Os Transtornos Factícios
caracterizam-se por sintomas físicos ou psicológicos intencionalmente produzidos ou
simulados com o fim de assumir o papel de doente. O julgamento de que um determinado
sintoma é intencionalmente produzido é feito por evidências diretas e pela exclusão de
outras causas. Por exemplo, um indivíduo que se apresenta com hematúria é descoberto
com anticoagulantes em seu poder, nega tê-los consumido, mas os exames de sangue são
consistentes com a ingestão de anticoagulantes. Uma inferência razoável, na ausência
de evidências de que ocorreu ingestão acidental, é a de que o indivíduo pode ter
tomado o medicamento intencionalmente. Cabe notar que a presença de sintomas factícios
não exclui a co-existência de sintomas somáticos ou psicológicos verdadeiros. Os
Transtornos Factícios são diferenciados de atos de simulação. Na Simulação, o
indivíduo também produz os sintomas de modo intencional, porém com um objetivo
obviamente perceptível quando as circunstâncias ambientais se tornam conhecidas. Por
exemplo, a produção intencional de sintomas para esquivar-se do dever de fazer parte de
um júri, ser julgado ou ser convocado para o serviço militar seria classificada como
Simulação. Da mesma forma, se um indivíduo hospitalizado para tratamento de um
transtorno mental simula uma exacerbação da doença para evitar a transferência para
outro hospital menos desejável, isto seria um ato de Simulação. Em contrapartida, no
Transtorno Factício, a motivação é uma necessidade psicológica de assumir o papel de
enfermo, evidenciada por uma ausência de incentivos externos para o comportamento. A
Simulação pode ser considerada adaptativa sob certas circunstâncias (por ex., em
situações em que a pessoa é mantida como refém), mas, por definição, um diagnóstico
de Transtorno Factício sempre indica psicopatologia.
F68.1
- Transtorno Factício |
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DSM.IV
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A característica essencial do
Transtorno Factício é a produção intencional de sinais ou sintomas somáticos ou
psicológicos (Critério A). A apresentação pode incluir a fabricação de queixas
subjetivas (por ex., queixas de dor abdominal aguda na ausência de qualquer dor desta
espécie), condições auto-infligidas (por ex., produção de abscessos por injeção
subcutânea de saliva), exagero ou exacerbação de condições médicas gerais
preexistentes (por ex., simulação de uma convulsão de grande mal por um indivíduo com
história prévia de transtorno convulsivo) ou qualquer combinação ou variação destes
elementos. A motivação para o comportamento consiste em assumir o papel de enfermo
(Critério B). Incentivos externos para o comportamento (por ex., ganho econômico,
esquiva de responsabilidades legais ou melhora no bem-estar físico, como na Simulação)
estão ausentes (Critério C). Os indivíduos com Transtorno Factício em geral apresentam
sua história de forma dramática, mas são extremamente vagos e inconsistentes, quando
questionados em maiores detalhes. Eles podem envolver-se em mentiras patológicas, de um
modo intrigante para o ouvinte, acerca de qualquer aspecto de sua história ou sintomas
(isto é, pseudologia fantástica). Eles freqüentemente possuem um extenso conhecimento
da terminologia médica e das rotinas hospitalares. Queixas de dor e solicitação de
analgésicos são muito comuns. Após uma extensa investigação de suas queixas
principais inicialmente apresentados ter-se mostrado negativa, eles em geral passam a se
queixar de outros problemas somáticos ou psicológicos e produzem mais sintomas
factícios. Os indivíduos com este transtorno podem submeter-se com avidez a múltiplos
procedimentos e operações invasivas. Hospitalizados, habitualmente recebem poucas
visitas. Por fim, pode ser alcançado um ponto em que a natureza factícia de seus
sintomas é revelada (por ex., o paciente é reconhecido por alguém que o encontrou em
uma baixa anterior; outros hospitais confirmam hospitalizações prévias por
sintomatologia factícia). Quando confrontados com evidências de que seus sintomas são
factícios, os indivíduos com este transtorno geralmente negam as alegações ou
abandonam rapidamente o hospital, contrariando disposições médicas. Freqüentemente,
eles são admitidos, logo depois, em um outro hospital. Suas repetidas hospitalizações
muitas vezes os levam a numerosas cidades, estados e países.
