Características Diagnósticas
A característica essencial do
Transtorno de Estresse Pós-Traumático é o desenvolvimento de sintomas característicos
após a exposição a um extremo estressor traumático, envolvendo a experiência pessoal
direta de um evento real ou ameaçador que envolve morte, sério ferimento ou outra
ameaça à própria integridade física; ter testemunhado um evento que envolve morte,
ferimentos ou ameaça à integridade física de outra pessoa; ou o conhecimento sobre
morte violenta ou inesperada, ferimento sério ou ameaça de morte ou ferimento
experimentados por um membro da família ou outra pessoa em estreita associação com o
indivíduo (Critério A1). A resposta ao evento deve envolver intenso medo, impotência ou
horror (em crianças, a resposta pode envolver comportamento desorganizado ou agitado)
(Critério A2). Os sintomas característicos resultantes da exposição a um trauma
extremo incluem uma revivência persistente do evento traumático (Critério B), esquiva
persistente de estímulos associados com o trauma, embotamento da responsividade geral
(Critério C) e sintomas persistentes de excitação aumentada (Critério D). O quadro
sintomático completo deve estar presente por mais de 1 mês (Critério E) e a
perturbação deve causar sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no
funcionamento social, ocupacional ou outras áreas importantes da vida do indivíduo
(Critério F). Os eventos traumáticos vivenciados diretamente incluem, mas não se
limitam a, combate militar, agressão pessoal violenta (ataque sexual, ataque físico,
assalto à mão armada, roubo), seqüestro, ser tomado como refém, ataque terrorista,
tortura, encarceramento como prisioneiro de guerra ou em campo de concentração,
desastres naturais ou causados pelo homem, graves acidentes automobilísticos ou receber o
diagnóstico de uma doença que traz risco de vida. Para crianças, os eventos sexualmente
traumáticos podem incluir experiências sexuais inadequadas em termos do desenvolvimento,
sem violência ou danos físicos reais ou ameaçadores. Os eventos testemunhados incluem,
mas não se limitam a, observar sérios ferimentos ou morte não-natural de uma outra
pessoa devido a ataque violento, acidente, guerra ou desastre, ou deparar-se
inesperadamente com um cadáver ou partes de corpos humanos. Os eventos vivenciados por
outros, dos quais o indivíduo toma conhecimento, incluem, mas não se limitam a, ataque
pessoal violento, sério acidente ou ferimentos graves sofridos por um membro da família
ou amigo íntimo; conhecimento da morte súbita ou inesperada de um membro da família ou
amigo íntimo; conhecimento de uma doença com risco de vida em um dos filhos. O
transtorno pode ser especialmente severo ou duradouro quando o estressor é de origem
humana (por ex., tortura, estupro). A probabilidade do desenvolvimento deste transtorno
pode aumentar com aumento da intensidade e proximidade do estressor. O evento traumático
pode ser revivido de várias maneiras. Geralmente, a pessoa tem recordações recorrentes
e intrusivas do evento (Critério B1) ou sonhos aflitivos recorrentes, durante os quais o
evento é reencenado (Critério B2). Em casos raros, a pessoa experimenta estados
dissociativos que duram de alguns segundos a várias horas, ou mesmo dias, durante os
quais os componentes do evento são revividos e a pessoa comporta-se como se o vivenciasse
naquele instante (Critério B3). Intenso sofrimento psicológico (Critério B4) ou
reatividade fisiológica (Critério B5) freqüentemente ocorrem quando a pessoa é exposta
a eventos ativadores que lembram ou simbolizam um aspecto do evento traumático (por ex.,
aniversários do evento traumático; tempo frio ou guardas uniformizados para
sobreviventes de campos de extermínio em climas frios; tempo quente e úmido para
veteranos de combate do Pacífico Sul; ingresso em qualquer elevador para uma mulher que
foi estuprada em um elevador). Os estímulos associados com o trauma são persistentemente
