Esta seção
começa com uma definição geral de Transtorno da Personalidade
que se aplica a cada um dos 10 Transtornos da Personalidade
específicos. Um Transtorno da Personalidade é um padrão
persistente de vivência íntima ou comportamento que se desvia
acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo,
é invasivo e inflexível, tem seu início na adolescência
ou começo da idade adulta, é estável ao longo do tempo e
provoca sofrimento ou prejuízo. Os Transtornos da Personalidade
incluídos nesta seção estão relacionados a seguir (em azul
está nesta página e as demais nas outras):
Transtorno da Personalidade INTRODUÇÃO
Transtorno da Personalidade Paranóide
Transtorno da Personalidade Esquizóide
Transtorno da Personalidade Esquizotípica
Transtorno da Personalidade Anti-Social
Transtorno da Personalidade Borderline
Transtorno da Personalidade Histriônica
Transtorno da Personalidade Narcisista
Transtorno da Personalidade Esquiva
Transtorno da Personalidade Dependente
Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
Transtorno da Personalidade Sem Outra Especificação
Transtorno
da Personalidade Paranóide é um padrão de desconfiança
e suspeitas, de modo que os motivos dos outros são interpretados
como malévolos.
Transtorno da Personalidade Esquizóide
é um padrão de distanciamento dos relacionamentos sociais,
com uma faixa restrita de expressão emocional.
Transtorno da Personalidade Esquizotípica
é um padrão de desconforto agudo em relacionamentos íntimos,
distorções cognitivas ou da percepção de comportamento
excêntrico.
Transtorno da Personalidade Anti-Social
é um padrão de desconsideração e violação dos direitos
dos outros. Transtorno da Personalidade
Borderline é um padrão de instabilidade nos
relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos, bem
como de acentuada impulsividade.
Transtorno da Personalidade Histriônica
é um padrão de excessiva emotividade e busca de atenção.
Transtorno da Personalidade Narcisista
é um padrão de grandiosidade, necessidade por admiração
e falta de empatia.
Transtorno da Personalidade Esquiva
é um padrão de inibição social, sentimentos de inadequação
e hipersensibilidade a avaliações negativas.
Transtorno da Personalidade Dependente
é um padrão de comportamento submisso e aderente, relacionado
a uma necessidade excessiva de proteção e cuidados.
Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
é um padrão de preocupação com organização, perfeccionismo
e controle.
Transtorno da Personalidade Sem
Outra Especificação é uma categoria oferecida
para duas situações:
1)
o padrão de personalidade do indivíduo satisfaz os critérios
gerais para um Transtorno da Personalidade e existem traços
de diferentes Transtornos da Personalidade, mas não são
satisfeitos os critérios para qualquer Transtorno da Personalidade
específico; ou
2) o padrão de personalidade do indivíduo satisfaz os
critérios gerais para um Transtorno da Personalidade,
mas o clínico considera que o Transtorno da Personalidade
apresentado não está incluído na Classificação (por ex.,
transtorno da personalidade passivo-agressiva). Os Transtornos
da Personalidade são reunidos em três agrupamentos, com
base em similaridades descritivas.
1 - Agrupamento A
Transtornos da Personalidade Paranóide
Esquizóide
Esquizotípica
Os indivíduos com esses transtornos freqüentemente parecem
"esquisitos" ou excêntricos.
2 - Agrupamento B
Transtornos da Personalidade Anti-Social
Borderline
Histriônica
Narcisista.
Os indivíduos com esses transtornos freqüentemente parecem
dramáticos, emotivos ou erráticos.
3 - Agrupamento C
Transtornos da Personalidade Esquiva
Dependente
Obsessivo-Compulsiva
Os indivíduos com esses transtornos freqüentemente parecem
ansiosos ou medrosos. Cabe notar que este sistema de agrupamento,
embora útil em algumas situações de ensino e pesquisa,
apresenta sérias limitações e não foi consistentemente
validado. Além disso, os indivíduos freqüentemente apresentam
Transtornos da Personalidade concomitantes de diferentes
agrupamentos.
Características Diagnósticas
Os traços de personalidade são padrões persistentes no
modo de perceber, relacionar-se e pensar sobre o ambiente
e sobre si mesmo, exibidos em uma ampla faixa de contextos
sociais e pessoais. Apenas quando são inflexíveis e mal-adaptativos
e causam prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo significativo,
os traços de personalidade constituem Transtornos da Personalidade.
A característica essencial do Transtorno da Personalidade
é um padrão persistente de vivência íntima e comportamento
que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura
do indivíduo e se manifesta em pelo menos duas das seguintes
áreas: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal
ou controle dos impulsos (Critério A). Este padrão persistente
é inflexível e abrange uma ampla faixa de situações pessoais
e sociais (Critério B) e provoca sofrimento clinicamente
significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional
ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério
C). O padrão é estável e de longa duração, podendo seu
início remontar pelo menos à adolescência ou começo da
idade adulta (Critério D). O padrão não é melhor explicado
como uma manifestação ou conseqüência de outro transtorno
mental (Critério E), nem decorrente dos efeitos fisiológicos
diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamento,
exposição a uma toxina) ou de uma condição médica geral
(por ex., traumatismo craniano) (Critério F). Critérios
específicos de diagnóstico também são oferecidos para
cada um dos Transtornos da Personalidade específicos incluídos
nesta seção. Os itens dos conjuntos de critérios para
cada um dos Transtornos da Personalidade específicos são
listados em ordem de importância diagnóstica decrescente,
medida por dados relevantes sobre a eficiência diagnóstica
(quando disponíveis). O diagnóstico dos Transtornos da
Personalidade exige uma determinação dos padrões de funcionamento
do indivíduo a longo prazo, e as características particulares
da personalidade devem ser evidentes no início da idade
adulta. Os traços de personalidade que definem esses transtornos
também devem ser diferenciados de características que
emergem em resposta a estressores situacionais específicos
ou estados mentais mais transitórios (por ex., Transtorno
do Humor ou de Ansiedade, Intoxicação com Substância).
