inquieto, irado ou agitado não devem ser considerados evidência
de Esquizofrenia, especialmente se a motivação for compreensível.
Os comportamentos motores catatônicos (Critério A4) incluem
uma diminuição acentuada na reatividade ao ambiente, às
vezes alcançando um grau extremo de completa falta de consciência
(estupor catatônico), manutenção de uma postura rígida e
resistência aos esforços de mobilização (rigidez catatônica),
resistência ativa a instruções ou tentativas de mobilização
(negativismo catatônico), adoção de posturas inadequadas
ou bizarras (postura catatônica), ou excessiva atividade
motora sem propósito e não estimulada (excitação catatônica).
Embora a catatonia tenha sido historicamente associada à
Esquizofrenia, o clínico não deve esquecer que os sintomas
catatônicos são inespecíficos e podem ocorrer em outros
transtornos mentais (ver Transtornos do Humor com Características
Catatônicas), em condições médicas gerais (ver Transtorno
Catatônico Devido a uma Condição Médica Geral) e Transtornos
do Movimento Induzidos por Medicamentos (ver Parkinsonismo
Induzido por Neurolépticos). Os sintomas negativos da Esquizofrenia
(Critério A5) respondem por um grau substancial da morbidade
associada ao transtorno. Três sintomas negativos
afeto embotado, alogia e avolição estão incluídos
na definição da Esquizofrenia; outros sintomas negativos
(por ex., anedonia) são relacionados a seguir na seção "Características
e Transtornos Associados". O embotamento afetivo é
especialmente comum e se caracteriza pelo fato de o rosto
da pessoa mostrar-se imóvel e irresponsivo, com pouco contato
visual e linguagem corporal reduzida. Embora uma pessoa
com afeto embotado possa ocasionalmente sorrir e demonstrar
algum calor humano, sua faixa de expressão emocional está
claramente diminuída na maior parte do tempo. Pode ser útil
observar a interação do indivíduo com outros, para determinar
se o embotamento afetivo é suficientemente persistente para
satisfazer o critério. A alogia (pobreza do discurso) é
manifestada por respostas breves, lacônicas e vazias. O
indivíduo com alogia parece ter uma diminuição dos pensamentos,
refletida em uma redução da fluência e produtividade do
discurso. A alogia deve ser diferenciada da recusa a falar,
um discernimento clínico que pode exigir uma observação
prolongada em uma variedade de situações. A avolição caracteriza-se
por incapacidade de iniciar e persistir em atividades dirigidas
a um objetivo. A pessoa pode ficar sentada por longos períodos
de tempo e demonstrar pouco interesse em participar de atividades
profissionais ou sociais. Embora freqüentemente presentes
na Esquizofrenia, os sintomas negativos são difíceis de
avaliar porque ocorrem em uma linha contínua com a normalidade,
são inespecíficos e podem decorrer de uma variedade de outros
fatores (por ex., em conseqüência de sintomas positivos,
efeitos colaterais de medicamentos, Transtorno do Humor,
subestimulação ambiental ou desmoralização). O isolamento
social ou a pobreza do discurso podem ter uma compreensão
melhor do que como sintomas negativos, se ocorrerem como
conseqüência de um sintoma positivo (por ex., um delírio
paranóide ou uma alucinação proeminente). Por exemplo, o
comportamento de um indivíduo que apresenta a crença delirante
de estar em perigo se deixar seu quarto ou falar com qualquer
pessoa pode imitar a alogia ou avolição. Os medicamentos
neurolépticos freqüentemente produzem efeitos colaterais
extrapiramidais que se assemelham muito ao embotamento afetivo
ou à avolição. A distinção entre os verdadeiros sintomas
negativos e os efeitos colaterais de medicamentos depende
de um discernimento clínico envolvendo a gravidade dos sintomas
negativos, a natureza e tipo de medicamento neuroléptico,
os efeitos de um ajuste da dosagem e os efeitos de medicamentos
anticolinérgicos. A difícil distinção entre sintomas negativos
e sintomas depressivos pode ser assessorada pela presença
de outros sintomas concomitantes e pelo fato de que os indivíduos
com sintomas depressivos tipicamente experimentam um efeito
doloroso intenso, enquanto aqueles com Esquizofrenia têm
uma diminuição ou ausência total de afeto. Finalmente, a
subestimulação ambiental crônica ou a desmoralização podem
resultar no aprendizado da apatia e avolição. Ao estabelecer
a presença de sintomas negativos, talvez o melhor teste
seja sua persistência por um período considerável de tempo,
apesar dos esforços dirigidos para a resolução de cada uma
das causas potenciais antes descritas. Foi sugerido que
os sintomas negativos persistentes sejam chamados de sintomas
"deficitários". O Critério A para Esquizofrenia
exige que pelo menos dois dos cinco itens estejam presentes
concomitantemente por grande parte de pelo menos 1 mês.