Subtipos
O Transtorno Factício é
codificado de acordo com o subtipo que melhor caracteriza os sintomas predominantes.
300.16 Com Sinais e Sintomas Predominantemente Psicológicos.
Este subtipo descreve uma apresentação clínica na qual predominam sinais e sintomas
psicológicos. Ele caracteriza-se pela produção intencional ou simulação de sintomas
psicológicos (freqüentemente psicóticos) sugestivos de um transtorno mental. O objetivo
do indivíduo aparentemente consiste em assumir o papel de "paciente", não
sendo compreensível de outra forma, à luz das circunstâncias ambientais (contrastando
com o caso da Simulação). Este subtipo pode ser sugerido por uma sintomatologia ampla,
que freqüentemente não corresponde a um padrão típico de qualquer síndrome, curso e
resposta incomuns ao tratamento e piora dos sintomas quando o indivíduo sabe que está
sendo observado. Os indivíduos com este subtipo de Transtorno Factício podem citar
depressão e ideação suicida após a morte de um cônjuge (quando a morte não é
confirmada por outros informantes), perda de memória (recente e remota), alucinações
(auditivas e visuais) e sintomas dissociativos. Estes indivíduos podem ser extremamente
sugestionáveis e endossar muitos dos sintomas trazidos à tona durante uma revisão de
sistemas. Inversamente, podem ser extremamente negativistas, relutando em cooperar quando
questionados. A apresentação geralmente reflete o conceito que o indivíduo tem de
transtorno mental, podendo não se enquadrar em qualquer categoria diagnóstica conhecida.
300.19 Com Sinais e Sintomas Predominantemente Físicos.
Este subtipo descreve uma apresentação clínica na qual predominam sinais e sintomas de
uma aparente condição médica geral. Toda a vida do indivíduo pode consistir de
tentativas de ser baixado ou permanecer baixado em hospitais (conhecido como
"síndrome de Munchausen"). Quadros clínicos comuns incluem dor abdominal
severa no quadrante inferior direito associada com náusea e vômitos, tonturas e perda da
consciência, hemoptise maciça, erupções e abscessos generalizados, febre de origem
indeterminada, sangramento secundário à ingestão de anticoagulantes e síndromes
"tipo lúpus". Todos os sistemas orgânicos são alvos potenciais, limitando-se
os sintomas apresentados apenas pelos conhecimentos médicos do indivíduo, sua
sofisticação e imaginação.
300.19 Com Sinais e Sintomas Psicológicos e Físicos Combinados.
Este subtipo descreve uma apresentação clínica na qual sinais e sintomas tanto
psicológicos quanto físicos estão presentes, sem predomínio de nenhum deles.
Características e Transtornos Associados
No Transtorno Factício Com Sinais
e Sintomas Predominantemente Psicológicos, pode ocorrer o oferecimento de respostas
aproximadas (por ex., 8 vezes 8 igual a 65). O indivíduo pode subrepticiamente usar
substâncias psicoativas com o fim de produzir sintomas que sugerem um transtorno mental
(por ex., estimulantes para produzir inquietação ou insônia, alucinógenos para induzir
estados de percepção alterados, analgésicos para induzir euforia e hipnóticos para
induzir letargia). Combinações de substâncias psicoativas podem produzir
apresentações muito incomuns. Os indivíduos com Transtorno Factício com Sinais e
Sintomas Predominantemente Físicos podem também se apresentar com Abuso de Substância,
particularmente de analgésicos e sedativos prescritos. Múltiplas hospitalizações
freqüentemente levam a condições médicas gerais iatrogênicas (por ex., a formação
de tecido cicatricial por cirurgias desnecessárias ou reações medicamentosas adversas).
Os indivíduos com a forma crônica deste transtorno podem apresentar um "abdômen em
grade" por múltiplos procedimentos cirúrgicos. O Transtorno Factício geralmente é
incompatível com a manutenção de um emprego, laços familiares e relacionamentos
interpessoais estáveis. Possíveis fatores predisponentes para o Transtorno Factício
podem incluir a presença de outros transtornos mentais ou condições médicas gerais
durante a infância ou adolescência que levaram a tratamentos e hospitalizações
extensos; rancor contra a profissão médica; emprego em um posto relacionado à área
médica; presença de um severo Transtorno da Personalidade e um relacionamento importante
com um médico no passado.
