BREVES
CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS ASPECTOS NEUROPSICOLÓGICOS
LIGADOS ÀS EMOÇÕES HUMANAS
Paulo
F. Moraes Nicolau
Prof. titular de Psicologia Médica
e Psiquiatria da UNOESTE
* Exposição feita no Painel de 03.06.89 - Seminário
Gênese das Emoções.
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Sentimento "Sentimento
é aquilo que só nós sentimos, mas quando
o exprimimos, é o mesmo que todos sentem".
Dante
Milano (1899),
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Poesia
e Prosa
Cultura "Sem o
homem certamente não haveria cultura, mas
do mesmo modo, e mais significativamente,
sem cultura não haveria o homem".
Clifford Geertz
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É extremamente difícil, no estágio do
conhecimento científico em que estamos, falarmos acerca
dos processos neuropsicológicos, sem que tenhamos
inúmeras discussões. Nossas "verdades" são
efêmeras. Mal conseguimos "passar a limpo"
os rascunhos de nossos estudos e leituras e temos
que começar tudo novamente tal o número de informações
e reflexões a respeito do tema, pois a Ciência recoloca
permanentemente em discussão os conceitos, mesmo os
mais solidamente estabelecidos.
O homem sempre possuiu um forte, ambicioso
e íntimo desejo de conhecer a sua origem e a do mundo
em que habita. E, depois de tantos estudos, de tanta
especulação, de tantas controvérsias, esta questão
é ainda hoje um problema sem solução científica, apesar
de constituir a procura e a essência do conhecimento
do homem e de ser a questão central do pensamento
filosófico.
O sistema nervoso central é a porção do
corpo humano mais protegida, a que possui maior complexidade
anatômica e funcional, a que é dotada de maior plasticidade
reacional, a que tem maiores potencialidades, aquela
em que se verifica maior capacidade evolutiva. Todos
estes fatos estão relacionados com a sua intensa atividade
funcional e com a sua extrema delicadeza. Com efeito,
na essência de qualquer fenômeno da vida do homem,
encontramos sempre o sistema nervoso, pois este conduz
e regula todas as funções e toda a evolução do gênero
humano e do indivíduo.
O homem é, por excelência, um ser social
que aprende de uma maneira mais complexa, por essa
razão, é mais eficiente que os outros seres vivos
na medida que possui um tipo único e especial de sistema
de comunicação: a linguagem. O que uma pessoa se torna
eventualmente, em termos de comportamentos e crenças,
depende da cultura na qual está inserida. Não só o
homem faz cultura, mas ele também é feito pela cultura.
Fascinante é o estudo do sistema nervoso
do homem, de sua organização morfopsicofuncional que
rege as necessidades do indivíduo e suas relações
com o ambiente físico e social peculiares a nossa
espécie que é por nós chamada de personalidade.
Nosso modo de ser é único; é a distinção
de nossa espécie.
Nosso cérebro faz muito mais que recolher,
ele compara, analisa, sintetiza, e como nenhum computador
usa as emoções e as intuições, gerando abstrações
novas e inusitadas, projeta-nos no futuro, liberta-nos
do presente.
Temos uma qualidade única: a de ver a
nos mesmos e um desejo inextinguível de querer saber
que somos o instrumento de nossa sobrevivência.
Para conhecermos melhor o nosso cérebro,
temos de ver os aspectos evolutivos de nossa espécie,
porque como todos os nossos órgãos, o cérebro evoluiu
aumentando a complexidade e o conteúdo das informações
por milhões de anos.
Sua estrutura reflete todos os estágios
pelos quais passou o encéfalo. Evoluiu de dentro para
fora. Sabe-se que as áreas relacionadas com o comportamento
emocional ocupam territórios grandes, de vários centros
sub-corticais e do córtex cerebral. No fundo da parte
interior está a parte mais antiga o tronco encefálico
onde estão localizados vários núcleos de nervos cranianos
viscerais ou somáticos como o centro respiratório
e o vaso motor, isto é, coordena as funções biológicas
básicas, inclusive os ritmos de vida, exercendo sobre
o córtex, através da formação reticular, papel ativador,
pré-requisito para várias formas de comportamento
e manifestações emocionais, pois contém estruturas
destinadas a manter a vigília ou o sono.