evitados. O indivíduo em geral faz esforços deliberados no sentido de evitar
pensamentos, sentimentos ou conversas sobre o evento traumático (Critério C1) e de
evitar atividades, situações e pessoas que provoquem recordações do evento (Critério
C2). Esta esquiva de lembretes pode incluir amnésia para um aspecto importante do evento
traumático (Critério C3). Uma responsividade diminuída ao mundo externo, conhecida como
"torpor psíquico" ou "anestesia emocional", geralmente começa logo
após o evento traumático. O indivíduo pode queixar-se de acentuada diminuição do
interesse ou da participação em atividades anteriormente prazerozas (Critério C4), de
se sentir deslocado ou afastado de outras pessoas (Critério C5), ou de ter uma capacidade
acentuadamente reduzida de sentir emoções (especialmente aquelas associadas com
intimidade, ternura e sexualidade) (Critério C6). O indivíduo pode ter um sentimento de
futuro abreviado (por ex., não espera ter uma carreira, casamento, filhos ou um tempo
normal de vida [Critério C7]). O indivíduo tem sintomas persistentes de ansiedade ou
maior excitação que não estavam presentes antes do trauma. Estes sintomas podem incluir
dificuldades em conciliar ou manter o sono, possivelmente devido a pesadelos recorrentes
durante os quais o evento traumático é revivido (Critério D1), hipervigilância
(Critério D4) e resposta de sobressalto exagerada (Critério D5). Alguns indivíduos
podem relatar irritabilidade ou ataques de raiva (Critério D2) ou dificuldades em
concentrar-se ou completar tarefas (Critério D3).
Especificadores
Os especificadores seguintes podem
ser usados para definir o início e a duração dos sintomas do Transtorno de Estresse
Pós-Traumático: Agudo. Este especificador deve ser usado quando a duração dos sintomas
é inferior a 3 meses. Crônico. Este especificador deve ser usado quando os sintomas
duram 3 meses ou mais. Com Início Tardio. Este especificador indica que pelo menos 6
meses decorreram entre o evento traumático e o início dos sintomas.
Características e Transtornos Associados
Características descritivas e
transtornos mentais associados. Os indivíduos com Transtorno de Estresse Pós-Traumático
podem descrever sentimentos de culpa por terem sobrevivido quando outros morreram ou pelas
coisas que tiveram de fazer para sobreviverem. A esquiva fóbica de situações ou
atividades que lembram ou simbolizam o trauma original pode interferir nos relacionamentos
interpessoais e acarretar conflito conjugal, divórcio ou perda do emprego. A seguinte
constelação de sintomas associados pode ocorrer, sendo vista com maior freqüência em
associação com um estressor interpessoal (por ex., abuso físico ou sexual na infância,
espancamento doméstico, ser tomado como refém, encarceramento como prisioneiro de guerra
ou em campo de concentração, tortura): prejuízo na modulação do afeto; comportamento
autodestrutivo e impulsivo; sintomas dissociativos; queixas somáticas; sensações de
inutilidade, vergonha, desespero ou desamparo; sensação de dano permanente; perda de
crenças anteriormente mantidas; hostilidade; retraimento social; sensação de constante
ameaça; prejuízo no relacionamento com outros; ou uma mudança nas características
anteriores de personalidade do indivíduo. Pode haver um risco aumentado de Transtorno de
Pânico, Agorafobia, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Fobia Social, Fobia Específica,
Transtorno Depressivo Maior, Transtorno de Somatização e Transtornos Relacionados a
Substâncias. Não se sabe até que ponto esses transtornos precedem ou se seguem ao
início do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Achados laboratoriais associados. O
aumento na excitabilidade pode ser medido por estudos do funcionamento autonômico (por
ex., ritmo cardíaco, eletromiografia, atividade das glândulas sudoríparas). Achados ao
exame físico e condições médicas gerais associadas. Condições médicas gerais podem
ocorrer em conseqüência do trauma (por ex., traumatismo craniano, queimaduras).