Prevalência
As informações sobre a
prevalência do Transtorno Factício são limitadas. Embora este diagnóstico raramente
seja relatado, ele muitas vezes pode passar despercebido. Por outro lado, a forma crônica
do transtorno pode ser excessivamente relatada, porque os mesmos indivíduos afetados
consultam diferentes médicos em diferentes hospitais, freqüentemente sob nomes
diferentes. O transtorno aparentemente é mais comum em homens do que em mulheres.
Curso
O curso do Transtorno Factício
pode ser limitado a um ou mais episódios breves, mas geralmente é crônico. O início
costuma ocorrer nos primeiros anos da idade adulta, freqüentemente após uma
hospitalização por uma condição médica geral ou um outro transtorno mental. Na forma
crônica deste transtorno, um padrão de sucessivas hospitalizações pode persistir pelo
resto da vida.
Diagnóstico Diferencial
Um Transtorno Factício deve ser
diferenciado de uma verdadeira condição médica geral e de um verdadeiro transtorno
mental. Suspeitas de que um aparente transtorno mental ou condição médica geral na
verdade representam um Transtorno Factício devem surgir sempre que qualquer combinação
dos seguintes fatores é percebida em um indivíduo hospitalizado: uma apresentação
atípica e dramática que não se enquadra em uma condição médica geral ou transtorno
mental identificáveis; sintomas ou comportamentos que estão presentes apenas quando o
indivíduo está sendo observado; pseudologia fantástica; comportamento perturbador na
enfermaria (por ex., falta de obediência aos regulamentos do hospital, discussões
excessivas com enfermeiros e médicos); extensos conhecimentos sobre a terminologia
médica e rotinas hospitalares; uso velado de substâncias; evidências de múltiplos
tratamentos (por ex., cirurgias repetidas, repetidos cursos de terapia eletroconvulsiva);
uma história extensa de viagens; poucos ou nenhum visitante enquanto hospitalizado, e um
curso clínico flutuante, com rápido desenvolvimento de "complicações" ou
nova "patologia", uma vez que a investigação inicial se mostre negativa. Nos
Transtornos Somatoformes, queixas físicas que não são plenamente atribuíveis a uma
verdadeira condição médica geral também estão presentes, mas os sintomas não são
intencionalmente produzidos. A Simulação difere do Transtorno Factício no sentido de
que a motivação para a produção dos sintomas na Simulação é representada por um
incentivo externo, enquanto no Transtorno Factício inexistem incentivos externos. O
indivíduo com Simulação pode buscar a hospitalização mediante a produção de
sintomas com o fim de obter compensações financeiras, fugir da polícia ou simplesmente
"ter onde passar a noite". Entretanto, o objetivo em geral é aparente, podendo
os sintomas "cessar" quando não mais têm utilidade.
Critérios Diagnósticos para Transtorno Factício |
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A.
Produção ou simulação intencional de sinais ou sintomas físicos ou psicológicos.
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B. A
motivação para o comportamento consiste em assumir o papel de enfermo.
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C.
Incentivos externos para o comportamento (tais como vantagens econômicas, esquiva de
responsabilidades legais ou melhora no bem-estar físico, como na Simulação) estão
ausentes.
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Codificar
com base no tipo:
300.16 Com Sinais e Sintomas Predominantemente Psicológicos: se sinais e sintomas
psicológicos predominam na apresentação clínica.
300.19 Com Sinais e Sintomas Predominantemente Físicos: se sinais e sintomas físicos
predominam na apresentação clínica. 300.19 Com Sinais e Sintomas Psicológicos e
Físicos Combinados: se sinais e sintomas tanto psicológicos quanto físicos estão
presentes, sem predomínio de nenhum deles na apresentação clínica.
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F68.1
- 300.19 Transtorno Factício Sem Outra Especificação |
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DSM.IV
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Esta categoria inclui transtornos
com sintomas factícios que não satisfazem os critérios para Transtorno Factício. Um
exemplo é o Transtorno Factício por procuração: a produção ou simulação
intencional de sinais ou sintomas físicos ou psicológicos em uma outra pessoa que está
sob os cuidados do indivíduo, com o fim de assumir indiretamente o papel de enfermo. |