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Antônio
e sua mulher Hanna (que trabalha com ele e divide as
mesmas paixões, e a quem deve uma boa parte de seu sucesso)
todos os dois nasceram em Portugal, e obtiveram seus
diplomas na faculdade de medicina da Universidade de
Lisboa. Após terminarem suas teses, partiram para os
Estados Unidos. “Há vinte anos, explicam eles,
foi o último lugar onde pudemos fazer a pesquisa”.
Primeira
etapa em 1967: o laboratório do grande neurologista
Norman Geschwind, centro de pesquisa sobre Afasia em
Boston. Com a morte de Geschwind, em 1984, o casal parte
para Iowa. Arthur Benton instalou-se, de um lado, por
causa dos papéis da neuropsicologia, mas também sobretudo
por causa daquele estado rural e deserto, onde
havia excelentes escolas, bons hospitais e “ as pessoas
pensam que é normal ajudar à pesquisa médica.”
Foi
aí exatamente sua falha. Após a chegada de Arthur Benton,
todos acreditaram que boa parte dos principais centros
mundiais consagram estudos dos substratos neurológicos
às funções mentais. Antônio afirma, como o teórico do
casal, aquele que interpreta as experiências. Devemos
notar em sua equipe, as contribuições importantes
na compreensão da visão, da memória, da linguagem, da
tomada de decisões. Hanna, neuroanatomista, nutre a
reflexão de seu ego ao imaginar e construir a maior
parte das experiências. Ela foi notavelmente uma
das primeiras a utilizar as tecnologias atuais imaginárias
do cérebro para estudar o cérebro humano e as funções
cognitivas.
Resultado:
em 1992, Antônio e Hanna receberam o prêmio Pessoa,
a mais alta distinção intelectual de Portugal, pela
sua contribuição a cartografia do cérebro. A presença
de sua mulher, na cidade de Iowa, longe em primeira
instância das grandes mecas da pesquisa Americana, representou
um papel determinante na carreira de Antônio Damasio.
No coração de Midwest, um imenso Hospital da Universidade
de Iowa recebeu em decorrência de doenças de todos os
tipos, pouco menos que o relativamente escolhido para
as megalópoles universitárias. O departamento
de neuropsicologia também pôde notar os múltiplos casos
fascinantes. Junto de Damasio pudemos reunir uma coleção
de mais de 2.000 doenças registradas em função de seus
problemas (ataques, infecções, traumatismos, tumores
e outros acidentes cerebrais).
Damasio
se recorda desde a infância do aprendizado segundo o
qual a gente não pode tomar uma sábia decisão a não
ser com calma. “De outro modo, disse, precisa-se,
havia aprendido, que as emoções e a razão não podem
mais se unir, assim como a água e o óleo. Portanto,
confiante, fui confrontado um dia com o ser humano,
o mais frio, o menos emotivo que se podia imaginar,
ou, apesar de sua inteligência, sua faculdade de raciocínio
fosse assim perturbado, nas circunstâncias variadas
da vida cotidiana, ele se conduzia de todas as maneiras
errôneas, fazendo agir perpetuamente pelo oposto
daquilo que teria considerado como socialmente apropriado
e como vantagem para ele”.
Por
volta dos 30 anos, um paciente em questão, chamado de
Elliot, apresentou o que pareceu ser um meningioma,
de outro modo disseram tratar-se de um tumor saído das
meninges, que comprimia os dois lóbulos frontais. Após
uma operação prática de urgência e coroada de sucesso,
viria a cura. Infelizmente, sua personalidade
mudou muito rápido. Para pior.
Rapidamente
com efeito, o jovem partiu à deriva, tornou-se desligado
e distante. Assim, no consultório, ele hesitava entre
uma tarefa e outra, ou refletia indefinido em relação
aos princípios dos processos de classificação, sem jamais
tomar decisões. Portanto, sua inteligência permanecia
perfeitamente intacta. Seus conhecimentos também. Incapaz
de um trabalho regular, Elliot colocou-se a especular,
investiu todas suas economias e perdeu tudo, inclusive
sua família. Tornou a se casar e divorciou-se novamente....
Com o tempo, ele terminou sendo considerado por todo
o mundo como um preguiçoso e um simulador.

