Os transtornos na seção "Demência" caracterizam-se pelo
desenvolvimento de múltiplos déficits cognitivos (incluindo comprometimento da memória)
devido aos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral, aos efeitos
persistentes de uma substância ou a múltiplas etiologias (por ex., os efeitos combinados
de doença cerebrovascular e doença de Alzheimer). Os transtornos nesta seção
compartilham uma apresentação sintomática comum, mas são diferenciados com base em sua
etiologia.
Além disso, a categoria Demência
Sem Outra Especificação é incluída nesta seção para apresentações
nas quais o clínico é incapaz de determinar uma etiologia específica para os múltiplos
déficits cognitivos.
Características Diagnósticas
A característica essencial de uma
demência é o desenvolvimento de múltiplos déficits cognitivos, que incluem
comprometimento da memória e pelo menos uma das seguintes perturbações cognitivas:
afasia, apraxia, agnosia ou uma perturbação do funcionamento executivo. Os déficits
cognitivos devem ser suficientemente severos para comprometer o funcionamento ocupacional
ou social e representar um declínio em relação a um nível anteriormente superior de
funcionamento. Um diagnóstico de demência não deve ser feito se os déficits cognitivos
ocorrem exclusivamente durante o curso de um delirium. Entretanto, demência e delirium
podem ambos ser diagnosticados, se a demência está presente em períodos de ausência de
delirium. A demência pode estar etiologicamente relacionada a uma condição médica
geral, aos efeitos persistentes do uso de uma substância (incluindo exposição a
toxinas) ou a uma combinação desses fatores. Um comprometimento da memória é
necessário para fazer um diagnóstico de demência, sendo um sintoma inicial proeminente
(Critério A1). Os indivíduos com demência ficam comprometidos em sua capacidade de
aprender coisas novas, ou esquecem de coisas que anteriormente sabiam. A maioria dos
indivíduos com demência tem ambas as formas de comprometimento da memória, embora às
vezes seja difícil demonstrar a perda de coisas sabidas anteriormente logo no início do
curso do transtorno. Eles podem perder objetos importantes como carteiras e chaves,
esquecer alimentos cozinhando no fogão e se perder em locais que não lhes são
familiares. Em estágios avançados de demência, o comprometimento da memória é tão
severo que a pessoa se esquece de sua própria profissão, escolaridade, aniversário,
membros da família e, às vezes, até mesmo seu próprio nome. A memória pode ser
testada formalmente pedindo à pessoa que registre, retenha, recorde e reconheça
informações. A capacidade de aprender novas informações pode ser avaliada pedindo-se
ao indivíduo que memorize uma lista de palavras. O indivíduo é solicitado a repetir as
palavras (registro), recordar a informação após alguns minutos (retenção,
recordação) e reconhecer as palavras a partir de uma lista múltipla (reconhecimento).
Os indivíduos com dificuldade para aprender novas informações não obtêm auxílio a
partir de indicadores ou sugestões (por ex., questões de múltipla escolha), uma vez que
não aprenderam o material inicialmente. Em comparação, indivíduos com déficits
primários na recuperação podem ser auxiliados por sugestões e indicadores, uma vez que
seu comprometimento reside na capacidade de acessar as recordações. A memória remota
pode ser testada pedindo ao indivíduo que recorde informações pessoais ou coisas do
passado que ele achava interessantes (por ex., política, esportes, variedades). Também
é importante determinar (a partir do indivíduo e informantes) o impacto das
perturbações da memória sobre o funcionamento do indivíduo (por ex., capacidade de
trabalhar, ir às compras, cozinhar, pagar contas, voltar para casa sem se perder). A
deterioração das funções da linguagem (afasia) pode manifestar-se por dificuldade na
evocação de nomes de pessoas e objetos (Critério A2a). O discurso dos indivíduos com
afasia pode tornar-se digressivo ou vazio, com longos circunlóquios e uso excessivo de
termos indefinidos de referência tais como "coisa" e "aquilo". A
compreensão da linguagem falada e escrita e a produção da linguagem também podem estar
comprometidas. Em estágios avançados de demência, os indivíduos podem ficar mudos ou
ter um padrão deteriorado de linguagem, caracterizado por ecolalia (isto é, fazer eco ao
que é ouvido) ou palilalia (isto é, repetir os próprios sons ou palavras
indefinidamente). A linguagem é testada solicitando-se ao indivíduo que nomeie objetos
na sala (por ex., gravata, vestido, mesa, lâmpada) ou partes do corpo (por ex., nariz,
queixo, ombro), obedeça a comandos ("Aponte para a porta e depois para a mesa")
ou repita frases simples. Os indivíduos com demência podem apresentar apraxia (isto é,
prejuízo na capacidade de executar atividades motoras, apesar de as capacidades motoras,
função sensorial e compreensão estarem intactas para a tarefa exigida) (Critério A2b).