O clínico deve avaliar a estabilidade dos traços de personalidade
ao longo do tempo e em diferentes situações. Embora uma
única entrevista com a pessoa às vezes seja suficiente
para fazer o diagnóstico, habitualmente é necessário realizar
várias entrevistas espaçadas ao longo do tempo. A avaliação
pode ser complicada pelo fato de que as características
que definem um Transtorno da Personalidade podem não ser
consideradas problemáticas pelo indivíduo (isto é, os
traços são ego-sintônicos). Para superar esta dificuldade,
pode ser útil obter informações suplementares de outros
informantes.
Procedimentos de Registro
Os Transtornos da Personalidade são codificados no Eixo
II. Quando o padrão de comportamento de um indivíduo satisfaz
os critérios para mais de um Transtorno da Personalidade
(como ocorre freqüentemente), o clínico deve listar todos
os diagnósticos relevantes de Transtornos da Personalidade,
em ordem de importância. Quando um transtorno do Eixo
I não é o diagnóstico principal ou o motivo da consulta,
o clínico é encorajado a indicar o Transtorno da Personalidade
que constitui o diagnóstico principal ou o motivo da consulta,
anotando "Diagnóstico Principal" ou "Motivo
da Consulta", entre parênteses. Na maioria dos casos,
o diagnóstico principal ou motivo da consulta também é
o foco principal de tratamento ou atendimento. O diagnóstico
de Transtorno da Personalidade Sem Outra Especificação
é indicado quando ocorre uma apresentação "mista",
na qual não são satisfeitos os critérios para qualquer
Transtorno da Personalidade isolado, porém existem características
de diversos Transtornos da Personalidade que envolvem
um prejuízo clinicamente significativo. Traços de personalidade
mal-adaptativos específicos, que não atingem o limiar
para um Transtorno da Personalidade, também podem ser
listados no Eixo II. Nestes casos, nenhum código específico
deve ser usado; por exemplo, o clínico pode registrar
"Eixo II: V71.09 Nenhum diagnóstico no Eixo II, traços
de personalidade histriônica". O uso de mecanismos
de defesa específicos também pode ser indicado no Eixo
II. Por exemplo, o clínico pode registrar "Eixo II:
301.6 Transtorno da Personalidade Dependente; Uso freqüente
de negação". As definições do glossário para mecanismos
específicos de defesa e a Escala de Funcionamento Defensivo
aparecem no Apêndice B. Quando um indivíduo apresenta
um Transtorno Psicótico crônico do Eixo I (por ex., Esquizofrenia)
que foi precedido por um Transtorno da Personalidade preexistente
(por ex., Esquizotípica, Esquizóide, Paranóide), o Transtorno
da Personalidade deve ser registrado no Eixo II, seguido
da expressão "Pré-mórbido" entre parênteses.
Por exemplo: Eixo I: 295.30 Esquizofrenia, Tipo Paranóide;
Eixo II: 301.20 Transtorno da Personalidade Esquizóide
(Pré-mórbido).
Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
Os juízos acerca do funcionamento da personalidade devem
levar em conta a bagagem étnica, cultural e social do
indivíduo. Os Transtornos da Personalidade não devem ser
confundidos com problemas associados à aculturação após
a imigração ou à expressão de hábitos, costumes ou valores
religiosos e políticos professados pela cultura de origem
do indivíduo. Especialmente na avaliação de uma pessoa
de diferente origem étnica, é útil obter informações adicionais
a partir de informantes familiarizados com a respectiva
bagagem cultural. As categorias de Transtorno da Personalidade
podem ser aplicadas a crianças ou adolescentes nos casos
relativamente raros em que os traços particularmente mal-adaptativos
do indivíduo parecem ser invasivos, persistentes e improvavelmente
limitados a um determinado estágio evolutivo ou a um episódio
de um transtorno do Eixo I. Cabe reconhecer que os traços
de um Transtorno da Personalidade que aparecem na infância
freqüentemente não persistem inalterados até a vida adulta.
Para o diagnóstico de Transtorno da Personalidade em um
indivíduo com menos de 18 anos, as características devem
ter estado presentes por no mínimo 1 ano. A única exceção
é representada pelo Transtorno da Personalidade Anti-Social,
que não pode ser diagnosticado em indivíduos com menos
de 18 anos (ver p. 608). Embora, por definição, um Transtorno
da Personalidade não deva ter início após os primórdios
da idade adulta, os indivíduos podem não chegar à atenção
clínica até uma fase relativamente tardia de suas vidas.
