O PRINCÍPIO DE
CONSTÂNCIA
Como todo organismo vivo, o ser humano tem uma forte
propensão a manter constante sua tensão
interior: é o principio de constância,
análogo ao princípio de homeostesia da
fisiologia.
As condutas e os
mecanismos psíquicos, no sentido de evitar toda
tensão nova ou sua redução (sedução),
caso a tensão no possa ser evitada, serão
preferencialmente pesquisados: é o principio
de prazer que se encontra então a serviço
do precedente. Mas se inicialmente a criança
busca a descarga imediata, ela aprendera progressivamente
a distingui-la para que ela não seja perigosa
para sua sobrevida mas, ao contrario, fonte de uma satisfação
maior. Essa será a aquisição do
principio de realidade, para o qual o meio desempenhara
um papel considerável, e o qual vemos que a somente
uma forma organizada, para as necessidades e a qualidade
da sobrevida, do principio do prazer e não seu
oposto.
A criança
aprendera igualmente que um aumento da tensão
pode ser fonte de prazer se ela constitui preliminarmente
um prazer maior, permitindo a antecipação
da descarga posterior, como será o caso do coito
e dos prazeres sexuais preliminares.
A
REPETIÇÃO
Mas ao lado desse principio de constância-prazer,
a observação nos leva a fazer intervir
uma outra constante do funcionamento humano: é
a compulsão de repetição. Não
se trata da simples tendência em repetir os hábitos
adquiridos pela aprendizagem, mas da opressão
interna que impele os seres humanos a repetir indefinidamente
as mesmas situações traumáticas
que os fazem sofrer, mas que eles não podem ser
impedidos a provocar de novo. Freud pode descrever assim
"essas neuroses de destino" que parecem marcadas
por uma fatalidade trágica que às vezes
se repete em varias gerações.
A esse efeito de
repetição vindo do próprio paciente
se acrescentam as reações do meio social
que geralmente o reforçam.
E assim, por exemplo,
que uma personalidade perseguida induzira, pelo seu
comportamento, espanto, desconfiança, escárnios
e certamente uma verdadeira hostilidade de seu meio
social, confirmando a posteriori o fundamento de seus
medos iniciais. Freud também ligou a essa compulsão
de repetição as neuroses traumáticas,
em que o interessado revive indefinidamente o traumatismo
originário sem poder se livrar disso, assim como
as reações terapêuticas negativas,
que fazem com que mais ou menos inconscientemente o
paciente gere o fracasso de todas as medidas terapêuticas
passíveis de ajudá-lo como se ele estivesse
sendo forcado em manter condutas consideradas insatisfat6rias.
Ele vê nisso um efeito da pulsão de morte.
Mas, mesmo se recusamos
recorrer a essa última noção, somos
obrigados a constatar os efeitos da repetição.
E certo que tudo o que foi fonte de traumatismo, no
sentido psíquico do termo, deixa traços
em nós que tem tendência a ressurgir de
maneira repetitiva.
Vimos no Cap. 1
a definição de traumatismo. Seus efeitos
não são sempre perceptíveis imediatamente
e se desenvolvem suas potencialidades patogênicas
num segundo momento, às vezes muito distante.
E o "efeito a posteriori", característica
do funcionamento mental. Isso parece ser devido em particular
ao desenvolvimento em várias épocas da
sexualidade humana que se atingira seu ápice
na puberdade. Muitos traumatismos da criança
só se revelarão assim na puberdade quando
eles serão "reativados", absorvendo
então todo seu sentido, pelo instinto sexual
da puberdade.
Podemos ver na
descarga emocional (ou catarse ) uma possibilidade de
evitar o efeito patogênico dos traumatismos. E
a origem de todos os métodos ditos catárticos
(a "catarse" dos gregos designava os efeitos
liberadores da descarga emocional aos quais eles atribuíram
o papel benéfico da tragédia). Freud tinha
inicialmente pesquisado esse efeito catártico
especialmente pela hipnose, para abandoná-la
em seguida. Parece de fato que os efeitos são
muito passageiros. A única medida eficaz contra
a repetição e a rememoração
dos traumatismos, associada ao trabalho de compreensão
e elaboração psíquica.
D. Lagache reprova
essa tendência do psiquismo interno à repetição
do efeito Zeigarnik (1928) que é o fato de que
em certas condições experimentais, as
tarefas acabadas são melhor retidas do que as
inacabadas. Os traumatismos psíquicos, como as
tarefas inacabadas, representam tantas "feridas"
abertas e dolorosas que o paciente tentaria fechá-las
repetindo-as, na esperança mais ou menos mágica
de anular o fracasso precedente, ou, no caso do traumatismo,
de controlar, repetindo ativamente o que ele sofrera
passivamente. Infelizmente, é geralmente um novo
fracasso que ele repete, crescendo na mesma proporção
a compulsão de repetição.