Eles apresentam prejuízo em sua capacidade de demonstrar com mímica o uso de objetos
(por ex., pentear os cabelos) ou de executar atos motores conhecidos (por ex., acenar
dizendo adeus). A apraxia pode contribuir para déficits nos atos de cozinhar, vestir-se e
desenhar. As perturbações na habilidade motora podem ser testadas pedindo que o
indivíduo execute funções motoras (por ex., mostrar como se escova os dentes, copiar
pentágonos que se intercruzam, montar blocos, ou arranjar varetas em desenhos
específicos). Os indivíduos com demência podem apresentar agnosia (isto é, fracasso em
reconhecer ou identificar objetos, apesar de um função sensorial intacta) (Critério
A2c). Por exemplo, apesar de ter acuidade visual normal, o indivíduo perde a capacidade
de reconhecer objetos tais como cadeiras ou lápis. Por fim, podem tornar-se incapazes de
reconhecer membros de sua família ou até mesmo sua própria imagem no espelho.
Similarmente, podem ter sensações táteis normais, mas ser incapazes de identificar
objetos colocados em suas mãos apenas pelo tato (por ex., uma moeda ou chaves). As
perturbações no funcionamento executivo são uma manifestação comum de demência
(Critério A2d) e podem estar relacionadas especialmente a transtornos do lobo frontal ou
vias subcorticais associadas. O funcionamento executivo envolve a capacidade de pensar
abstratamente e planejar, iniciar, seqüenciar, monitorar e cessar um comportamento
complexo. O prejuízo no pensamento abstrato pode ser manifestado por dificuldade em lidar
com informações novas e complexas. A capacidade de abstração pode ser formalmente
avaliada pedindo à pessoa que encontre semelhanças ou diferenças entre palavras
relacionadas. A disfunção executiva também se evidencia em uma capacidade reduzida de
mudar as configurações mentais, gerar informações novas, verbais e não-verbais e
executar atividades motoras em série. Os testes da função cognitiva incluem pedir ao
indivíduo que conte até 10, recite o alfabeto, subtraia séries de 7's, diga o nome de
tantos animais quantos possa em 1 minuto, ou desenhe uma linha contínua consistindo de
m's e n's alternados. Também é útil determinar (a partir do indivíduo e informantes) o
impacto das perturbações no funcionamento executivo sobre a vida cotidiana do indivíduo
(por ex., capacidade de trabalhar, planejar atividades e o orçamento doméstico). Os
itens no Critério A1 (comprometimento da memória) e no Critério A2 (afasia, apraxia,
agnosia ou perturbação no funcionamento executivo) devem ser suficientemente severos
para causar prejuízo significativo no funcionamento social ou ocupacional (por ex.,
freqüentar a escola, trabalhar, fazer compras, vestir-se, tomar banho, tratar de assuntos
financeiros e outras atividades da vida diária) e devem representar um declínio em um
nível anteriormente superior de funcionamento (Critério B). A natureza e grau de
comprometimento são variáveis, dependendo freqüentemente do contexto social específico
do indivíduo. O mesmo nível de dano cognitivo pode prejudicar significativamente a
capacidade do indivíduo de realizar uma tarefa difícil, mas não algo menos complexo.
Escalas padronizadas já publicadas, que medem a manutenção física (por ex., higiene
pessoal), o funcionamento intelectual e a capacidade de utilizar equipamentos ou
ferramentas (por ex., telefone, máquina de lavar roupas) podem ser usadas para medir a
gravidade do comprometimento. A demência não é diagnosticada se esses sintomas ocorrem
exclusivamente durante o curso de um delirium. Entretanto, um delirium pode estar
sobreposto a uma demência preexistente e, neste caso, aplicam-se ambos os diagnósticos.