Um Transtorno da Personalidade pode ser exacerbado após
a perda de pessoas de apoio significativas (por ex., cônjuge)
ou situações sociais anteriormente estabilizantes (por
ex., um emprego). Entretanto, o desenvolvimento de uma
alteração da personalidade em meio à idade adulta ou mais
tarde recomenda uma completa avaliação para determinar
a possível presença de uma Alteração da Personalidade
Devido a uma Condição Médica Geral ou de um Transtorno
Relacionado a Substância não reconhecidos. Certos Transtornos
da Personalidade (por ex., Transtorno da Personalidade
Anti-Social) são diagnosticados com maior freqüência em
homens. Outros (por ex., Transtorno da Personalidade Borderline,
Histriônica e Dependente) são diagnosticados com maior
freqüência em mulheres. Embora essas diferenças na prevalência
provavelmente reflitam diferenças reais de gênero quanto
à presença desses padrões, os clínicos devem ter cautela
para não superdiagnosticar ou subdiagnosticar certos Transtornos
da Personalidade em mulheres ou em homens, em virtude
de estereótipos sociais acerca dos papéis e comportamentos
típicos para o gênero.
Curso
As características de um Transtorno da Personalidade geralmente
se tornam reconhecíveis durante a adolescência ou começo
da idade adulta. Por definição, um Transtorno da Personalidade
é um padrão persistente e relativamente estável ao longo
do tempo, no modo de pensar, sentir e se comportar. Alguns
tipos de Transtornos da Personalidade (notadamente, Transtorno
da Personalidade Anti-Social e Transtorno da Personalidade
Borderline) tendem a tornar-se menos evidentes ou a apresentar
remissão com a idade, ao passo que o mesmo parece não
ocorrer com alguns outros tipos (por ex., Transtornos
da Personalidade Obsessivo-Compulsiva e Esquizotípica).
Diagnóstico Diferencial
Muitos dos critérios específicos para os Transtornos da
Personalidade descrevem aspectos (por ex., desconfiança,
dependência ou insensibilidade) que também caracterizam
episódios de transtornos mentais do Eixo I. Um Transtorno
da Personalidade deve ser diagnosticado apenas quando
as características definidoras apareceram antes do início
da idade adulta, são típicas do funcionamento do indivíduo
a longo prazo e não ocorrem exclusivamente durante um
episódio de um transtorno do Eixo I. Pode ser particularmente
difícil (e não particularmente útil) diferenciar entre
os Transtornos da Personalidade e os transtornos do Eixo
I (por ex., Transtorno Distímico) que têm um início precoce
e um curso crônico e relativamente estável. Alguns Transtornos
da Personalidade podem ter um relacionamento "de
espectro" com determinadas condições do Eixo I (por
ex., Transtorno da Personalidade Esquizotípica com Esquizofrenia;
Transtorno da Personalidade Esquiva com Fobia Social),
com base em semelhanças fenomenológicas ou biológicas
ou agregação familiar. Para os três Transtornos da Personalidade
que podem ter relação com os Transtornos Psicóticos (isto
é, Paranóide, Esquizóide e Esquizotípico), existe um critério
de exclusão, afirmando que o padrão de comportamento não
deve ter ocorrido exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia,
Transtorno do Humor com Aspectos Psicóticos ou um outro
Transtorno Psicótico. Quando um indivíduo tem um Transtorno
Psicótico crônico do Eixo I (por ex., Esquizofrenia) que
foi precedido por um Transtorno da Personalidade preexistente,
o Transtorno da Personalidade deve também ser registrado
no Eixo II, seguido da expressão "Pré-Mórbido",
entre parênteses. O clínico deve ter cautela ao diagnosticar
Transtornos da Personalidade durante um episódio de Transtorno
do Humor ou um Transtorno de Ansiedade, porque essas condições
podem ter aspectos sintomáticos transeccionais que imitam
traços de personalidade, podendo dificultar a avaliação
retrospectiva dos padrões de funcionamento a longo prazo
do indivíduo. Quando alterações de personalidade emergem
e persistem após a exposição de um indivíduo a um estresse
extremo, um diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático
deve ser considerado. Quando uma pessoa tem um Transtorno
Relacionado a Substâncias, é importante não fazer um diagnóstico
de Transtorno da Personalidade com base unicamente em
comportamentos resultantes de Intoxicação com Substância
ou Abstinência de Substância ou associados com atividades
a serviço da manutenção de uma dependência (por ex., comportamento
anti-social). Quando alterações persistentes da personalidade
surgem como resultado dos efeitos fisiológicos diretos
de uma condição médica geral (por ex., tumor cerebral),
um diagnóstico de Transtorno da Personalidade Devido a
uma Condição Médica Geral deve ser considerado. Os Transtornos
da Personalidade devem ser diferenciados de traços de
personalidade que não atingem o limiar para um Transtorno
da Personalidade. Os traços de personalidade são diagnosticados
como Transtorno da Personalidade apenas quando são inflexíveis,
mal-adaptativos e persistentes e causam significativo
prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo.
|
Critérios Diagnósticos para
um Transtorno da Personalidade |
| A.
Um padrão persistente de vivência íntima ou
comportamento que se desvia acentuadamente das
expectativas da cultura do indivíduo. Este padrão
manifesta-se em duas (ou mais) das seguintes
áreas: |
| (1)
cognição (isto é, modo de perceber e interpretar
a si mesmo, outras pessoas e eventos)
(2) afetividade (isto é, variação, intensidade,
labilidade e adequação da resposta emocional)
(3) funcionamento interpessoal
(4) controle dos impulsos |
| B.
O padrão persistente é inflexível e abrange
uma ampla faixa de situações pessoais e sociais. |
| C.
O padrão persistente provoca sofrimento clinicamente
significativo ou prejuízo no funcionamento social,
ocupacional ou em outras áreas importantes da
vida do indivíduo. |
| D.