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UM
DETECTOR DE EMOÇÕES
Quando
as pessoas “normais” vêem imagens contidas
de forte emoção, sua secreção do suor
aumenta. No caso das pessoas estarem sujeitas
às lesões cerebrais, não há nenhuma resposta
epidérmica. |
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| QUANDO
O CÉREBRO É LESADO
O
córtex frontal representa um papel essencial
no controle de nossas emoções. No
caso de lesão, quando aparecer um forte
estímulo 1) vindo do meio do corpo,
o córtex frontal 2) não pode
lhe proibir a passagem. O estímulo
escuro pelo tálamo, 3) o sistema
límbico, 4) os núcleos estriados,
5) o lóbulo temporal, 6) a amídala,
7) e o mesencéfalo 8) Ao final
deste tour de circuito, ele volta ao tálamo
e continua sua ronda. As lesões do
córtex frontal pode provocar uma mistura
da desinibição e da agressividade. |
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UMA
BARRA DE MINÉRIO ATRAVESSA-LHE O CÉREBRO
Até
hoje Damasio se interessa pelo caso, fizeram-lhe
sofrer uma bateria de testes psicométricos, e
examinaram seu cérebro por IRM (imagem por
ressonância magnética). Ele descobriu uma lesão
no nível da parte frontal de seu cérebro. E absolutamente
nada no outro.
É
obrigado então a constatar que este único “problema”
arrebatou uma inatitude ao tomar as decisões.
Elliot era bom e bem doente.
Damasio
e sua equipe erraram em conseqüência da ocasião
de escrutar o cérebro por um bom vintém de casos
iguais ao de Elliot. Todos apresentam lesões
tocantes a uma das estruturas cerebrais ligadas
às emoções e à tomada de decisões: o córtex pré-frontal
ventro-mediano. Entre aqueles numerosos casos
estudados, sem dúvida que um dos mais curiosos
de todos os anais médicos: aquele de Phineas Gage,
que, em setembro de 1848, no momento em que trabalhava
em uma construção de uma ferrovia, em Nova-Inglaterra
(Estados Unidos), foi vítima de uma explosão acidental:
uma barra de minério, 1,80 m, lhe atravessou o
crânio e o cérebro.
UM DETECTOR DE EMOÇÕES
Até
mesmo as pessoas “normais” quando vêem imagens
carregadas de grande emoção, têm as secreções
sudoríparas aumentadas. No caso das pessoas sujeitas
a lesões cerebrais, não há nenhuma resposta epidérmica.
Gage
não somente sobreviveu, mas parecia totalmente
consciente após o acidente, e foi imediatamente
capaz de andar e de falar. Mas, assim como no
caso Elliot, apesar de quase um século e meio
mais tarde, sua personalidade se modifica profunda
e definitivamente. Certamente, ele não apresentava
nenhuma desvantagem de motricidade e de linguagem,
era capaz de aprender, e sua memória e sua inteligência
estavam intactas. Somente seu comportamento
social foi modificado. Dantes responsável, socialmente
bem integrado e apreciado, tornou-se muito rapidamente
irresponsável, grosseiro e caprichoso. Perdeu
seu trabalho e passou os doze anos que sobreviveu
a vadiar, a se exibir no circo Barnum, antes
de morrer em 1860.
AUTÓPSIA DE OUTRO ACIDENTE
Felizmente
pela corajosa ciência, cinco anos após a sua morte,
seu médico pessoal pede a sua família autorização
para exumar o corpo e recuperar o crânio
- que se encontra de agora em diante na Universidade
de Harvard.
Retornando
à nossa época: Albert Galaburda, neurólogo e velho
amigo de Damasio, toma todas as medidas
do crânio lesado. E em 1994, Hanna Damasio e seus
colaboradores reconstituíram em três dimensões,
graças às técnicas imaginárias assistidas pelo
orientador, o crânio de Gage.
Após
reconstituir o trajeto da barra de ferro através
daquele que poderia ter sido seu cérebro, o resultado
daquela verdadeira autópsia do outro acidente:
Gage e Elliot apresentam lesões estritamente parecidas.