A porção alta do tronco encefálico (substância
reticular, mesencéfalo) e gânglios da base, tem centros
com participação importante na procriação, na predação,
no instinto de território e no modo de vida gregário
(evolui há centenas de milhões de anos). Intimamente
relacionado e circulando parte destas estruturas está
o sistema límbico, que tem papel importante no comportamento
emocional do indivíduo, apresenta certo grau de plasticidade
no sentido de aprendizado e soluções de problemas
com base na experiência imediata. É a principal fonte
de nossos humores e emoções, de nossos interesses
e cuidados com os jovens (evolui há dezenas de milhões
de anos).
Também intimamente inter-relacionado a
estas estruturas, no lado externo, está o córtex cerebral
compreendendo mais de dois terços da massa encefálica,
constituindo um mosaico de células diferenciadas em
áreas funcionais diferentes (evoluiu há milhões de
anos).
O estudo do cérebro ocorre dentro de um
princípio holístico (A. R. Luria), o qual baseia-se
na idéia de que processos psicológicos em larga escala
operam em sistemas funcionais intimamente integrados
e desempenham cada qual um papel na atividade psíquica.
Sendo eles responsáveis pela manutenção do tono do
córtex, estado indispensável para o correto recebimento,
processamento, elaboração e conservação da informação,
assim como pelos processos de formação e organização
de comportamentos e também pelo controle de suas execuções
a partir do próprio corpo do indivíduo.
Recordamos ainda que toda a movimentada
atividade cerebral depende de uma fina e requintada
comunicação neuroeletroquímica (hoje são conhecidas
algumas dezenas de substâncias que exercem atividades
neurotransmissoras) realizada por uma microscópica
"rede" de células cerebrais, cujo corpo
mede em geral apenas alguns milésimos de milímetros
- os neurônios. Possuímos cerca de cem bilhões destas
pequenas células especializadas e cada uma delas estabelece
em média contacto com 1.000 à 10.000 outros neurônios
(algumas chegam a fazer 50.000 junções).
Nossos pensamentos, sensações, percepções,
fantasias, possuem uma realidade física. Um pensamento
é formado por milhares de impulsos eletroquímicos.
A neurotransmissão é mais um dos intrincados segredos
do sistema nervoso que está sendo exaustivamente estudado
e lentamente esclarecido, segundo John Eccles "...
o entendimento final e completo (do cérebro) está
indefinido no futuro e pode até mesmo ser paradoxal;
um cérebro compreender completamente o que é um cérebro".
Como apropriadamente, diz Sagan: "o
córtex onde a matéria é transformada em consciência
é o ponto de embarque de todas as nossas viagens,
é o reino da intuição e da análise crítica. É aqui
que temos idéias e inspirações, aqui que lemos e escrevemos,
aqui que fazemos matemática e compomos música. É a
distinção da nossa espécie, a sede da nossa humanidade.
A civilização é um produto do córtex cerebral".
Não se pode negar a imensa carga de dados
concretos existentes que nos permite identificar certas
funções cerebrais, que se distribuem em grandes sistemas
neurofisiológicos sem estarem contudo circunscritas
a centros fixos, também é verdade que certos aspectos
do comportamento não podem ser equacionados apenas
em termos neurológicos e que estas limitações levaram
à necessidade da formulação de construtores psicológicos.
Sanvito muito oportunamente cita um comentário
de Krech: "A minha posição é que se um fenômeno
fisiológico contradiz um fenômeno psicológico observado,
dê-se preferência para o fenômeno psicológico, porque
nós podemos estar mais certos daquilo que observamos
comportamentalmente do que daquilo que observamos
fisiologicamente ... O problema do psicofisiologista
é não reduzir a psicologia para que a fisiologia possa
explicá-la, mas sim expandir a fisiologia para que
ela possa abranger a psicologia".
Encerro assim minha modesta contribuição
para este Seminário e agradeço a oportunidade a mim
concedida de participar deste painel com tão ilustres
expositores.
Obrigado.
Experiência
"Experiência não é o que aconteceu com você,
mas o que você fez com o que lhe aconteceu".
Aldous Huxley
(1894-1963)
(SUGESTÕES
PARA LEITURA)
B I B L I O G R A F I
A
COELHO, L.M.S. Epilepsia
e personalidade. 2. ed. São Paulo, Ed.
ÁTICA, 1980. p. ____35-92. (Ensaios, 14).
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J. C. O conhecimento do cérebro,
trad. de Sonia I. Fantauzzi, São Paulo,
____Atheneu/EDUSP,
1979. 257 p.
GUYTON,
A. C. Tratado de fisiologia médica;
trad. Dr. Alacyr Kraemer et. alii. 6. ed.
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1984. 346p.
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MARINO
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