Entretanto, se os delírios são bizarros ou se as alucinações
envolvem "vozes comentando" ou "vozes conversando",
então basta a presença de apenas um item. A presença desta
constelação relativamente severa de sinais e sintomas é
chamada de "fase ativa". Nas situações em que
os sintomas da fase ativa apresentam remissão dentro de
1 mês em resposta ao tratamento, o Critério A ainda pode
ser considerado como satisfeito, caso o clínico considere
que os sintomas teriam persistido por 1 mês na ausência
de um tratamento efetivo. Em crianças, a determinação dos
sintomas característicos precisa considerar devidamente
a presença de outros transtornos ou dificuldades do desenvolvimento.
Por exemplo, o discurso desorganizado em uma criança com
um Transtorno da Comunicação não deve contar para um diagnóstico
de Esquizofrenia, a menos que o grau de desorganização seja
significativamente maior do que o esperado com base apenas
no Transtorno da Comunicação. A Esquizofrenia envolve disfunção
em uma ou mais áreas importantes do funcionamento (por ex.,
relações interpessoais, trabalho, educação ou higiene) (Critério
B). Tipicamente, o funcionamento está claramente abaixo
daquele que havia sido atingido antes do aparecimento dos
sintomas. Se a perturbação começa na infância ou adolescência,
entretanto, pode haver um fracasso em conquistar o que seria
esperado do indivíduo, ao invés de uma deterioração no funcionamento.
A comparação entre o indivíduo e seus irmãos não-afetados
pode ser útil para esta determinação. O progresso educacional
freqüentemente está perturbado, podendo o indivíduo ser
incapaz de terminar a escolarização. Muitos indivíduos são
incapazes de manter um trabalho por períodos prolongados
de tempo e estão empregados em um nível inferior ao de seus
pais ("mudança descendente"). A maioria (60-70%)
dos indivíduos com Esquizofrenia não se casa, e a maior
parte mantém contatos sociais relativamente limitados. A
disfunção persiste por um período substancial durante o
curso do transtorno e não parece ser o resultado direto
de qualquer aspecto isolado. Por exemplo, se uma mulher
pede demissão de seu emprego em razão de um delírio bem
delimitado de que seu chefe está tentando matá-la, isto,
apenas, não é evidência suficiente para este critério, a
menos que haja um padrão mais abrangente de dificuldades
(geralmente em múltiplos domínios do funcionamento). Alguns
sinais da perturbação devem persistir por um período contínuo
de pelo menos 6 meses (Critério C). Durante este período,
deve haver pelo menos 1 mês de sintomas (ou menos de 1 mês,
se os sintomas são tratados com sucesso) que satisfazem
o Critério A para Esquizofrenia (fase ativa). Sintomas prodrômicos
freqüentemente estão presentes antes da fase ativa, e os
sintomas residuais podem segui-la. Alguns sintomas prodrômicos
e residuais são formas relativamente leves ou subliminares
dos sintomas positivos especificados no Critério A. Os indivíduos
podem expressar uma variedade de crenças incomuns ou estranhas
que não possuem proporções delirantes (por ex., idéias de
referência ou pensamento mágico); eles podem ter experiências
perceptuais incomuns (por ex., sentir a presença de uma
pessoa ou força invisível na ausência de alucinações constituídas);
seu discurso pode ser geralmente compreensível, porém digressivo,
vago ou demasiadamente abstrato ou concreto; seu comportamento
pode ser peculiar, mas não amplamente desorganizado (por
ex., resmungar para si mesmo, colecionar objetos estranhos
e visivelmente sem valor). Além desses sintomas positivos,
os sintomas negativos são particularmente comuns nas fases
prodrômica e residual e podem em geral ser bastante severos.
Os indivíduos que eram socialmente ativos podem tornar-se
retraídos, perder o interesse em atividades com as quais
anteriormente sentiam prazer, tornar-se menos falantes e
curiosos, e passar a maior parte de seu tempo na cama. Esses
sintomas negativos com freqüência são o primeiro sinal,
para a família, de que algo está errado; os membros da família
podem, por fim, relatar a sensação de que o indivíduo estava
"indo embora aos pouquinhos". Subtipos e Especificadores
de Curso O diagnóstico de um determinado subtipo está baseado
no quadro clínico que ocasionou a avaliação ou admissão
mais recente para cuidados clínicos, podendo, portanto,
mudar com o tempo. Textos e critérios específicos são oferecidos
para cada um dos seguintes subtipos:
| F20.0x
- 295.30 Tipo Paranóide
F20.1x - 295.10 Tipo Desorganizado
F20.2x - 295.20 Tipo Catatônico
F20.3x - 295.90 Tipo Indiferenciado
F20.5x - 295.60 Tipo Residual |
Os seguintes especificadores podem ser usados para indicar
o curso característico dos sintomas da Esquizofrenia ao
longo do tempo. Esses especificadores podem ser aplicados
apenas depois de decorrido pelo menos 1 ano desde o aparecimento
inicial dos sintomas da fase ativa. Durante este período
inicial de 1 ano, não podem ser dados especificadores de
curso.