A
compilação de todos aqueles dados permitiu aos
pesquisadores americanos aperfeiçoar os testes
práticos sobre Elliot e seus semelhantes e precisar
as relações entre a razão e as emoções. Assim
Daniel Tranel, um colaborador de Damasio, teve
a idéia de aplicar em Elliot um teste destinado
a detectar as emoções. Este consistiu em apresentar
ao paciente imagens trágicas: casas em fogo,
assassinatos, tremores de terra, feridos, etc...
Elliot não sofreu estritamente nada ...
Damasio
se recorda: “Era absolutamente irreversível.
Estava na medida de conhecer, mas não de
sentir”. Estas descobertas conduziram o
neurólogo a construir a mais espantosa das teorias
da pura razão. “A observação dos pacientes, assim
como Elliot, sugere que a fria estratégia evocada
por Kant e por outros autores pareça mais de uma
maneira cujas pessoas acometidas de lesões pré-frontais
procedentes por tomarem uma decisão do que
aqueles indivíduos normais”.
Se
é que nos ameniza, pensemos no famoso aforismo
de Descartes. “O coração tem razões que própria
razão desconhece”. Damasio, retoma totalmente
a fórmula: “O organismo tem certas razões, que
a razão deve absolutamente levar em conta”, considera
ele.
Para
os neuropsicólogos da cidade de Iowa, não existe
portanto, razão no estado puro. Não há corte,
entre o corpo e o espírito. O homem é um todo.
Uma
impressão ainda não confirmada por um dos últimos
casos observados, aquele de SM, foi recentemente
objeto de importantes publicações nas revistas
científicas anglo-saxônicas (natureza, especialmente).
Trata-se de uma mulher incapaz de decifrar o medo
sobre o rosto de outro. Isto pela
simples razão daquela pessoa apresentar uma lesão
na amídala, uma parte do cérebro, devido a uma
calcificação seletiva (Doença de Urbach - Wiethe).
De onde, sem dúvida, surgem graves dificuldades
sociais. De maneira geral, SM ilustra portanto
perfeitamente bem a importância das relações entre
o mundo das emoções e da consciência ou da tomada
de decisões.
A
causa dos problemas sociais de S.M. pode parecer
diferente daquela de Elliot ou de Gage, ou daqueles
que, como eles, apresentam danos no nível orbital
do córtex frontal. Antônio Damasio, pensa totalmente
o contrário. Ele considera que estes são aspectos
do mesmo problema. A deficiência de SM sustentou
de fato sua hipótese, segundo ele aquela tomada
de decisões sociais adaptadas implica nos
sinais emocionais ou de outros indicadores do
estado do organismo. Estes sinais, que Damasio
chama de “marcações somáticas”, são utilizadas
para avaliar se uma decisão particular seria uma
boa ou uma péssima conseqüência.

Um
“guia” da sobrevivência. No córtex frontal
se encontram “as zonas de convergência” que integram
as conexões entre uma determinada situação e os
estados do corpo (algumas das múltiplas situações
e percepções memorizadas).
As
zonas de convergências alimentam os “marcadores
somáticos”, um tipo de guia automático que orienta
a escolha do indivíduo visando a sobrevivência.
AS EMOÇÕES NOS AJUDAM A PENSAR CERTO
Para
todos os seus colegas, esta teoria é uma das maneiras
mais originais da neurologia nos últimos anos.
É um aspecto essencial de alto nível de complexidade
existente no humano que se põe em relevo nessas
pesquisas. Grosso modo, isto significa simplesmente
que nós “pensamos com o nosso corpo”. Que as emoções
são literalmente “corporalizadas”.
Uma visão da natureza humana que Freud e a psicanálise
não desmentirão sem dúvida..
Antônio
Damasio explica: “Quando nós somos confrontados
a escolher, o que se passa? Fazemos um tipo de
análise de custos e benefícios, olhamos
todas as opiniões, pegamos um lápis e começamos
a calcular. O que se passa se eu fizer assim
ou assado? Se utilizar este único
método - mesmo para tomar uma simples decisão?
Há tantas possibilidades, tantos resultados
intermediários, que para decidir se você aceita
jantar comigo esta noite, lhe será necessário
pelo menos uma hora, ou, é provável que você possa
responder a um convite por sim ou por não em alguns
instantes. Por quê?”.