O padrão é estável e de longa duração, podendo
seu início remontar à adolescência ou começo
da idade adulta. |
| E.
O padrão persistente não é melhor explicado
como uma manifestação ou conseqüência de outro
transtorno mental. |
| F.
O padrão persistente não é decorrente dos efeitos
fisiológicos diretos de uma substância (por
ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma
condição médica geral (por ex., traumatismo
craniano). |
Modelos Dimensionais
para Transtornos da Personalidade
O enfoque
diagnóstico usado neste manual representa a perspectiva
categórica de que os Transtornos da Personalidade representam
síndromes clínicas qualitativamente distintas. Uma alternativa
ao enfoque categórico é a perspectiva dimensional de que
os Transtornos da Personalidade representam variações
mal-adaptativas de traços de personalidade que imperceptivelmente
se fundem com a normalidade e uns com os outros. Muitas
tentativas já foram feitas no sentido de identificar as
dimensões mais fundamentais subjacentes a todo o domínio
do funcionamento normal e patológico da personalidade.
Um modelo consiste das cinco dimensões seguintes: neuroticidade,
introversão versus extroversão, fechamento versus abertura
à experiência, antagonismo versus concordância, e conscienciosidade.
Um outro enfoque consiste em descrever áreas mais específicas
de disfunção da personalidade, incluindo até 15-40 dimensões
(por ex., reatividade afetiva, apreensão social, distorção
cognitiva, impulsividade, não-sinceridade, egocentrismo).
Outras dimensões estudadas incluem busca de novidades,
dependência de incentivos, esquiva de perigos, dominância,
afiliação, acanhamento, persistência, emocionalidade positiva
versus emocionalidade negativa, busca do prazer versus
esquiva da dor, acomodação passiva versus modificação
ativa e auto-expansão versus apoio ao crescimento de outros.
Os agrupamentos dos Transtornos da Personalidade do DSM-IV
(isto é, esquisito-excêntrico, dramático-emotivo e ansioso-medroso)
também podem ser vistos como dimensões que representam
espectros de disfunções da personalidade em um continuum
com transtornos mentais do Eixo I. A relação dos vários
modelos dimensionais com as categorias diagnósticas dos
Transtornos da Personalidade e com os variados aspectos
das disfunções da personalidade ainda permanece sob investigação.
|
F60.0 - 301.0 - Personalidade
Paranóide |
| DSM.IV |
|
Características Diagnósticas
A
característica essencial do Transtorno da Personalidade
Paranóide é um padrão invasivo de desconfiança e suspeita
quanto aos outros, de modo que seus motivos são interpretados
como malévolos. Este padrão tem início no começo da idade
adulta e está presente em uma variedade de contextos. Os
indivíduos com o transtorno supõem que as outras pessoas
os exploram, prejudicam ou enganam, ainda que não exista
qualquer evidência apoiando esta idéia (Critério A1). Eles
suspeitam, com base em poucas ou nenhuma evidência, que
os outros estão conspirando contra eles e que poderão atacá-los
subitamente, a qualquer momento e sem qualquer razão. Estes
indivíduos costumam acreditar que foram profunda e irreversivelmente
prejudicados por outra(s) pessoa(s), mesmo que para tal
não existam evidências objetivas. Eles preocupam-se com
dúvidas infundadas quanto à lealdade e confiabilidade de
seus amigos ou colegas, cujas ações são minuciosamente examinadas
em busca de evidências de intenções hostis (Critério A2).
Qualquer desvio percebido na confiabilidade ou lealdade
serve para apoiar suas suposições básicas. Eles sentem-se
tão perplexos quando um amigo ou colega lhes demonstra lealdade
que não conseguem confiar ou acreditar. Quando enfrentam
dificuldades, esperam ser atacados ou ignorados por amigos
e colegas. Os indivíduos com este transtorno relutam em
ter confiança ou intimidade com outras pessoas, pelo medo
de que as informações que compartilham sejam usadas contra
eles (Critério A3). Eles podem recusar-se a responder a
perguntas pessoais, afirmando que as informações "não
são da conta de ninguém". Eles lêem significados ocultos,
humilhantes e ameaçadores em comentários ou observações
benignas (Critério A4). Por exemplo, um indivíduo com este
transtorno pode interpretar um engano genuíno cometido por
um balconista como uma tentativa deliberada de enganá-lo
no troco, ou pode interpretar uma observação bem-humorada
e casual feita por um colega de trabalho como um sério ataque
a seu caráter. Elogios freqüentemente são mal interpretados
(por ex., um cumprimento por uma nova aquisição é interpretado
como uma crítica a seu egoísmo; um elogio por uma conquista
é interpretado como uma tentativa de forçá-lo a um desempenho
maior e melhor). Eles podem interpretar uma oferta de auxílio
como uma crítica por não estarem fazendo o suficiente por
conta própria. Os indivíduos com este transtorno guardam
rancores persistentes e relutam em perdoar os insultos,
ofensas ou deslizes dos quais pensam ter sido vítimas (Critério
A5). Pequenos deslizes causam grande hostilidade, e os sentimentos
hostis persistem por muito tempo. Uma vez que estão constantemente
vigilantes quanto às intenções nocivas dos outros, eles
acham, muito freqüentemente, que seu caráter ou reputação
foram atacados ou que de alguma forma foram menosprezados.