Características Específicas à Cultura e à Idade
Os indivíduos que emigraram
recentemente de áreas de considerável convulsão social e conflito civil podem ter
índices elevados de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Essas pessoas podem
sentir-se especialmente relutantes em divulgar experiências de tortura e trauma, devido
à sua situação vulnerável como exilados políticos. Avaliações específicas de
experiências traumáticas e sintomas concomitantes são necessárias para esses
indivíduos. Em crianças mais jovens, os sonhos aflitivos com o evento podem, em algumas
semanas, mudar para pesadelos generalizados com monstros, com o salvamento de outros ou
com ameaças a si mesmas ou a outros. As crianças pequenas em geral não têm o
sentimento de estarem revivendo o passado; ao invés disso, a revivência do trauma pode
ocorrer através de jogos repetitivos (por ex., uma criança que esteve envolvida em um
sério acidente automobilístico reencena repetidamente colisões automobilísticas com
carrinhos de brinquedo). Em vista da dificuldade de uma criança em relatar diminuição
no interesse por atividades significativas e limitação do afeto, esses sintomas devem
ser atentamente avaliados mediante relatos feitos pelos pais, professores e outros
observadores. Em crianças, o sentimento de um futuro abreviado pode ser evidenciado pela
crença de que a vida será demasiado curta para incluir a chegada à idade adulta. Pode
também haver um "presságio catastrófico", isto é, a crença em uma
capacidade de prever eventos futuros indesejados. As crianças também podem apresentar
vários sintomas físicos, tais como dores abdominais ou de cabeça.
Prevalência
Estudos comunitários revelam uma
prevalência durante a vida do Transtorno de Estresse Pós-Traumático variando de 1 a
14%, estando a variabilidade relacionada aos métodos de determinação e à população
amostrada. Estudos de indivíduos de risco (por ex., veteranos de guerra, vítimas de
erupções vulcânicas ou violência criminal) cederam taxas de prevalência variando de 3
a 58%.
Curso
O Transtorno de Estresse
Pós-Traumático pode ocorrer em qualquer idade, incluindo a infância. Os sintomas em
geral iniciam nos primeiros 3 meses após o trauma, embora possa haver um lapso de meses
ou mesmo anos antes do seu aparecimento. Freqüentemente, a perturbação inicialmente
satisfaz os critérios para Transtorno de Estresse Agudo imediatamente após o trauma. Os
sintomas do transtorno e o relativo predomínio da reexperiência, esquiva e sintomas de
hiperexcitação podem variar com o tempo. A duração dos sintomas varia, ocorrendo
recuperação completa dentro de 3 meses em aproximadamente metade dos casos, com muitos
outros apresentando sintomas persistentes por mais de 12 meses após o trauma. A
gravidade, duração e proximidade da exposição de um indivíduo ao evento traumático
são os fatores mais importantes afetando a probabilidade de desenvolvimento deste
transtorno. Existem algumas evidências de que os suportes sociais, história familiar,
experiências da infância, variáveis da personalidade e transtornos mentais
preexistentes podem influenciar o desenvolvimento do Transtorno de Estresse
Pós-Traumático. Este transtorno pode desenvolver-se em indivíduos sem quaisquer
condições predisponentes, em particular se o estressor for especialmente extremo.
Diagnóstico Diferencial
No Transtorno de Estresse
Pós-Traumático, o estressor deve ser de natureza extrema (isto é, ameaçador à vida).