Episódico Com Sintomas Residuais
Entre Episódios. Este especificador aplica-se
quando o curso é caracterizado por episódios nos quais o
Critério A para Esquizofrenia é satisfeito e existem sintomas
residuais clinicamente significativos entre os episódios.
Com Sintomas Negativos Proeminentes pode ser acrescido se
sintomas negativos proeminentes estão presentes durante
estes períodos residuais.
Episódio Sem Sintomas Residuais Entre Episódios. Este especificador
aplica-se quando o curso é caracterizado por episódios nos
quais o Critério A para Esquizofrenia é atendido e não existem
sintomas residuais clinicamente significativos entre os
episódios.
Contínuo. Este especificador
aplica-se quando os sintomas característicos do Critério
A estão presentes durante todo o curso (ou em sua maior
parte). Com Sintomas Negativos Proeminentes pode ser acrescido
se sintomas negativos proeminentes também estão presentes.
Episódio Único em Remissão Parcial.
Este especificador aplica-se quando houve um único episódio
no qual o Critério A para Esquizofrenia foi satisfeito e
alguns sintomas residuais clinicamente significativos permanecem.
Com Sintomas Negativos Proeminentes pode ser acrescido se
esses sintomas residuais incluem sintomas negativos proeminentes.
Episódio Único em Remissão Completa.
Este especificador aplica-se quando houve um episódio único
no qual o Critério A para Esquizofrenia foi satisfeito e
não resta qualquer sintoma residual clinicamente significativo.
Outro Padrão ou Padrão Inespecífico.
Este especificador é usado se um outro padrão ou padrão
inespecífico de curso está presente.
Procedimentos de Registro
O código diagnóstico para Esquizofrenia é selecionado com
base no subtipo apropriado:
| F20.0x
- 295.30 para Tipo Paranóide
F20.1x - 295.10 para Tipo Desorganizado
F20.2x - 295.20 para Tipo Catatônico
F20.3x - 295.90 para Tipo Indiferenciado
F20.5x - 295.60 para Tipo Residual |
Não existem códigos no quinto dígito para os especificadores
de curso. No registro do nome do transtorno, os especificadores
de curso são anotados após o subtipo apropriado (por ex.,
295.30 Esquizofrenia, Tipo Paranóide, Episódico, Com Sintomas
Residuais Entre Episódios, Com Sintomas Negativos Proeminentes).
Características e Transtornos Associados
Aspectos
descritivos e transtornos mentais associados. O indivíduo
com Esquizofrenia pode apresentar um afeto inadequado (por
ex., sorriso, riso ou expressão facial tola na ausência
de um estímulo adequado), que é um dos aspectos definidores
do Tipo Desorganizado. A anedonia é comum e se manifesta
por uma perda de interesse ou prazer. O humor disfórico
pode assumir a forma de depressão, ansiedade ou raiva. Pode
haver perturbações no padrão de sono (por ex., dormir durante
o dia e permanecer ativo ou inquieto à noite). O indivíduo
pode demonstrar falta de interesse por alimentar-se ou recusar
alimentos como conseqüência de crenças delirantes. Com freqüência,
existem anormalidades da atividade psicomotora (por ex.,
andar a esmo, balançar-se ou imobilidade apática). Dificuldades
de concentração freqüentemente são evidentes e podem refletir
problemas para focalizar a atenção ou distractibilidade
devido à preocupação com estímulos internos. Embora as funções
intelectuais básicas sejam classicamente consideradas intactas
na Esquizofrenia, alguns indicadores de disfunção cognitiva
freqüentemente estão presentes. O indivíduo pode estar confuso
e desorientado ou ter prejuízo de memória durante um período
de exacerbação dos sintomas ativos, ou na presença de sintomas
negativos muito severos. A falta de insight é comum e pode
ser um dos melhores indicadores de mau prognóstico, talvez
por predispor o indivíduo à falta de aderência ao tratamento.
Despersonalização, desrealização e preocupações somáticas
podem ocorrer e ocasionalmente alcançam proporções delirantes.
Anormalidades motoras (por ex., trejeitos faciais, posturas,
maneirismos estranhos, comportamento ritualístico ou estereotipado)
às vezes estão presentes. A expectativa de vida para indivíduos
com Esquizofrenia é menor que para a população em geral,
por uma variedade de razões. O suicídio é um importante
fator, uma vez que aproximadamente 10% dos indivíduos com
Esquizofrenia o cometem. Os fatores de risco de suicídio
incluem ser do sexo masculino, ter menos de 30 anos, ter
sintomas depressivos, estar desempregado e alta hospitalar
recente. Existem evidências conflitantes quanto a se a freqüência
de atos de violência é maior do que na população em geral.