Seu contra-ataque é rápido e reagem com raiva aos insultos
percebidos (Critério A6). Os indivíduos com este transtorno
podem ser patologicamente ciumentos, freqüentemente suspeitando
da fidelidade de seu cônjuge ou parceiro sexual, sem qualquer
justificativa adequada (Critério A7). Eles podem coletar
"evidências" triviais e circunstanciais para apoiarem
suas crenças ciumentas. Desejam manter um completo controle
de relacionamentos íntimos para evitar traições, podendo
constantemente questionar o paradeiro, as ações, intenções
e fidelidade do cônjuge ou parceiro. O Transtorno da Personalidade
Paranóide não deve ser diagnosticado se o padrão de comportamento
ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia,
Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos, ou outro Transtorno
Psicótico, ou se é decorrente de efeitos fisiológicos diretos
de uma condição neurológica (por ex., epilepsia do lobo
temporal) ou de outra condição médica geral (Critério B).
Características e Transtornos Associados
Os
indivíduos com Transtorno da Personalidade Paranóide são,
em geral, pessoas de difícil convivência, e com freqüência
enfrentam problemas com relacionamentos íntimos. Suas desconfianças
e excessiva hostilidade podem ser expressadas em discussões
agressivas, queixas recorrentes ou afastamento silencioso
e visivelmente hostil. Como são hipervigilantes para possíveis
ameaças, eles podem comportar-se de maneira reservada, velada
ou desviante e parecer "frios" e sem sentimentos
de ternura. Embora possam parecer objetivas, racionais e
não-emocionais, estas pessoas exibem, mais freqüentemente,
uma labilidade afetiva, com predomínio de expressões hostis,
obstinadas e sarcásticas. Sua natureza combativa e desconfiada
pode provocar uma resposta hostil dos outros, o que então
serve para confirmar suas expectativas originais. Uma vez
que os indivíduos com Transtorno da Personalidade Paranóide
não confiam nos outros, eles têm uma necessidade excessiva
de auto-suficiência e um forte sentido de autonomia. Eles
também precisam ter um alto grau de controle sobre as pessoas
à sua volta. Esses indivíduos freqüentemente são rígidos,
críticos em relação aos outros e incapazes de colaborar,
embora tenham grande dificuldade em aceitar críticas a eles
mesmos. Eles podem culpar os outros por suas dificuldades.
Em vista de sua rapidez para contra-atacar em resposta às
ameaças que percebem à sua volta, podem ser litigantes e
freqüentemente se envolver em disputas legais. Os indivíduos
com este transtorno tentam confirmar suas noções negativas
pré-concebidas envolvendo pessoas ou situações que encontram,
atribuindo motivações malévolas aos outros, que na verdade
não passam de projeções de seus próprios temores. Eles podem
apresentar fantasias grandiosas e irrealistas fracamente
encobertas, em geral estão atentos a temas de poder e hierarquia
e tendem a desenvolver estereótipos negativos de outros,
particularmente de grupos populacionais distintos. Atraídos
por formulações simplistas do mundo, eles freqüentemente
evitam situações ambíguas. Estes indivíduos podem ser percebidos
como "fanáticos" e formar "cultos" ou
grupos estreitamente fechados com outros que compartilham
seu sistema de crenças paranóides. Particularmente em resposta
ao estresse, os indivíduos com este transtorno podem vivenciar
episódios psicóticos muito breves (durando de minutos a
horas). Em alguns casos, o Transtorno da Personalidade Paranóide
pode aparecer como antecedente pré-mórbido do Transtorno
Delirante ou da Esquizofrenia. Os indivíduos com este transtorno
podem desenvolver um Transtorno Depressivo Maior e estar
em risco aumentado para Agorafobia e Transtorno Obsessivo-Compulsivo.
Freqüentemente ocorrem Abuso ou Dependência de Álcool ou
de outra substância. Os Transtornos da Personalidade concomitantes
mais freqüentes parecem ser os Transtornos da Personalidade
Esquizotípica, Esquizóide, Narcisista, Esquiva e Borderline.
Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
Alguns
comportamentos influenciados pelo contexto sócio-cultural
ou circunstâncias de vida específicas podem ser erroneamente
rotulados como paranóides e até mesmo ser reforçados pelo
processo de avaliação clínica. Os membros de grupos minoritários,
imigrantes, refugiados políticos e econômicos ou indivíduos
de diferentes bagagens étnicas podem apresentar comportamentos
reservados ou defensivos, devido à falta de familiaridade
(por ex., barreiras lingüísticas ou falta de conhecimento
de regras e regulamentos) ou em resposta a uma negligência
ou indiferença percebida da parte da sociedade majoritária.
Esses comportamentos, por sua vez, podem gerar raiva e frustração
nas pessoas que lidam com esses indivíduos, desta forma
estabelecendo-se um círculo vicioso de desconfiança mútua,
que não deve ser confundido com Transtorno da Personalidade
Paranóide. Alguns grupos étnicos também exibem comportamentos
relacionados à cultura, que podem ser erroneamente interpretados
como paranóides. O Transtorno da Personalidade Paranóide
pode manifestar-se pela primeira vez na infância e adolescência,
por uma tendência a ficar solitário, fracos relacionamentos
com seus pares, ansiedade social, baixo rendimento escolar,
suscetibilidade excessiva, pensamentos e linguagem peculiares
e fantasias idiossincráticas. Essas crianças podem parecer
"esquisitas" ou "excêntricas" e provocar
zombaria. Em amostras clínicas, este transtorno parece ser
diagnosticado com maior freqüência em homens.