Em contrapartida, no Transtorno de Ajustamento, o estressor pode ter qualquer gravidade. O
diagnóstico de Transtorno de Ajustamento aplica-se a situações nas quais a resposta a
um estressor extremo não satisfaz os critérios para Transtorno de Estresse
Pós-Traumático (ou para outro transtorno mental específico) e a situações nas quais o
padrão sintomático do Transtorno de Estresse Pós-Traumático ocorre em resposta a um
estressor não considerado extremo (por ex., abandono pelo cônjuge, demissão do
emprego). Nem toda psicopatologia que ocorre em indivíduos expostos a um estressor
extremo deve necessariamente ser atribuída ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Os
sintomas de esquiva, anestesia emocional e maior excitabilidade presentes antes da
exposição ao estressor não satisfazem os critérios para o diagnóstico de Transtorno
de Estresse Pós-Traumático e exigem a consideração de outros diagnósticos (por ex.,
Transtorno do Humor ou outro Transtorno de Ansiedade). Além disso, se o padrão de
resposta sintomática ao estressor extremo satisfaz os critérios para outro transtorno
mental (por ex., Transtorno Psicótico Breve, Transtorno Conversivo, Transtorno Depressivo
Maior), esses diagnósticos devem ser dados ao invés de Transtorno de Estresse
Pós-Traumático, ou em acréscimo a ele. O Transtorno de Estresse Agudo distingue-se do
Transtorno de Estresse Pós-Traumático porque o padrão sintomático do Transtorno de
Estresse Agudo deve ocorrer dentro de 4 semanas após o evento traumático e resolver-se
em um período de 4 semanas. Se os sintomas persistem por mais de 1 mês e satisfazem os
critérios para Transtorno de Estresse Pós-Traumático, o diagnóstico é mudado de
Transtorno de Estresse Agudo para Transtorno de Estresse Pós-Traumático. No Transtorno
Obsessivo-Compulsivo existem pensamentos intrusivos recorrentes, mas estes são
experimentados como inadequados e não têm relação com a vivência de um evento
traumático. Os flashbacks no Transtorno de Estresse Pós-Traumático devem ser
diferenciados das ilusões, alucinações e outras perturbações da percepção que podem
ocorrer na Esquizofrenia, outros Transtornos Psicóticos, Transtorno do Humor com Aspectos
Psicóticos, delirium, Transtornos Induzidos por Substância e Transtornos Psicóticos
Devido a uma Condição Médica Geral. A simulação deve ser descartada naquelas
situações em que entram em jogo uma remuneração financeira, qualificação para a
obtenção de benefícios e determinações forenses.
Critérios Diagnósticos para F43.1 - 309.81 Transtorno de Estresse
Pós-Traumático |
|
A.
Exposição a um evento traumático no qual os seguintes quesitos estiveram presentes:
(1) a pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada com um ou mais eventos que
envolveram morte ou grave ferimento, reais ou ameaçados, ou uma ameaça à integridade
física, própria ou de outros;
(2) a resposta da pessoa envolveu intenso medo, impotência ou horror. Nota: Em crianças,
isto pode ser expressado por um comportamento desorganizado ou agitado
|
|
B. O
evento traumático é persistentemente revivido em uma (ou mais) das seguintes maneiras:
|
|
(1)
recordações aflitivas, recorrentes e intrusivas do evento, incluindo imagens,
pensamentos ou percepções.
Nota: Em crianças pequenas, podem ocorrer jogos repetitivos, com expressão de temas ou
aspectos do trauma;
(2) sonhos aflitivos e recorrentes com o evento. Nota: Em crianças podem ocorrer sonhos
amedrontadores sem um conteúdo identificável;
(3) agir ou sentir como se o evento traumático estivesse ocorrendo novamente (inclui um
sentimento de revivência da experiência, ilusões, alucinações e episódios de
flashbacks dissociativos, inclusive aqueles que ocorrem ao despertar ou quando
intoxicado). Nota: Em crianças pequenas pode ocorrer reencenação específica do trauma;
(4) sofrimento psicológico intenso quando da exposição a indícios internos ou externos
que simbolizam ou lembram algum aspecto do evento traumático;
(5) reatividade fisiológica na exposição a indícios internos ou externos que
simbolizam ou lembram algum aspecto do evento traumático.