Características e Transtornos Associados
Características descritivas e
transtornos mentais associados. Os indivíduos com demência podem desenvolver
desorientação espacial e ter dificuldade com tarefas espaciais. O funcionamento
viso-espacial pode ser avaliado pedindo ao indivíduo que copie desenhos, tais como um
círculo, pentágonos sobrepostos e um cubo. Um fraco julgamento e fraco insight são
comuns na demência. Os indivíduos podem exibir pouca ou nenhuma consciência da perda da
atenção ou memória ou de outras anormalidades cognitivas. Eles podem fazer avaliações
irrealistas de suas capacidades e fazer planos que não se mostram congruentes com seus
déficits e prognósticos (por ex., planejar dar início a um novo negócio). Eles podem
subestimar os riscos envolvidos em certas atividades (por ex., dirigir). Às vezes, eles
podem ferir outras pessoas ao tornarem-se violentos. O comportamento suicida pode ocorrer,
particularmente nos primeiros estágios, quando o indivíduo é mais capaz de levar avante
um plano de ação. A demência se acompanha, ocasionalmente, de perturbações motoras da
marcha, levando a quedas. Alguns indivíduos com demência apresentam comportamento
desinibido, incluindo piadas inapropriadas, negligência à higiene pessoal, mostrando uma
familiaridade indevida com estranhos ou desconsiderando regras convencionais de conduta
social. Uma fala arrastada pode ocorrer na demência associada com patologia subcortical,
como doença de Parkinson, doença de Huntington e alguns casos de Demência Vascular. Os
múltiplos prejuízos cognitivos da demência freqüentemente estão associados com
ansiedade, perturbações do humor e do sono. Delírios são comuns, especialmente aqueles
envolvendo temas de perseguição (por ex., de que coisas colocadas em algum lugar e
esquecidas foram roubadas). Alucinações podem ocorrer em todas as modalidades
sensoriais, mas as alucinações visuais são as mais comuns. O delirium está
freqüentemente sobreposto à demência, porque a doença cerebral subjacente pode
aumentar a suscetibilidade aos estados de confusão que podem ser produzidos por
medicamentos ou outras condições médicas gerais. Os indivíduos com demência podem
estar especialmente vulneráveis a estressores físicos (por ex., doença ou cirurgia
menor) e psicossociais (por ex., hospitalização, luto), que podem exacerbar seus
déficits intelectuais e outros problemas associados. Achados laboratoriais associados.
Uma discussão dos achados laboratoriais associados específicos aos tipos de demência
está incluída no texto relativo a cada demência. Invariavelmente existem anormalidades
no funcionamento cognitivo e da memória, que podem ser avaliados pelo uso de exames do
estado mental e testagem neuropsicológica. A neuroimagem pode auxiliar no diagnóstico
diferencial de demência. A tomografia computadorizada (TC) ou a imagem por ressonância
magnética (IRM) podem revelar atrofia cerebral, lesões cerebrais focais (acidentes
corticais, tumores, hematomas subdurais), hidrocefalia, ou lesões cerebrais
periventriculares isquêmicas. Imagens funcionais tais como tomografia por emissão de
pósitron (TEP) ou tomografia computadorizada por emissão de fóton único (SPECT) não
são usadas rotineiramente na avaliação da demência, mas podem fornecer informações
úteis ao diagnóstico diferencial (por ex., alterações no lobo parietal na doença de
Alzheimer ou alterações no lobo frontal nas degenerações deste) em indivíduos sem
evidências de alterações estruturais na TC ou na IRM. Achados ao exame físico e
condições médicas gerais associadas. Os achados associados do exame físico na
demência dependem da natureza, localização e estágio da progressão da patologia
básica. A causa mais comum de demência é a doença de Alzheimer, seguida por doença
vascular e, depois, por múltiplas etiologias. Outras causas de demência incluem doença
de Pick, hidrocefalia de pressão normal, doença de Parkinson, doença de Huntington,
lesões cerebrais traumáticas, tumores cerebrais, anóxia, transtornos infecciosos (por
ex., vírus da imunodeficiência humana [HIV], sífilis), doenças por vírus lentos (por
ex., doença de Creutzfeldt-Jakob), condições endócrinas (por ex., hipotiroidismo,
hipercalcemia, hipoglicemia), deficiências vitamínicas (por ex., deficiências de
tiamina, niacina, vitamina B12), transtornos imunológicos (por ex., polimialgia
reumática, lúpus eritematoso sistêmico), condições hepáticas, condições
metabólicas (por ex., doença de Kufs, adrenoleucodistrofia, leucodistrofia
metacromática e outras doenças de armazenagem da idade adulta e infância) e outras
condições neurológicas (por ex., esclerose múltipla).