A comorbidade com Transtornos Relacionados a Substâncias
(incluindo Dependência de Nicotina) é comum. Um Transtorno
Esquizotípico ou Transtorno da Personalidade Paranóide podem
ocasionalmente preceder o início da Esquizofrenia. Não está
claro se esses Transtornos da Personalidade são simplesmente
prodrômicos à Esquizofrenia ou se constituem um transtorno
anterior distinto.
Achados laboratoriais associados
Não
foram identificados achados laboratoriais diagnósticos de
Esquizofrenia. Entretanto, uma variedade de achados laboratoriais
anormais foi encontrada em grupos de indivíduos com Esquizofrenia,
em comparação com os sujeitos-controle. Anormalidades estruturais
do cérebro têm sido demonstradas consistentemente em indivíduos
com Esquizofrenia como um grupo; as anormalidades estruturais
mais comuns incluem aumento do sistema ventricular e sulcos
proeminentes no córtex. Diversas outras anormalidades também
foram notadas com o uso de técnicas de imagens estruturais
(por ex., tamanho temporal e hipocampal diminuído, aumento
no tamanho dos gânglios basais, diminuição do tamanho do
cérebro). Técnicas de imagens funcionais indicam que alguns
indivíduos podem ter fluxo sangüíneo cerebral ou utilização
de glicose anormais em regiões cerebrais específicas (por
ex., córtex pré-frontal). Avaliações neuropsicológicas podem
mostrar uma ampla faixa de disfunções (por ex., dificuldade
para mudar o conjunto de respostas, focalizar a atenção,
formular conceitos abstratos). Achados neurofisiológicos
incluem uma lentificação nos tempos de reação, anormalidades
no acompanhamento visual ou prejuízos nas comportas sensoriais.
Achados laboratoriais anormais podem também ser notados
como uma complicação da Esquizofrenia ou de seu tratamento.
Alguns indivíduos com Esquizofrenia bebem quantidades excessivas
de líquidos ("intoxicação hídrica") e desenvolvem
anormalidades na densidade específica da urina ou desequilíbrios
eletrolíticos. Uma elevação da creatinina fosfoquinase (CPK)
pode resultar da Síndrome Neuroléptica Maligna. A
chados ao exame físico e condições médicas gerais associadas.
Os
indivíduos com Esquizofrenia às vezes são fisicamente desajeitados
e podem exibir "sinais neurológicos leves", tais
como confusão entre esquerda/direita, fraca coordenação
ou espelhamento. Algumas anormalidades físicas menores (por
ex., palato altamente arqueado, olhos muito juntos ou demasiadamente
separados ou malformações sutis das orelhas) podem ser mais
comuns em indivíduos com Esquizofrenia. O achado físico
associado mais comum talvez seja o de anormalidades motoras.
A maioria destas tende a estar relacionada a efeitos colaterais
do tratamento com medicamentos antipsicóticos. As anormalidades
motoras secundárias ao tratamento com neurolépticos incluem
Discinesia Tardia Induzida por Neurolépticos, Parkinsonismo
Induzido por Neurolépticos, Acatisia Aguda Induzida por
Neurolépticos, Distonia Aguda Induzida por Neurolépticos
e Síndrome Neuroléptica Maligna ). Anormalidades motoras
espontâneas semelhantes àquelas induzidas por neurolépticos
(por ex., fungar, estalar a língua, grunhidos) foram descritas
na era pré-neurolépticos e ainda são observadas, embora
seja difícil distingui-las dos efeitos dos neurolépticos.
Outros achados físicos podem estar relacionados aos transtornos
freqüentemente associados. Uma vez que a Dependência de
Nicotina é muito comum na Esquizofrenia, por exemplo, esses
indivíduos estão mais propensos a desenvolver uma patologia
relacionada ao cigarro (por ex., enfisema e outros problemas
pulmonares e cardíacos).
Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
Os
médicos que avaliam os sintomas de Esquizofrenia em situações
sócio-econômicas ou culturais diferentes das suas próprias
devem levar em conta as diferenças culturais. Idéias que
parecem delirantes em uma cultura (por ex., magia e bruxaria)
podem ser comumente aceitas em outra. Em algumas culturas,
as alucinações visuais ou auditivas de conteúdo religioso
podem ser um componente normal da experiência religiosa
(por ex., ver a Virgem Maria ou ouvir a voz de Deus). Além
disso, a avaliação do discurso desorganizado pode ser dificultada
pela variação lingüística dos estilos narrativos entre as
culturas, que afeta a forma lógica da apresentação verbal.