Prevalência
A
prevalência relatada do Transtorno da Personalidade Paranóide
é de 0,5-2,5% na população geral, 10-30% em contextos de
internação psiquiátrica e 2-10% em ambulatórios de saúde
mental.
Padrão Familial
Existem
algumas evidências de maior prevalência do Transtorno da
Personalidade Paranóide em parentes de probandos com Esquizofrenia
crônica e de um relacionamento familial mais específico
com o Transtorno Delirante, Tipo Persecutório.
Diagnóstico Diferencial
O
Transtorno da Personalidade Paranóide pode ser diferenciado
de Transtorno Delirante, Tipo Persecutório, Esquizofrenia,
Tipo Paranóide e Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos
porque esses transtornos são caracterizados por um período
de sintomas psicóticos persistentes (por ex., delírios e
alucinações). Para que haja um diagnóstico adicional de
Transtorno da Personalidade Paranóide, o Transtorno da Personalidade
deve ter estado presente antes do início dos sintomas psicóticos
e persistir quando os sintomas psicóticos estiverem em remissão.
Quando um indivíduo tem um Transtorno Psicótico crônico
do Eixo I (por ex., Esquizofrenia) precedido por um Transtorno
da Personalidade Paranóide, este deve ser registrado no
Eixo II seguido da expressão "Pré-Mórbido", entre
parênteses. O Transtorno da Personalidade Paranóide deve
ser diferenciado de uma Alteração da Personalidade Devido
a uma Condição Médica Geral, na qual os traços emergem devido
aos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica
geral sobre o sistema nervoso central. Ele também deve ser
distinguido de sintomas que podem desenvolver-se em associação
com o uso crônico de substâncias (por ex., Transtorno Relacionado
à Cocaína, Sem Outra Especificação). Finalmente, ele deve
ser distinguido também de traços paranóides associados com
o desenvolvimento de deficiências físicas (por ex., um prejuízo
auditivo). Outros Transtornos da Personalidade podem ser
confundidos com o Transtorno da Personalidade Paranóide,
por terem certas características em comum. Portanto, é importante
distinguir esses transtornos com base nas diferenças em
seus aspectos característicos. Entretanto, se um indivíduo
tem características de personalidade que satisfazem os critérios
para um ou mais Transtornos da Personalidade além do Transtorno
da Personalidade Paranóide, todos podem ser diagnosticados.
O Transtorno da Personalidade Paranóide e o Transtorno da
Personalidade Esquizotípica compartilham os traços de desconfiança,
distanciamento interpessoal e ideação paranóide, mas o Transtorno
da Personalidade Esquizotípica também inclui sintomas tais
como pensamento mágico, experiências perceptivas incomuns
e pensamento e discurso esquisitos. Os indivíduos com comportamentos
que satisfazem os critérios para Transtorno da Personalidade
Esquizóide freqüentemente são percebidos como estranhos,
excêntricos, frios e distantes, mas geralmente não possuem
ideação paranóide proeminente. A tendência dos indivíduos
com Transtorno da Personalidade Paranóide a reagir com raiva
a estímulos menores também é vista nos Transtornos da Personalidade
Borderline e Histriônica. Entretanto, esses transtornos
não estão associados, necessariamente, com desconfianças
invasivas. Os indivíduos com Transtorno da Personalidade
Esquiva também podem relutar em confiar em outras pessoas,
porém mais por causa do medo de sentirem embaraço ou serem
considerados inadequados do que por medo das intenções maldosas
dos outros. Embora um comportamento anti-social possa estar
presente em alguns indivíduos com Transtorno da Personalidade
Paranóide, ele geralmente não é motivado por um desejo de
obter vantagens pessoais ou explorar os outros, como no
Transtorno da Personalidade Anti-Social, porém se deve,
mais freqüentemente, a um desejo de vingança. Os indivíduos
com Transtorno da Personalidade Narcisista podem às vezes
apresentar desconfianças, retraimento ou afastamento social,
mas estes derivam principalmente do medo de que sejam reveladas
suas falhas ou imperfeições. Os traços paranóides podem
ser adaptativos, particularmente em ambientes ameaçadores.
O Transtorno da Personalidade Paranóide deve ser diagnosticado
apenas quando esses traços são inflexíveis, mal-adaptativos
e persistentes e causam prejuízo significativo ou sofrimento
subjetivo.
Critérios Diagnósticos para F60.0 - 301.0 Transtorno
da Personalidade Paranóide |
| A.
Um padrão de desconfiança e suspeitas invasivas
em relação aos outros, de modo que seus motivos
são interpretados como malévolos, que começa no
início da idade adulta e se apresenta em uma variedade
de contextos, como indicado por pelo menos quatro
dos seguintes critérios:
(1) suspeita, sem fundamento suficiente, de estar
sendo explorado, maltratado ou enganado pelos
outros
(2) preocupa-se com dúvidas infundadas acerca
da lealdade ou confiabilidade de amigos ou colegas
(3) reluta em confiar nos outros por um medo infundado
de que essas informações possam ser maldosamente
usadas contra si
(4) interpreta significados ocultos, de caráter
humilhante ou ameaçador, em observações ou acontecimentos
benignos
(5) guarda rancores persistentes, ou seja, é implacável
com insultos, injúrias ou deslizes
(6) percebe ataques a seu caráter ou reputação
que não são visíveis pelos outros e reage rapidamente
com raiva ou contra-ataque (7) tem suspeitas recorrentes,
sem justificativa, quanto à fidelidade do cônjuge
ou parceiro sexual. |
| B.