Características Específicas à Cultura e à Idade
As bagagens cultural e educacional
devem ser levadas em consideração na avaliação da capacidade mental de um indivíduo.
Dependendo de seus antecedentes culturais, as pessoas podem não estar familiarizadas com
as informações usadas em certos testes de conhecimentos gerais (por ex., nomes de
presidentes, conhecimentos geográficos), memória (por ex., data de nascimento em
culturas que normalmente não celebram aniversários) e orientação (por ex., o senso de
lugar e localização pode ter uma conceitualização diferente, em algumas culturas). A
prevalência de diferentes causas de demência (por ex., infecções, deficiências
nutricionais, traumatismos cranianos, condições endócrinas, doenças cerebrovasculares,
transtornos convulsivos, tumores cerebrais, abuso de substâncias) varia acentuadamente
entre os grupos culturais. A idade de início da demência depende de sua etiologia, mas
em geral ocorre tardiamente, sendo a mais alta prevalência acima dos 85 anos de idade.
Uma deterioração significativa da memória e de múltiplas habilidades cognitivas,
requisitos para o diagnóstico de demência, pode ser difícil de documentar em crianças
muito pequenas. Portanto, o diagnóstico de demência pode não ser prático até uma
idade mais avançada da criança (geralmente entre os 4 e os 6 anos). Em indivíduos com
menos de 18 anos que apresentam Retardo Mental, um diagnóstico adicional de demência
deve ser feito apenas se a condição não é caracterizada satisfatoriamente apenas pelo
diagnóstico de Retardo Mental. A demência é incomum em crianças e adolescentes, mas
pode ocorrer em decorrência de condições médicas gerais (por ex., traumatismo
craniano, tumores cerebrais, infecção com HIV, acidentes cerebrovasculares,
adrenoleucodistrofias). A demência em crianças pode apresentar-se como uma
deterioração do funcionamento (como em adultos) ou como um atraso ou desvio
significativo em relação ao desenvolvimento normal. Uma deterioração do desempenho
escolar também pode ser um sinal precoce da condição.
Prevalência
A prevalência relatada de
demência varia entre os estudos epidemiológicos, dependendo dos seguintes fatores: idade
dos sujeitos amostrados; métodos de determinação da presença, gravidade e tipo de
prejuízo cognitivo; e regiões ou países estudados. Estudos comunitários estimaram uma
prevalência prospectiva em 1 ano de quase 3% com severo prejuízo cognitivo na
população adulta. O estudo avaliou os indivíduos com um instrumento breve, que
determina o estado cognitivo atual (o Mini-Exame do Estado Mental), e não identifica
diagnósticos específicos. Estima-se que 2-4% da população com mais de 65 anos têm
Demência do Tipo Alzheimer, com outros tipos sendo muito menos comuns. A prevalência da
demência, especialmente Demência do Tipo Alzheimer e Demência Vascular, aumenta com a
idade, particularmente após os 75 anos, com uma prevalência de 20% ou mais depois dos 85
anos.
Curso
Historicamente, o termo demência
implicava um curso progressivo ou irreversível. A definição do DSM-IV de demência,
entretanto, está baseada em um padrão de déficits cognitivos e não envolve qualquer
conotação envolvendo o prognóstico. A demência pode ser progressiva, estática ou
remitente. A reversibilidade de uma demência ocorre em função da patologia básica e da
disponibilidade e da aplicação oportuna de um tratamento efetivo. O modo de início e o
curso subseqüente da demência também dependem da etiologia básica. O nível de
incapacitação depende não apenas da gravidade dos prejuízos cognitivos do indivíduo,
mas também dos suportes sociais disponíveis. Na demência avançada, o indivíduo pode
tornar-se totalmente indiferente ao que o cerca e necessitar de constantes cuidados. Os
indivíduos com demência severa são suscetíveis a acidentes e doenças infecciosas, que
freqüentemente são fatais.