A avaliação do afeto requer sensibilidade para as diferenças
nos estilos de expressão emocional, contato visual e linguagem
corporal, que variam entre as culturas. Se a avaliação é
realizada em uma língua diferente da língua materna do indivíduo,
deve haver o cuidado de garantir que a alogia não está relacionada
a barreiras lingüísticas. Uma vez que podemos esperar variações
no significado cultural de atividades espontâneas dirigidas
a um objetivo, de acordo com diferentes contextos, as perturbações
na volição também devem ser avaliadas com cuidado. Existem
algumas evidências de uma possível tendência dos clínicos
a superdiagnosticar Esquizofrenia (ao invés de Transtorno
Bipolar) em alguns grupos étnicos. Diferenças culturais
foram notadas na apresentação, curso e resultado da Esquizofrenia.
O comportamento catatônico é relativamente incomum, conforme
relatos, entre indivíduos com Esquizofrenia nos Estados
Unidos, mas é mais comum em países não-ocidentais. Os indivíduos
com Esquizofrenia nas nações em desenvolvimento tendem a
um curso mais agudo e a um melhor resultado do que os indivíduos
de nações industrializadas. O início da Esquizofrenia tipicamente
ocorre entre o final da adolescência e meados da década
dos 30, sendo raro o início antes da adolescência (embora
haja relatos de casos com início aos 5 ou 6 anos). Os aspectos
essenciais da condição são os mesmos em crianças, mas pode
ser particularmente difícil fazer o diagnóstico neste grupo
etário. Em crianças, os delírios e alucinações podem ser
menos elaborados do que aqueles observados em adultos, e
as alucinações visuais podem ser mais comuns. Um discurso
desorganizado é observado em diversos transtornos com início
na infância (por ex., Transtornos da Comunicação, Transtornos
Invasivos do Desenvolvimento), assim como o comportamento
desorganizado (por ex., Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade,
Transtorno de Movimento Estereotipado). Esses sintomas não
devem ser atribuídos à Esquizofrenia sem a devida consideração
desses transtornos mais comuns da infância. A Esquizofrenia
também pode começar mais tarde (por ex., após os 45 anos).
Os casos de aparecimento tardio tendem a ser similares à
Esquizofrenia de início mais precoce, exceto por uma proporção
maior de mulheres, uma melhor história ocupacional e maior
freqüência de casamentos. A apresentação clínica tende mais
a incluir delírios e alucinações paranóides, sendo menos
propensa a incluir sintomas desorganizados e negativos.
O curso geralmente é crônico, embora os indivíduos freqüentemente
respondam bastante bem aos medicamentos antipsicóticos em
doses menores. Entre aqueles com idade mais avançada no
início do transtorno (isto é, com mais de 60 anos), déficits
sensoriais (por ex., perda auditiva) aparentemente ocorrem
com maior freqüência do que na população adulta em geral.
Seu papel específico na patogênese permanece desconhecido.
Existem diferenças de gênero na apresentação e curso da
Esquizofrenia. As mulheres estão mais propensas a ter um
aparecimento tardio da condição, mais sintomas proeminentes
de humor e um melhor prognóstico. Embora há muito se afirme
que homens e mulheres são afetados em proporções basicamente
iguais, estas estimativas relativas à distribuição entre
os sexos são confundidas por questões de determinação e
definição. Estudos baseados em hospitais sugerem uma incidência
superior de Esquizofrenia em homens, ao passo que estudos
baseados na comunidade têm sugerido, em sua maior parte,
uma distribuição igual entre os sexos. Definições mais amplas
de Esquizofrenia com relação à fronteira com os Transtornos
do Humor cederão uma taxa de mulheres-para-homens maior
do que o conceito relativamente restrito de Esquizofrenia
usado neste manual.
Prevalência
A
prevalência relatada da Esquizofrenia é variável, uma vez
que diferentes estudos têm usado diferentes métodos de determinação
(por ex., área rural versus urbana, comunidade versus clínicas
ou hospitais) e diferentes definições de Esquizofrenia (estreitas
versus amplas, baseadas em critérios versus clínicas). As
estimativas da prevalência têm variado de 0,2 a 2,0% entre
muitos estudos importantes. As taxas de prevalência são
similares em todo o mundo, mas bolsões de alta prevalência
são relatados em algumas áreas específicas. Levando-se em
conta todas essas fontes de informações, a prevalência da
Esquizofrenia durante a vida geralmente é estimada entre
0,5 e 1%. Uma vez que a Esquizofrenia tende a ser crônica,
as taxas de incidência são consideravelmente mais baixas
do que as taxas de prevalência, sendo estimadas em aproximadamente
1 por 10.000 por ano.
Curso
A
idade média de início do primeiro episódio psicótico de
Esquizofrenia situa-se na primeira metade da casa dos 20
anos para homens e final da casa dos 20 para as mulheres.