|
|
C. Esquiva
persistente de estímulos associados com o trauma e entorpecimento da responsividade geral
(não presente antes do trauma), indicados por três (ou mais) dos seguintes quesitos:
(1) esforços no sentido de evitar pensamentos, sentimentos ou conversas associadas com o
trauma;
(2) esforços no sentido de evitar atividades, locais ou pessoas que ativem recordações
do trauma;
(3) incapacidade de recordar algum aspecto importante do trauma;
(4) redução acentuada do interesse ou da participação em atividades significativas;
(5) sensação de distanciamento ou afastamento em relação a outras pessoas;
(6) faixa de afeto restrita (por ex., incapacidade de ter sentimentos de carinho);
(7) sentimento de um futuro abreviado (por ex., não espera ter uma carreira profissional,
casamento, filhos ou um período normal de vida).
|
|
D.
Sintomas persistentes de excitabilidade aumentada (não presentes antes do trauma),
indicados por dois (ou mais) dos seguintes quesitos:
(1) dificuldade em conciliar ou manter o sono
(2) irritabilidade ou surtos de raiva
(3) dificuldade em concentrar-se
(4) hipervigilância
(5) resposta de sobressalto exagerada.
|
|
E. A
duração da perturbação (sintomas dos Critérios B, C e D) é superior a 1 mês.
|
|
F. A
perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento
social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
|
|
Especificar
se:
Agudo: se a duração dos sintomas é inferior a 3 meses.
Crônico: se a duração dos sintomas é de 3 meses ou mais.
Especificar se: Com Início Tardio: se o início dos sintomas ocorre pelo menos 6 meses
após o estressor.
|
| F43.0 - 308.3 - Transtorno de
Estresse Agudo |
|
DSM.IV
|
|
Características Diagnósticas
A característica essencial do
Transtorno de Estresse Agudo é o desenvolvimento de uma ansiedade característica,
sintomas dissociativos e outros, que ocorrem dentro de 1 mês após a exposição a um
estressor traumático extremo (Critério A). Para uma discussão dos tipos de estressores
envolvidos, ver a descrição do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Enquanto
vivencia o evento traumático ou logo após, o indivíduo tem pelo menos três dos
seguintes sintomas dissociativos: um sentimento subjetivo de anestesia, distanciamento ou
ausência de resposta emocional; redução da consciência sobre aquilo que o cerca;
desrealização; despersonalização ou amnésia dissociativa (Critério B). Após o
trauma, o evento traumático é revivido persistentemente (Critério C), o indivíduo
apresenta acentuada esquiva de estímulos que podem ativar recordações do trauma
(Critério D) e tem sintomas acentuados de ansiedade ou excitabilidade aumentada
(Critério E). Os sintomas podem causar sofrimento clinicamente significativo, interferir
significativamente no funcionamento normal, ou prejudicar a capacidade do indivíduo de
realizar tarefas necessárias (Critério F). A perturbação dura pelo menos 2 dias e não
persiste além de 4 semanas após o evento traumático (Critério G). Os sintomas não se
devem aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (droga de abuso, medicamento)
ou a uma condição médica geral, não são melhor explicados por um Transtorno
Psicótico Breve nem representam uma mera exacerbação de um transtorno mental
preexistente (Critério H). Em resposta ao evento traumático, o indivíduo desenvolve
sintomas dissociativos. Os indivíduos com Transtorno de Estresse Agudo apresentam uma
redução de responsividade emocional, freqüentemente considerando difícil ou
impossível ter prazer em atividades anteriormente agradáveis, e com freqüência se
sentem culpados acerca de realizarem tarefas habituais em suas vidas. Eles podem
experimentar dificuldades de concentração, sensação de estarem separados do corpo,
perceber o mundo como irreal ou "como um sonho", ou ter maior dificuldade para
recordar detalhes específicos do evento traumático (amnésia dissociativa). Além disso,
pelo menos um sintoma de cada um dos agrupamentos sintomáticos necessários para o
Transtorno de Estresse Pós-Traumático está presente. Em primeiro lugar, o evento
traumático é persistentemente revivido (por ex., recordações recorrentes, imagens,
pensamentos, sonhos, ilusões, episódios de flashbacks, sensação de reviver o evento,
ou sofrimento quando da exposição a lembretes do evento). Em segundo lugar, esquiva de
lembretes do trauma (por ex., locais, pessoas, atividades são evitados). Finalmente, uma
hiperexcitabilidade em resposta a estímulos que lembram o trauma está presente (por ex.,
dificuldade em conciliar o sono, irritabilidade, fraca concentração, hipervigilância,
resposta de sobressalto exagerada e inquietação motora).