Diagnóstico Diferencial
O comprometimento da memória
ocorre tanto no delirium quanto na demência. O delirium também caracteriza-se por uma
capacidade reduzida de manter e deslocar a atenção apropriadamente. O curso clínico
pode ajudar a diferenciar entre o delirium e a demência. Tipicamente, os sintomas no
delirium apresentam flutuação e os sintomas na demência permanecem relativamente
estáveis. Múltiplos prejuízos cognitivos que persistem de uma forma inalterada por mais
de alguns meses sugerem demência, ao invés de delirium. Este pode estar sobreposto a uma
demência, aplicando-se, neste caso, ambos os diagnósticos. Em situações nas quais não
está claro se os déficits cognitivos se devem a delirium ou demência, pode ser útil
fazer um diagnóstico provisório de delirium e observar a pessoa atentamente, enquanto
continuam os esforços para a identificação da natureza da perturbação. Um transtorno
amnéstico é caracterizado por prejuízo severo da memória sem outros prejuízos
significativos do funcionamento cognitivo (isto é, afasia, apraxia, agnosia ou
perturbações no funcionamento executivo). A suposta etiologia determina o diagnóstico
específico da demência. Caso o clínico determine que a demência se deve a múltiplas
etiologias, múltiplos códigos baseados nas demências específicas e suas etiologias
devem ser usados. Na Demência Vascular, sinais neurológicos focais (por ex., exagero dos
reflexos tendinosos profundos, resposta extensora plantar) e evidências laboratoriais de
doença vascular que supostamente estão relacionadas com a demência estão presentes. O
curso clínico da Demência Vascular é variável e tipicamente progride em etapas. A
presença de Demência Devido a Outras Condições Médicas Gerais (por ex., doença de
Pick, HIV) requer evidências, a partir da história, exame físico e testes laboratoriais
apropriados, de que uma condição médica geral está etiologicamente relacionada com a
demência. O início da deterioração (gradual ou súbito) e seu curso (agudo, subagudo
ou crônico) podem ser úteis para sugerir a etiologia. A gravidade do prejuízo no
funcionamento cognitivo, por exemplo, freqüentemente permanece estática após
traumatismo craniano, encefalite ou acidente vascular cerebral. Múltiplos déficits
cognitivos que ocorrem apenas no contexto do uso de substâncias são diagnosticados como
Intoxicação com Substância ou Abstinência de Substância. Se a demência resulta dos
efeitos persistentes de uma substância (isto é, uma droga de abuso, um medicamento ou
exposição a toxina), então aplica-se o diagnóstico de Demência Persistente Induzida
por Substância. Outras causas de demência (por ex., Demência Devido a uma Condição
Médica Geral) devem sempre ser consideradas, mesmo em uma pessoa com Dependência de
Substância. Por exemplo, o traumatismo craniano não é infreqüente durante o uso de uma
substância e pode ser subjacente à demência. A Demência do Tipo Alzheimer é
atualmente um diagnóstico de exclusão, e outras causas para os déficits cognitivos (ver
antes) devem ser descartadas primeiro. Além disso, o curso é caracterizado por início
gradual e declínio cognitivo contínuo. Nos casos em que existem evidências
insuficientes para determinar se a demência se deve a uma condição médica geral ou é
induzida por substância, deve-se codificar Demência Sem Outra Especificação. Os
indivíduos podem apresentar-se com alguns, mas não todos os sintomas de demência. Essas
apresentações devem ser codificadas como Transtorno Cognitivo Sem Outra Especificação.