O início pode ser abrupto ou insidioso, mas a maioria dos
indivíduos apresenta algum tipo de fase prodrômica, manifestada
pelo desenvolvimento lento e gradual de uma variedade de
sinais e sintomas (por ex., retraimento social, perda do
interesse pela escola ou trabalho, deterioração da higiene
e cuidados pessoais, comportamento incomum e ataques de
raiva). Os membros da família podem encontrar dificuldades
para interpretar este comportamento, presumindo que a pessoa
está "passando por uma fase". Por fim, entretanto,
o aparecimento de alguns sintomas da fase ativa marca a
perturbação como Esquizofrenia. A idade de início pode ter
importância tanto fisiopatológica quanto prognóstica. Os
indivíduos com início precoce são, mais freqüentemente,
do sexo masculino, e têm um ajustamento pré-mórbido mais
fraco, aquisição educacional inferior, mais evidências de
anormalidades estruturais do cérebro, sinais e sintomas
negativos mais proeminentes, mais evidências de prejuízo
cognitivo, avaliado com testes neuropsicológicos, e um pior
resultado. Inversamente, os indivíduos com um início mais
tardio freqüentemente são do sexo feminino, têm menos evidências
de anormalidades estruturais do cérebro ou prejuízo cognitivo
e apresentam um melhor resultado. A maioria dos estudos
sobre curso e resultado da Esquizofrenia sugere que o curso
pode ser variável, com alguns indivíduos exibindo exacerbações
e remissões, enquanto outros permanecem cronicamente enfermos.
A variabilidade na definição e na determinação impossibilita
uma previsão acurada do resultado da Esquizofrenia a longo
prazo. A remissão completa (isto é, um retorno ao pleno
funcionamento pré-mórbido) provavelmente não é comum neste
transtorno. Daqueles que continuam enfermos, alguns parecem
ter um curso razoavelmente estável, enquanto outros apresentam
uma piora progressiva associada com severa incapacitação.
Logo no início da doença, os sintomas negativos podem ser
proeminentes, aparecendo primariamente como aspectos prodrômicos.
Subseqüentemente, aparecem os sintomas positivos. Uma vez
que esses sintomas positivos são particularmente suscetíveis
ao tratamento, eles tipicamente diminuem, mas em muitos
indivíduos os sintomas negativos persistem entre os episódios
de sintomas positivos. Existem alguns indícios de que os
sintomas negativos podem tornar-se progressivamente mais
proeminentes em alguns indivíduos durante o curso da doença.
Numerosos estudos indicam um grupo de fatores associados
com melhor prognóstico. Estes incluem bom ajustamento pré-mórbido,
início agudo, idade mais tardia de aparecimento, eventos
precipitadores, perturbação do humor associada, breve duração
dos sintomas da fase ativa, bom funcionamento entre os episódios,
mínimos sintomas residuais, ausência de anormalidades na
estrutura cerebral, funcionamento neurológico normal, uma
história familiar de Transtorno do Humor e ausência de história
familiar de Esquizofrenia.
Padrão Familial
Os
parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos com Esquizofrenia
estão em risco dez vezes maior para a Esquizofrenia do que
a população geral. As taxas de concordância para Esquizofrenia
são maiores em gêmeos monozigóticos do que em gêmeos dizigóticos.
Estudos de adoções têm mostrado que os parentes biológicos
de indivíduos com Esquizofrenia têm um risco substancialmente
aumentado para Esquizofrenia, enquanto os parentes adotivos
não apresentam um aumento no risco. Embora muitas evidências
sugiram a importância de fatores genéticos na etiologia
da Esquizofrenia, a existência de uma taxa substancial de
discordância em gêmeos monozigóticos também indica a importância
de fatores ambientais.
Diagnóstico Diferencial
Uma
ampla variedade de condições médicas gerais pode apresentar-se
com sintomas psicóticos. Transtorno Psicótico Devido a uma
Condição Médica Geral, delirium ou demência são diagnosticados
quando existem evidências, a partir da história, de exame
físico ou testes laboratoriais, indicando que os delírios
ou alucinações são a conseqüência fisiológica direta de
uma condição médica geral (por ex., síndrome de Cushing,
tumor cerebral). Transtorno Psicótico Induzido por Substância,
Delirium Induzido por Substância e Demência Persistente
Induzida por Substância são diferenciados da Esquizofrenia
pelo fato de que uma substância (por ex., uma droga de abuso,
um medicamento ou exposição a uma toxina) é considerada
etiologicamente relacionada com os delírios ou alucinações.
Muitos tipos diferentes de Transtornos Relacionados a Substâncias
podem produzir sintomas similares àqueles da Esquizofrenia
(por ex., o uso prolongado de cocaína ou anfetamina pode
produzir delírios ou alucinações; o uso de fenciclidina
pode produzir um misto de sintomas positivos e negativos).