Características e Transtornos Associados
Características descritivas e
transtornos mentais associados. Sintomas de desesperança e impotência podem ser
experienciados no Transtorno de Estresse Agudo e ser suficientemente severos e
persistentes para satisfazerem os critérios para um Episódio Depressivo Maior, sendo que
neste caso um diagnóstico adicional de Transtorno Depressivo Maior pode ser indicado. Se
o trauma levou à morte ou ferimentos graves em outra pessoa, os sobreviventes podem
sentir terem oferecido auxílio suficiente aos outros. Os indivíduos com este transtorno
freqüentemente percebem a si mesmos como tendo maior responsabilidade pelas
conseqüências do trauma do que seria apropriado. A negligência das necessidades
básicas de saúde e segurança após o trauma pode acarretar problemas. Os indivíduos
com este transtorno estão em maior risco de desenvolverem um Transtorno de Estresse
Pós-Traumático. Comportamentos impulsivos e arriscados podem ocorrer após o trauma.
Achados ao exame físico e condições médicas gerais associadas. Condições médicas
gerais podem ocorrer em conseqüência do trauma (por ex., traumatismo craniano,
queimaduras).
Características Específicas à Cultura
Embora alguns eventos estejam
propensos a serem universalmente vivenciados como traumáticos, a gravidade e o padrão de
resposta podem ser modulados por diferenças culturais nas implicações da perda. Também
pode haver comportamentos prescritos de manejo, característicos de determinadas culturas.
Por exemplo, os sintomas dissociativos podem constituir uma parte mais proeminente de uma
resposta aguda ao estresse em culturas nas quais esses comportamentos são sancionados.
Prevalência
A prevalência do Transtorno de
Estresse Agudo em uma população exposta a um sério estresse traumático depende da
gravidade e persistência do trauma e do grau de exposição ao mesmo.
Curso
Os sintomas de Transtorno de
Estresse Agudo são experimentados durante ou imediatamente após o trauma, duram pelo
menos 2 dias e se resolvem dentro de 4 semanas após a conclusão do evento traumático;
de outra forma, o diagnóstico é mudado. Quando os sintomas persistem além de 1 mês, um
diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático pode ser apropriado, caso sejam
satisfeitos todos os critérios para Transtorno de Estresse Pós-Traumático. A gravidade,
duração e proximidade da exposição de um indivíduo ao evento traumático são os
fatores mais importantes para a determinação da probabilidade do desenvolvimento de um
Transtorno de Estresse Agudo. Existem algumas evidências de que suportes sociais,
história familiar, experiências da infância, variáveis de personalidade e transtornos
mentais preexistentes podem influenciar o desenvolvimento do Transtorno de Estresse Agudo.
Este transtorno pode desenvolver-se em indivíduos sem quaisquer condições
predisponentes, em particular se o estressor for especialmente extremo.