O Retardo Mental é caracterizado por um atual funcionamento intelectual geral
significativamente abaixo da média, com prejuízos concomitantes no funcionamento
adaptativo e com início antes dos 18 anos. O Retardo Mental não está necessariamente
associado com comprometimento da memória. Em comparação, o início da demência
geralmente ocorre em idade avançada. Se o início da demência se dá antes dos 18 anos,
tanto demência quanto Retardo Mental podem ser diagnosticados, se os critérios para
ambos os transtornos são satisfeitos. A documentação de uma deterioração
significativa na memória e em outras habilidades cognitivas, necessária para o
diagnóstico de demência, pode ser difícil em menores de 4 anos de idade. Em indivíduos
com menos de 18 anos, o diagnóstico de demência deve ser feito apenas se a condição
não se caracteriza satisfatoriamente pelo diagnóstico apenas de Retardo Mental. A
Esquizofrenia pode também estar associada com múltiplos prejuízos cognitivos e um
declínio no funcionamento, mas a Esquizofrenia difere da demência em sua idade de
início geralmente mais precoce, seu padrão sintomático característico e a ausência de
uma condição médica geral etiológica ou substância específica. Tipicamente, o
prejuízo cognitivo associado com a Esquizofrenia é menos severo do que aquele visto na
Demência. O Transtorno Depressivo Maior pode estar associado com queixas de
comprometimento da memória, dificuldade para pensar e se concentrar e capacidades
intelectuais gerais diminuídas. Os indivíduos às vezes têm um fraco desempenho em
exames do estado mental e testagens neuropsicológicas. Particularmente em pessoas idosas,
muitas vezes é difícil determinar se os sintomas cognitivos são melhor explicados por
uma demência ou por um Episódio Depressivo Maior. Este diagnóstico diferencial pode ser
consubstanciado por uma avaliação médica completa e uma determinação do início da
perturbação, seqüência temporal dos sintomas depressivos e cognitivos, curso da
doença, história familiar e resposta ao tratamento. O estado pré-mórbido do indivíduo
pode ajudar a diferenciar a "pseudodemência" (isto é, prejuízos cognitivos
devido a um Episódio Depressivo Maior) da demência. Nesta, existe habitualmente uma
história pré-mórbida de declínio nas funções cognitivas, enquanto o indivíduo com
um Episódio Depressivo Maior está muito mais propenso a ter um estado pré-mórbido
relativamente normal e um declínio cognitivo abrupto associado com a depressão. Caso o
clínico determine que tanto uma demência quanto um Transtorno Depressivo Maior estão
presentes, com etiologias independentes, ambas as condições devem ser diagnosticadas. A
demência deve ser diferenciada da Simulação e do Transtorno Factício. Os padrões de
déficits cognitivos presentes na Simulação e no Transtorno Factício em geral não são
consistentes ao longo do tempo e não são característicos daqueles tipicamente vistos na
demência. Os indivíduos com Transtorno Factício ou Simulação que manifestam demência
podem, por exemplo, fazer cálculos ao contar pontos durante um jogo de cartas, mas depois
declarar-se incapazes de fazer cálculos similares durante um exame do estado mental. A
demência deve ser diferenciada do declínio normal no funcionamento cognitivo que ocorre
com o envelhecimento (como no Declínio Cognitivo Relacionado à Idade). O diagnóstico de
demência é indicado apenas quando existem evidências demonstráveis de maior
comprometimento da memória e cognitivo do que seria esperado, levando-se em conta os
processos normais de envelhecimento e se os sintomas causam prejuízo no funcionamento
social ou ocupacional.
F00.xx - Demência Tipo ALZHEIMER |
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DSM.IV
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Características
Diagnósticas
Os déficits cognitivos (Critério
A) e o comprometimento exigido para este diagnóstico (Critério B) são discutidos às
pp. 130-133. O início da demência do Tipo Alzheimer é gradual e envolve declínio
cognitivo contínuo (Critério C). Em vista da dificuldade de se obter evidências
patológicas diretas da presença da doença de Alzheimer, o diagnóstico apenas pode ser
feito quando outras etiologias para demência foram descartadas. Especificamente, os
déficits cognitivos não se devem a outras condições do sistema nervoso central
causadoras de déficits progressivos da memória e cognição (por ex., doença
cerebrovascular, doença de Parkinson, doença de Huntington), condições sistêmicas que
comprovadamente causam demência (por ex., hipotiroidismo, deficiência de vitamina B12,
infecção com HIV), ou efeitos persistentes de uma substância (por ex., álcool)
(Critério D). Caso exista uma etiologia adicional, ambos os tipos de demência devem ser
codificados. A Demência do Tipo Alzheimer não deve ser diagnosticada se os sintomas
ocorrem exclusivamente durante o delirium (Critério E). Entretanto, este pode estar
sobreposto a uma Demência preexistente do Tipo Alzheimer, devendo, neste caso, ser
indicado o subtipo Com Delirium. Finalmente, os déficits cognitivos não são melhor
explicados por um outro transtorno do Eixo I (por ex., Transtorno Depressivo Maior ou
Esquizofrenia) (Critério F).