Com base em uma variedade de aspectos que caracterizam o
curso da Esquizofrenia e dos Transtornos Relacionados a
Substâncias, o clínico deve determinar se os sintomas psicóticos
foram iniciados e mantidos pelo uso da substância. Em uma
situação ideal, o profissional deveria tentar observar o
indivíduo durante um período prolongado (por ex., 4 semanas)
de abstinência. Entretanto, devido à freqüente dificuldade
de obter esses períodos prolongados de abstinência, o clínico
pode precisar levar em conta outras evidências, tais como
se os sintomas psicóticos parecem ser exacerbados pela substância
e diminuir quando esta é descontinuada, a gravidade relativa
dos sintomas psicóticos frente à quantidade e duração do
uso da substância e o conhecimento dos sintomas característicos
produzidos por determinada substância (por ex., a anfetamina
tipicamente produz delírios e estereotipias, mas não embotamento
afetivo ou sintomas negativos proeminentes). A distinção
entre Esquizofrenia e Transtorno do Humor com Aspectos Psicóticos
e Transtorno Esquizoafetivo é dificultada pelo fato de que
uma perturbação do humor é comum durante as fases prodrômica,
ativa e residual da Esquizofrenia. Se os sintomas psicóticos
ocorrem exclusivamente durante períodos de perturbação do
humor, o diagnóstico é de Transtorno do Humor com Aspectos
Psicóticos. No Transtorno Esquizoafetivo, deve haver um
episódio de humor concomitante com os sintomas da fase ativa
da Esquizofrenia, os sintomas de humor devem estar presentes
durante uma parcela substancial da duração total da perturbação
e os delírios ou alucinações devem estar presentes por pelo
menos 2 semanas na ausência de sintomas proeminentes de
humor. Em comparação, os sintomas de humor na Esquizofrenia
têm uma duração breve em relação à duração total da perturbação,
ocorrem apenas durante as fases prodrômica ou residual,
ou não satisfazem os critérios plenos para um episódio de
humor. Quando os sintomas de humor que satisfazem plenamente
os critérios para um episódio de humor são superpostos à
Esquizofrenia e têm uma importância clínica particular,
um diagnóstico adicional de Transtorno Depressivo Sem Outra
Especificação ou Transtorno Bipolar Sem Outra Especificação
pode ser dado. A Esquizofrenia, Tipo Catatônico, pode ser
difícil de distinguir de um Transtorno do Humor com Características
Catatônicas. Por definição, a Esquizofrenia difere do Transtorno
Esquizofreniforme com base em sua duração. A Esquizofrenia
envolve a presença de sintomas (incluindo prodrômicos e
residuais) por pelo menos 6 meses, enquanto a duração total
dos sintomas no Transtorno Esquizofreniforme deve ser de
pelo menos 1 mês, porém inferior a 6 meses. O Transtorno
Esquizofreniforme, além disso, não exige um declínio no
funcionamento. O Transtorno Psicótico Breve é definido pela
presença de delírios, alucinações, discurso desorganizado
ou comportamento amplamente desorganizado ou catatônico,
com duração de pelo menos 1 dia, mas inferior a 1 mês. O
diagnóstico diferencial entre Esquizofrenia e Transtorno
Delirante repousa na natureza dos delírios (não-bizarros,
no Transtorno Delirante) e na ausência de outros sintomas
característicos de Esquizofrenia (por ex., alucinações,
discurso ou comportamento desorganizado, ou sintomas negativos
proeminentes). O Transtorno Delirante é particularmente
difícil de diferenciar do Tipo Paranóide de Esquizofrenia,
porque este subtipo não inclui discurso desorganizado proeminente,
comportamento desorganizado ou afeto embotado ou inadequado
e freqüentemente está associado com menor declínio no funcionamento
do que aquele característico de outros subtipos de Esquizofrenia.
Quando um fraco funcionamento psicossocial está presente
no Transtorno Delirante, ele decorre diretamente das próprias
crenças delirantes. Um diagnóstico de Transtorno Psicótico
Sem Outra Especificação pode ser feito quando não há informações
suficientes disponíveis para decidir entre Esquizofrenia
e outros Transtornos Psicóticos (por ex., Transtorno Esquizoafetivo)
ou para determinar se os sintomas apresentados são induzidos
por substância ou são o resultado de uma condição médica
geral. Esta incerteza é particularmente provável no início
do curso do transtorno. Embora a Esquizofrenia e os Transtornos
Invasivos do Desenvolvimento (por ex., Transtorno Autista)
compartilhem perturbações da linguagem, afeto e interação
social, eles podem ser diferenciados de diversas maneiras.