Não ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia,
Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos ou
outro Transtorno Psicótico, nem é decorrente dos
efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica
geral. |
| Nota:
Se os critérios são satisfeitos antes do início
de Esquizofrenia, acrescentar "Pré-Mórbido",
por ex., "Transtorno da Personalidade Paranóide
(Pré-Mórbido)". |
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F60.1 - 301.20 - Personalidade
Esquizóide |
| DSM.IV |
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Características Diagnósticas
A
característica essencial do Transtorno da Personalidade
Esquizóide é um padrão invasivo de distanciamento de relacionamentos
sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos
interpessoais. Este padrão começa no início da idade adulta
e se apresenta em variados contextos. Os indivíduos com
Transtorno da Personalidade Esquizóide parecem não possuir
um desejo de intimidade, mostram-se indiferentes às oportunidades
de desenvolver relacionamentos íntimos, e parecem não obter
muita satisfação do fato de fazerem parte de uma família
ou de outro grupo social (Critério A1). Eles preferem passar
seu tempo sozinhos a estarem com outras pessoas. Com freqüência,
parecem ser socialmente isolados ou "solitários",
quase sempre escolhendo atividades ou passatempos solitários
que não envolvam a interação com outras pessoas (Critério
A2). Eles preferem tarefas mecânicas ou abstratas, tais
como jogos matemáticos ou de computador. Podem ter pouco
interesse em experiências sexuais com outra pessoa (Critério
A3) e têm prazer em poucas atividades (se alguma) (Critério
A4). Existe, geralmente, uma experiência reduzida de prazer
em experiências sensoriais, corporais ou interpessoais,
tais como caminhar na praia ao pôr-do-sol ou fazer sexo.
Esses indivíduos não têm amigos íntimos ou confidentes,
exceto, possivelmente, algum parente em primeiro grau (Critério
A5). Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizóide
freqüentemente se mostram indiferentes à aprovação ou crítica
e parecem não se importar com o que os outros possam pensar
deles (Critério A6). Eles podem ignorar as sutilezas normais
da interação social e com freqüência não respondem adequadamente
aos indicadores sociais, de modo que parecem socialmente
ineptos ou superficiais e absortos consigo mesmos. Eles
geralmente exibem um exterior "insosso", sem reatividade
emocional visível, e raramente retribuem gestos ou expressões
faciais, tais como sorrisos ou acenos (Critério A7). Afirmam
que raramente experimentam fortes emoções, tais como raiva
e alegria, freqüentemente exibem um afeto restrito e parecem
frios e indiferentes. Entretanto, em circunstâncias muito
incomuns nas quais estes indivíduos, pelo menos temporariamente,
sentem-se mais à vontade para se revelarem, podem reconhecer
sentimentos dolorosos, particularmente relacionados a interações
sociais. O Transtorno da Personalidade Esquizóide não deve
ser diagnosticado se o padrão de comportamento ocorre exclusivamente
durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Humor Com
Aspectos Psicóticos, outro Transtorno Psicótico ou um Transtorno
Invasivo do Desenvolvimento, ou se é decorrente dos efeitos
fisiológicos diretos de uma condição neurológica (por ex.,
epilepsia do lobo temporal) ou outra condição médica geral
(Critério B).
Características e Transtornos Associado
s
Indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizóide podem
ter uma particular dificuldade para expressar raiva, mesmo
em resposta à provocação direta, o que contribui para a
impressão de não possuírem emoções. Suas vidas freqüentemente
parecem não ter um rumo, parecendo "andar a esmo",
em termos de metas. Esses indivíduos muitas vezes reagem
passivamente a circunstâncias adversas e têm dificuldade
em responder adequadamente a acontecimentos importantes
de suas vidas. Em vista de sua falta de habilidades sociais
e de desejo de ter experiências sexuais, os indivíduos com
este transtorno têm poucos relacionamentos, encontros românticos
infreqüentes e comumente não se casam. O funcionamento ocupacional
pode estar prejudicado, particularmente se houver necessidade
de envolvimento pessoal, mas os indivíduos com este transtorno
podem sair-se bem quando trabalham em condições de isolamento
social. Particularmente em resposta ao estresse, os indivíduos
com este transtorno podem vivenciar episódios psicóticos
muito breves (durando de minutos a horas). Em alguns casos,
o Transtorno da Personalidade Esquizóide pode aparecer como
antecedente pré-mórbido de Transtorno Delirante ou Esquizofrenia.
Os indivíduos com este transtorno podem, por vezes, desenvolver
um Transtorno Depressivo Maior. O Transtorno da Personalidade
Esquizóide co-ocorre mais freqüentemente com os Transtornos
da Personalidade Esquizotípica, Paranóide e Esquiva.
Características Específicas à Cultura, à Idade e ao
Gênero
Os
indivíduos de variados contextos culturais por vezes exibem
comportamentos defensivos e estilos interpessoais que podem
ser erroneamente rotulados de esquizóides. Por exemplo,
os indivíduos que se mudam de ambientes rurais para áreas
metropolitanas podem reagir com uma "paralisia emocional"
que pode perdurar por vários meses e se manifestar por atividades
solitárias, afeto restrito e outros déficits de comunicação.