Subtipos e Especificadores
A idade de início da Demência do
Tipo Alzheimer pode ser indicada pelo uso de um dos seguintes subtipos:
Com Início Precoce. Este subtipo é usado se o
início da demência ocorre aos 65 anos ou antes.
Com Início Tardio. Este subtipo é usado se o início
da demência ocorre após os 65 anos de idade. Os subtipos seguintes (cada um com seu
próprio código individual) devem ser usados para indicar o aspecto predominante da
apresentação clínica atual:
Com Delirium. Este subtipo é usado se o delirium
está sobreposto à demência.
Com Delírios. Este subtipo é usado se os delírios
são a característica predominante.
Com Humor Deprimido. Este subtipo é usado se o humor
deprimido (incluindo apresentações que satisfazem os critérios para um Episódio
Depressivo Maior) é a característica predominante. Um diagnóstico separado de
Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral não é dado. Sem
Complicações. Este subtipo é usado se nenhum dos subtipos acima predomina na
apresentação clínica atual. O especificador Com Perturbação do Comportamento (que
não pode ser codificado) também é usado para indicar perturbações do comportamento
clinicamente significativas (por ex., se o indivíduo sai vagando pelas ruas).
Procedimentos de Registro Por convenção da CID-9-MC, apenas Demência do Tipo Alzheimer
e Demência Vascular são subtipos codificáveis. Os códigos diagnósticos são
selecionados da seguinte maneira:
* Para Demência do Tipo Alzheimer, Com Início
Precoce, o código depende do subtipo para aspectos predominantes: 290.11 para Com
Delirium, F00.01 - 290.12 para Com Delírios, F00.03 - 290.13 para Com Humor Deprimido e
F00.00 - 290.10 para Sem Complicações.
* Para Demência do Tipo Alzheimer, Com Início
Tardio, o código também depende do subtipo para aspectos predominantes: 290.3 para Com
Delirium, F00.11 - 290.20 para Com Delírios, F00.13 - 290.21 para Com Humor Deprimido e
F00.10 - 290.0 para Sem Complicações. O especificador Com Perturbação do Comportamento
não é codificado, podendo ser aplicado a cada um dos subtipos acima (por ex., 290.21
Demência do Tipo Alzheimer, Com Início Tardio, Com Humor Deprimido, Com Perturbação do
Comportamento). Além disso, 331.0 doença de Alzheimer deve ser codificado no Eixo III.
Características e Transtornos Associados
Características descritivas e
transtornos mentais associados. Ver p. 133 para uma discussão geral dos aspectos e
transtornos associados com a demência. A prevalência da Demência do Tipo Alzheimer é
aumentada em indivíduos com síndrome de Down e em indivíduos com história de
traumatismo craniano. Alterações patológicas características da doença de Alzheimer
estão presentes no cérebro de indivíduos com síndrome de Down quando estes ingressam
na casa dos 40 anos, embora os sintomas clínicos de demência em geral se manifestam
apenas mais tarde. Achados laboratoriais associados. Na maioria dos casos, uma atrofia
cerebral está presente na Demência do Tipo Alzheimer, com sulcos corticais mais largos e
ventrículos cerebrais maiores do que seria de se esperar pelo processo normal de
envelhecimento. Isto pode ser [138]demonstrado por tomografia computadorizada (TC) ou
imagem por ressonância magnética (IRM). O exame microscópico em geral revela
alterações histopatológicas, incluindo placas senis, emaranhados neurofibrilares,
degeneração granulovascular, perda neural, glicose astrocítica e angiopatia amilóide.
Corpos de Lewy ocasionalmente são vistos nos neurônios corticais. Achados ao exame
físico e condições médicas gerais associadas Nos primeiros anos da doença, poucos
sinais motores e sensoriais estão associados com a Demência do Tipo Alzheimer.
Posteriormente no curso da doença, podem aparecer mioclono e perturbação da marcha. Em
aproximadamente 10% dos indivíduos com o transtorno ocorrem convulsões.
Prevalência
Estima-se que 2 a 4% da população
com mais de 65 anos apresentem Demência do Tipo Alzheimer. A prevalência aumenta com a
idade, particularmente após os 75 anos.