Os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento são reconhecidos
caracteristicamente durante a infância (em geral antes dos
3 anos de idade), ao passo que um início tão precoce é raro
na Esquizofrenia. Além disso, nos Transtornos Invasivos
do Desenvolvimento, delírios ou alucinações proeminentes
estão ausentes, não há anormalidades pronunciadas no afeto;
também há ausência de discurso ou uma fala mínima, caracterizada
por estereotipias e anormalidades na prosódia. A Esquizofrenia
pode, ocasionalmente, desenvolver-se em indivíduos com Transtorno
Invasivo do Desenvolvimento; um diagnóstico de Esquizofrenia
é indicado em indivíduos com um diagnóstico preexistente
de Transtorno Autista ou outro Transtorno Invasivo do Desenvolvimento
apenas se alucinações ou delírios proeminentes estiveram
presentes por pelo menos 1 mês. A Esquizofrenia com Início
na Infância deve ser diferenciada de apresentações na infância
combinando discurso desorganizado (por Transtorno da Comunicação)
e comportamento desorganizado (por Transtorno de Déficit
de Atenção/Hiperatividade). A Esquizofrenia compartilha
características (por ex., ideação paranóide, pensamento
mágico, esquiva social e discurso vago e digressivo) e pode
ser precedida por Transtorno da Personalidade Esquizotípica,
Esquizóide ou Paranóide. Um diagnóstico adicional de Esquizofrenia
aplica-se quando os sintomas são suficientemente severos
para satisfazerem o Critério A de Esquizofrenia. O Transtorno
da Personalidade preexistente pode ser anotado no Eixo II,
seguido por "Pré-mórbido" entre parênteses [por
ex., Transtorno da Personalidade Esquizotípica (Pré-mórbido)].
|
Critérios Diagnósticos para
Esquizofrenia |
| A.
Sintomas característicos: Dois (ou mais) dos seguintes,
cada qual presente por uma porção significativa
de tempo durante o período de 1 mês (ou menos,
se tratados com sucesso): |
| (1)
delírios
(2) alucinações
(3) discurso desorganizado (por ex., freqüente
descarrilamento ou incoerência)
(4) comportamento amplamente desorganizado ou
catatônico
(5) sintomas negativos, isto é, embotamento afetivo,
alogia ou avolição |
| Nota:
Apenas um sintoma do Critério A é necessário se
os delírios são bizarros ou as alucinações consistem
de vozes que comentam o comportamento ou os pensamentos
da pessoa, ou duas ou mais vozes conversando entre
si. |
| B.
Disfunção social/ocupacional: Por uma porção significativa
do tempo desde o início da perturbação, uma ou
mais áreas importantes do funcionamento, tais
como trabalho, relações interpessoais ou cuidados
pessoais, estão acentuadamente abaixo do nível
alcançado antes do início (ou, quando o início
dá-se na infância ou adolescência, fracasso em
atingir o nível esperado de aquisição interpessoal,
acadêmica ou ocupacional). |
| C.
Duração: Sinais contínuos da perturbação persistem
por pelo menos 6 meses. Este período de 6 meses
deve incluir pelo menos 1 mês de sintomas (ou
menos, se tratados com sucesso) que satisfazem
o critério A (isto é, sintomas da fase ativa)
e pode incluir períodos de sintomas prodrômicos
ou residuais. Durante esses períodos prodrômicos
ou residuais, os sinais da perturbação podem ser
manifestados apenas por sintomas negativos ou
por dois ou mais sintomas relacionados no Critério
A presentes de uma forma atenuada (por ex., crenças
estranhas, experiências perceptuais incomuns). |
| D.
Exclusão de Transtorno Esquizoafetivo e Transtorno
do Humor: O Transtorno Esquizoafetivo e o Transtorno
do Humor com Aspectos Psicóticos foram descartados,
porque (1) nenhum Episódio Depressivo Maior, Maníaco
ou Misto ocorreu concomitantemente aos sintomas
da fase ativa; ou (2) se os episódios de humor
ocorreram durante os sintomas da fase ativa, sua
duração total foi breve relativamente à duração
dos períodos ativo e residual. |
| E.
Exclusão de substância/condição médica geral:
A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos
diretos de uma substância (por ex., uma droga
de abuso, um medicamento) ou a uma condição médica
geral. |
| F.
Relação com um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento:
Se existe uma história de Transtorno Autista ou
um outro Transtorno Invasivo do Desenvolvimento,
o diagnóstico adicional de Esquizofrenia é feito
apenas se delírios ou alucinações proeminentes
também estão presentes por pelo menos 1 mês (ou
menos, se tratados com sucesso). |
| Classificação
do curso longitudinal (pode ser aplicada apenas
1 mês após o aparecimento inicial dos sintomas
da fase ativa): |
| Episódico
Com Sintomas Residuais Entre Episódios (episódios
são definidos pelo ressurgimento de sintomas psicóticos
proeminentes); especificar também se: |
| Com
Sintomas Negativos Proeminentes Episódico Sem
Sintomas Residuais Entre Episódios Contínuo (sintomas
psicóticos proeminentes estão presentes durante
todo o período de observação); especificar também
se: Com Sintomas Negativos Proeminentes Episódio
Único em Remissão Parcial; especificar também
se: Com Sintomas Negativos Proeminentes Episódio
Único em Remissão Completa Outro Padrão ou Padrão
Inespecífico |
|