Penso
que nós somos talvez ajudados pelas emoções, responde
o neuropsicólogo. Se no decorrer de nossa vida
temos de aprender o que é bom ou não para nós,
seria apropriado, hoje e no futuro, desenvolvermos
um tipo de guia automático. Eu chamei este
mecanismo de marcador somático. É ele que
ajuda a eliminar as opções piores, ou que, ao
contrário, pode levar a uma escolha das conseqüências
benéficas. Mas, estes famosos marcadores somáticos
não estão de fato situados nos lóbulos frontais.
Não se encontram na realidade, nestas regiões,
meios de generalizar os marcadores somáticos.
“É o que eu chamo uma zona de convergência”, precisa
Damasio.
Esta
constata as conexões entre certos estados do corpo
e de uma dada situação. Até a zona de convergência
ser ativada, uma multidão de ordens partem em
direção à amídala, ao tronco cerebral, ao hipotálamo,
para criar um estado particular então apresentado
no córtex somato-sensorial. “E este serve
de marcador. É tudo simplesmente o estado que
qualifica uma imagem ou uma situação particular”.
Após
vários meses então, Damasio tenta mudar sua teoria
dos marcadores somáticos. E este,
ao estudar a resposta epidérmica às emoções graças
aos testes de “condutância cutânea”. O princípio
é o mesmo que aquele dos detectores das mensagens:
assim, quando contemplamos uma cena que nos afeta,
certos elementos do nosso sistema nervoso preparam
um aumento da quantidade de suor produzido pela
pele, quase imperceptível, mas detectável si passar
por uma fraca corrente elétrica.
O CASO DE PHINEAS GAGE
A mulher e colaboradora de Antônio Damasio, Hanna,
realiza a reconstituição graças às técnicas imaginárias
assistidas por um coordenador; a lesão cerebral
e o crânio de Phineas Gage. Teve o crânio, em
1848, transpassado por uma barra de ferro. Extraordinariamente,
Gage sobreviveu à sua ferida, mas sua personalidade
foi profundamente afetada.

UMA TEORIA QUE REPOUSA SOBRE CENTENAS DE CASOS
Em
uma Universidade em Iowa, os pesquisadores então
assumiram vários grupos de discussões das projeções
das séries de dispositivos, para a maior parte
banais, mas entrecortados de quaisquer sessão
de subversão e movimentação. Resultado: os assuntos
“normais” apresentam aos olhos de quaisquer fotos
dramáticas, uma importante resposta epidérmica.
Então, nem Elliot e nem os outros pacientes sofreram
algumas das mesmas lesões cerebrais. Se é isto,
lógico, totalmente significativo.
Evidentemente,
a teoria coaduna com a neuropsicóloga americana
que não responde unicamente aos casos de Elliot,
SM e Gage. Ela é constituída sobre o estudo minucioso
por anos, durante as múltiplas lesões diferentes
e suas conseqüências nos casos de centenas de
pacientes. Damasio opta por uma aproximação
muito concreta aos mecanismos mentais. Ele
trabalha sobre os casos reais e não sobre os modelos
animais ou as experiências de laboratório. Sua
mensagem é clara: “O espírito respira o viés do
corpo e o sofrimento, que ele tenha sua forças
no nível da pele ou da imagem mental, preso ao
efeito da cadeira”, afirma ele.
E
Antônio Damasio conclui com precisão, como para
desculpar-se antes deste reducionismo um tanto
blasfematório: “Demonstrar que a percepção de
uma determinada emoção depende de um certo número
de órgãos do corpo não diminui o valor daquela
percepção o ponto de um fenômeno humano. Nem a
mágoa, nem o êxtase que podem acompanhar o amor
ou a arte se encontram desvalorizados pelo
fato de nós cumprirmos quaisquer dos milhares
de processos biológicos que fazem dessas emoções
aquilo que são”. “É precisamente o contrário que
é verdadeiro: nós não podemos estar espantados
diante da complexidade dos mecanismos que tornam
possíveis estes sortilégios. A percepção das emoções
é a base daquilo que os seres humanos chamam,
depois de milênios, a alma e o espírito”.
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