Curso
Apresentamos na p. 134 uma
discussão geral acerca do curso da demência. O curso da Demência do Tipo Alzheimer
tende a ser lentamente progressivo, com uma perda anual de 3-4 pontos em um instrumento
padronizado de avaliação como o Mini-Exame do Estado Mental. Vários padrões
deficitários são vistos, sendo um dos mais comuns o início insidioso, com déficits
precoces na memória recente seguidos pelo desenvolvimento de afasia, apraxia e agnosia
após vários anos. Alguns indivíduos podem apresentar alterações da personalidade ou
maior irritabilidade nos primeiros estágios. Nos estágios posteriores da doença, os
indivíduos podem desenvolver perturbações motoras e da marcha, podendo por fim ficar
mudos e confinados ao leito. A duração média da doença a partir do início dos
sintomas até a morte é de 8-10 anos.
Padrão Familial
Comparados com a população em
geral, os parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos com Demência do Tipo
Alzheimer, Com Início Precoce, estão mais propensos a desenvolver o transtorno. Os casos
de início tardio também podem ter um componente genético. A demência do Tipo Alzheimer
é herdada, em algumas famílias, como um traço dominante com ligação a vários
cromossomos, incluindo os cromossomos 21, 14 e 19. Entretanto, a proporção de casos
relacionados a anormalidades específicas herdadas é desconhecida.
Critérios Diagnósticos para F00.xx - Demência do Tipo Alzheimer
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A.
Desenvolvimento de múltiplos déficits cognitivos manifestados tanto por (1) quanto por
(2):
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(1)
comprometimento da memória (capacidade prejudicada de aprender novas informações ou
recordar informações anteriormente aprendidas)
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(2) uma
(ou mais) das seguintes perturbações cognitivas:
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(a) afasia
(perturbação da linguagem) (b) apraxia (capacidade prejudicada de executar atividades
motoras, apesar de um funcionamento motor intacto) (c) agnosia (incapacidade de reconhecer
ou identificar objetos, apesar de um funcionamento sensorial intacto) (d) perturbação do
funcionamento executivo (isto é, planejamento, organização, seqüenciamento,
abstração)
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C. O curso
caracteriza-se por um início gradual e um declínio cognitivo contínuo.
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D. Os
déficits cognitivos nos Critérios A1 e A2 não se devem a quaisquer dos seguintes
fatores:
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(1) outras
condições do sistema nervoso central que causam déficits progressivos na memória e
cognição (por ex., doença cerebrovascular, doença de Parkinson, doença de Huntington,
hematoma subdural, hidrocefalia de pressão normal, tumor cerebral) (2) condições
sistêmicas que comprovadamente causam demência (por ex., hipotiroidismo, deficiência de
vitamina B12 ou ácido fólico, deficiência de niacina, hipercalcemia, neurossífilis,
infecção com HIV) (3) condições induzidas por substâncias
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E. Os déficits não ocorrem exclusivamente durante o curso de um
delirium.
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F. A
perturbação não é melhor explicada por um outro transtorno do Eixo I (por ex.,
Transtorno Depressivo Maior, Esquizofrenia).
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Codificar
com base no tipo de início e características predominantes:
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Com
Início Precoce: se o início ocorre aos 65 anos ou antes.
290.11 Com Delirium: se delirium está sobreposto à demência.
F00.01 - 290.12 Com Delírios: se delírios são a característica predominante.
F00.03 - 290.13 Com Humor Deprimido: se humor deprimido (incluindo apresentações que
satisfazem todos os critérios de sintomas para um Episódio Depressivo Maior) é uma
característica predominante. Um diagnóstico separado de Transtorno do Humor Devido a Uma
Condição Médica Geral não é dado.
F00.00 - 290.10 Sem Complicações: se nenhuma das características acima predomina na
apresentação clínica atual. Com Início Tardio:
se o início ocorre após os 65 anos de idade.
290.3 Com Delirium: se delirium está sobreposto à demência.
F00.11 - 290.20 Com Delírios: se delírios são a característica predominante.
F00.13 - 290.21 Com Humor Deprimido: se humor deprimido (incluindo apresentações que
satisfazem todos os critérios de sintomas para um Episódio Depressivo Maior) é uma
característica predominante. Um diagnóstico separado de Transtorno do Humor Devido a uma
Condição Médica Geral não é dado.
F00.10 - 290.0 Sem Complicações: se nenhuma das características acima predomina na
apresentação clínica atual. |
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Especificar
se: Com Perturbação do Comportamento Nota para a codificação: Codificar também 331.0
doença de Alzheimer no Eixo III.
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