Diagnóstico Diferencial
Alguma sintomatologia após a
exposição a um estresse extremo ocorre universalmente e muitas vezes não exige qualquer
diagnóstico. O Transtorno de Estresse Agudo apenas deve ser considerado se os sintomas
duram pelo menos 2 dias e causam sofrimento ou prejuízo clinicamente significativos no
funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes ou prejudicam a
capacidade do indivíduo de executar alguma tarefa necessária (por ex., obter a
assistência necessária ou mobilizar recursos pessoais, contando aos membros da família
sobre a experiência traumática). O Transtorno de Estresse Agudo deve ser diferenciado de
um Transtorno Mental Devido a uma Condição Médica Geral (por ex., traumatismo craniano)
e de um Transtorno Induzido por Substância (por ex., relacionado a Intoxicação com
Álcool), que podem ser conseqüências comuns da exposição a um estressor extremo. Em
alguns indivíduos, sintomas psicóticos podem ocorrer após um estressor extremo. Nesses
casos, faz-se o diagnóstico de Transtorno Psicótico Breve ao invés de Transtorno de
Estresse Agudo. Se um Episódio Depressivo Maior se desenvolve após o trauma, o
diagnóstico de Transtorno Depressivo Maior deve ser considerado, além do diagnóstico de
Transtorno de Estresse Agudo. Um diagnóstico separado de Transtorno de Estresse Agudo
não deve ser feito se os sintomas representam uma exacerbação de um transtorno mental
preexistente. Por definição, um diagnóstico de Transtorno de Estresse Agudo aplica-se
apenas a sintomas que ocorrem dentro de 1 mês após o estressor agudo. Uma vez que o
Transtorno de Estresse Pós-Traumático exige mais de 1 mês com sintomas, este
diagnóstico não pode ser feito durante o período inicial de 1 mês. Para os indivíduos
com o diagnóstico de Transtorno de Estresse Agudo cujos sintomas persistem por mais de 1
mês, o diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático deve ser considerado. Para
os indivíduos com um estressor extremo, mas que desenvolvem um padrão sintomático que
não satisfaz os critérios para Transtorno de Estresse Agudo, um diagnóstico de
Transtorno de Ajustamento deve ser considerado. A simulação deve ser descartada naquelas
situações em que entram em jogo uma remuneração financeira, qualificação para
benefícios ou determinações forenses.
Critérios Diagnósticos para F43.0 - 308.3 Transtorno de Estresse
Agudo |
|
A.
Exposição a um evento traumático no qual ambos os seguintes quesitos estiveram
presentes:
(1) a pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada com um ou mais eventos que
envolveram morte ou sérios ferimentos, reais ou ameaçados, ou uma ameaça à integridade
física, própria ou de outros;
(2) a resposta da pessoa envolveu intenso medo, impotência ou horror;
|
|
B.
Enquanto vivenciava ou após vivenciar o evento aflitivo, o indivíduo tem três (ou mais)
dos seguintes sintomas dissociativos: (1) um sentimento subjetivo de anestesia,
distanciamento ou ausência de resposta emocional;
(2) uma redução da consciência quanto às coisas que o rodeiam (por ex., "estar
como num sonho");
(3) desrealização;
(4) despersonalização;
(5) amnésia dissociativa (isto é, incapacidade de recordar um aspecto importante do
trauma).
|
|
C. O
evento traumático é persistentemente revivido no mínimo de uma das seguintes maneiras:
imagens, pensamentos, sonhos,
ilusões e episódios de flashback recorrentes, uma sensação de reviver a experiência,
ou sofrimento quando da exposição a lembretes do evento traumático.
|
|
D.
Acentuada esquiva de estímulos que provocam recordações do trauma (por ex.,
pensamentos, sentimentos, conversas, atividades, locais e pessoas).
|
|
E.
Sintomas acentuados de ansiedade ou maior excitabilidade (por ex., dificuldade para
dormir, irritabilidade, fraca concentração, hipervigilância, resposta de sobressalto
exagerada, inquietação motora).
|
|
F. A
perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento
social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo e prejudica
sua capacidade de realizar alguma tarefa necessária, tal como obter o auxílio
necessário ou mobilizar recursos pessoais, contando aos membros da família acerca da
experiência traumática.
|
|
G. A
perturbação tem duração mínima de 2 dias e máxima de 4 semanas, e ocorre dentro de 4
semanas após o evento traumático.
|
|
H.
A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por
ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral, não é melhor
explicada por um Transtorno Psicótico Breve, nem representa uma mera exacerbação de um
transtorno preexistente do Eixo I ou Eixo II.
|
|