Os imigrantes de outros países às vezes são erroneamente
percebidos como frios, hostis ou indiferentes. O Transtorno
da Personalidade Esquizóide pode aparecer pela primeira
vez na infância ou adolescência na forma de solidão, fracos
relacionamentos com seus pares e baixo rendimento escolar,
o que pode deixar essas crianças e adolescentes marcados
como diferentes e sujeitos a zombarias. O Transtorno da
Personalidade Esquizóide é diagnosticado com uma freqüência
levemente superior em homens, nos quais pode causar maior
comprometimento.
Prevalência
O
Transtorno da Personalidade Esquizóide é raro em contextos
clínicos.
Padrão Familial
O
Transtorno da Personalidade Esquizóide pode ter uma prevalência
maior entre os parentes de indivíduos com Esquizofrenia
ou Transtorno da Personalidade Esquizotípica.
Diagnóstico Diferencial
O
Transtorno da Personalidade Esquizóide pode ser diferenciado
de Transtorno Delirante, Esquizofrenia e Transtorno do Humor
Com Aspectos Psicóticos, uma vez que todos esses transtornos
caracterizam-se por um período de sintomas psicóticos persistentes
(por ex., delírios e alucinações). Para um diagnóstico adicional
de Transtorno da Personalidade Esquizóide, este deve ter
estado presente antes do início dos sintomas psicóticos
e persistir após a remissão destes. Quando um indivíduo
tem um Transtorno Psicótico crônico do Eixo I (por ex.,
Esquizofrenia) que foi precedido pelo Transtorno da Personalidade
Esquizóide, este último deve ser registrado no Eixo II,
seguido da expressão "Pré-Mórbido", entre parênteses.
Pode ser muito difícil distinguir entre indivíduos com Transtorno
da Personalidade Esquizóide e aqueles com formas mais leves
de Transtorno Autista e com Transtorno de Asperger. As formas
mais leves de Transtorno Autista e o Transtorno de Asperger
distinguem-se por uma interação social mais severamente
prejudicada e estereotipia de comportamentos e interesses.
O Transtorno da Personalidade Esquizóide deve ser distinguido
de uma Alteração da Personalidade Devido a uma Condição
Médica Geral, em que os traços emergem devido aos efeitos
diretos de uma condição médica geral sobre o sistema nervoso
central. Ele também deve ser diferenciado de sintomas que
podem desenvolver-se em associação com o uso crônico de
substâncias (por ex., Transtorno Relacionado à Cocaína Sem
Outra Especificação). Outros Transtornos da Personalidade
podem ser confundidos com o Transtorno da Personalidade
Esquizóide, por terem certos aspectos em comum, o que torna
importante distinguir esses transtornos com base nas diferenças
em seus aspectos característicos. Entretanto, se um indivíduo
tem características de personalidade que satisfazem os critérios
para um ou mais Transtornos da Personalidade além do Transtorno
da Personalidade Esquizóide, todos podem ser diagnosticados.
Embora as características de isolamento social e afetividade
restrita sejam comuns aos Transtornos da Personalidade Esquizóide,
Esquizotípica e Paranóide, o Transtorno da Personalidade
Esquizóide pode ser diferenciado do Transtorno da Personalidade
Esquizotípica pela falta de distorções cognitivas ou perceptivas
e do Transtorno da Personalidade Paranóide, pela falta de
desconfianças e ideação paranóide. O isolamento social do
Transtorno da Personalidade Esquizóide pode ser diferenciado
daquele do Transtorno da Personalidade Esquiva, que é devido
ao medo de sentir embaraço ou ser considerado inadequado
e a uma excessiva previsão de rejeição. Em contraste, as
pessoas com Transtorno da Personalidade Esquizóide têm um
distanciamento mais abrangente e pouco desejo de intimidade
social. Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
também podem apresentar um aparente distanciamento social,
oriundo da dedicação ao trabalho e do desconforto com as
emoções, mas eles têm uma capacidade básica para a intimidade.
Os indivíduos "solitários" podem exibir traços
de personalidade que poderiam ser considerados esquizóides,
porém eles apenas constituem um Transtorno da Personalidade
Esquizóide quando são inflexíveis e mal-adaptativos e causam
prejuízo funcional significativo ou sofrimento subjetivo.
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Critérios Diagnósticos para
F60.1 - 301.20 Transtorno da Personalidade Esquizóide
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| A.
Um padrão invasivo de distanciamento das relações
sociais e uma faixa restrita de expressão emocional
em contextos interpessoais, que começa no início
da idade adulta e está presente em uma variedade
de contextos, como indicado por pelo menos quatro
dos seguintes critérios:
(1) não deseja nem gosta de relacionamentos íntimos,
incluindo fazer parte de uma família
(2) quase sempre opta por atividades solitárias
(3) manifesta pouco, se algum, interesse em ter
experiências sexuais com outra pessoa
(4) tem prazer em poucas atividades, se alguma
(5) não tem amigos íntimos ou confidentes, outros
que não parentes em primeiro grau
(6) mostra-se indiferente a elogios ou críticas
de outros
(7) demonstra frieza emocional, distanciamento
ou afetividade embotada. |
| B.
Não ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia,
Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos, outro
Transtorno Psicótico ou um Transtorno Invasivo
do Desenvolvimento, nem é decorrente dos efeitos
fisiológicos diretos de uma condição médica geral. |
| Nota:
Se os critérios são satisfeitos antes do início
de Esquizofrenia, acrescentar "Pré-Mórbido",
por ex., "Transtorno da Personalidade Esquizóide
(Pré-Mórbido)". |
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