AS
MODALIDADES DO FUNCIONAMENTO MENTAL
Elas
não são unívocas e a psiquê
apresenta vários níveis e tipos de funcionamento
que vamos rapidamente esquematizar.
A
CAPACIDADE DE ESPERA E A SIMBOLIZAÇÃO
Trata-se of de duas qualidades de funcionamento psíquico
que são características do pensamento
mais elaborado. Elas só são adquiridas
progressivamente e não são unicamente
ligadas à maturação do sistema
nervoso central, mas são inteiramente dependentes
da organização afetiva da crianca e da
natureza e da qualidade de suas relações.
O pensamento começa
por ser concreto e por exercer ação sobre
o mundo (H. Wallon). É somente progressivamente
que ele se desembaraça e que a criança
pode parar de ter necessidade da coisa ela mesma para
se interessar pelos símbolos que a representam.
Ela se tornara capaz de estabelecer elos entre esses
símbolos, seguindo não mais a inclinação
de sua afetividade, mas as leis da linguagem e da lógica,
chegando ao pensamento abstrato.
A
simbolização é assim a capacidade
de representar uma coisa por uma outra. Capacidade
rica de promessas, já que ela abre caminho
à possibilidade da representação
de uma coisa por signos cada vez mais simples
e abstratos, permitindo uma economia de meios
e então uma complexificação
crescente que levará à linguagem
humana. |
Mas,
para isso, a criança devera assumir uma distância
com relação aos objetos investidos que
ela tratara de simbolizar e cujo modelo perpetua sempre
os personagens importantes de seu meio social. Ela deverá
então poder:
- diferir a satisfação
imediata de seus desejos para deixar ao pensamento o
tempo de se desenvolver; desenvolvimento que só
pode se operar se a carga emocional que o subentende
não for excessivamente importante.
- ser capaz de
esperar e então de suportar a ausência
e a solidão, qualidades que são indispensáveis
para instaurar uma relação suficientemente
segura com o meio ambiente.
Somos levados assim
a caracterizar, no funcionamento mental, o mundo das
representações e o dos afetos.
As representações
designam os conteúdos do pensamento: idéias,
imagens mentais, cujo modelo poderia ser a reprodução
mental pela lembrança de uma percepção
anterior.
Os afetos designam
a tonalidade afetiva, emocional, forte ou branda, agradável
ou desagradável, que acompanha os acontecimentos
exteriores ou representações internas.
Podemos distinguir
dois grandes tipos de funcionamento mental:
O
FUNCIONAMENTO EM PROCESSOS PRIMÁRIOS
E aquele do inconsciente, mas
pode invadir a vida consciente, especialmente na psicopatologia.
Ele se caracteriza pela submissão aos afetos
e seu único objetivo será a satisfação
imediata do desejo que o originou.
Essa pulsão na direção
da satisfação mais imediata e mais completa
leva a utilizar representações não
segundo os elos lógicos, mas por meios como:
- o deslocamento, através
do qual uma representara freqüentemente de aparência
insignificante pode ser alvo de todo o valor psíquico,
a significação, a intensidade originalmente
atribuída a uma outra.
- a condenação pela
qual pode confluir uma representação única
de todas as significações trazidas pelas
cadeias associativas que vem se cruzar.
Há então falta
ou, no caso de uma regressão a esse tipo de funcionamento,
perda da capacidade de simbolização: o
pensamento "se concretiza" e as palavras são
apreendidas para as coisas que se supunha representarem.
Eles não adquiriram ainda ou perderam sua capacidade
de abstração e entendem no sentido literal,
que lhe confere um valor mágico e perigoso: por
exemplo, a leitura ou a audição da palavra
"morte" poderá realmente significar
uma ameaça de morte imediata.
Este modo de funcionamento
será o do lactente e o da criança, enquanto
esta última não tiver à sua disposição
uma manipulação suficiente da língua.
Ele cederá progressivamente o lugar ao funcionamento
em processos secundários (confira adiante) mas
permanecerá sempre latente e ressurgira em algumas
circunstancias: sonho, manifestações patológicas
(delírios, alucinações) a cada
vez que o indivíduo desencadear suas emoções
ou for excessivamente impelido numa conduta afetiva.
A tarefa do aparelho psíquico
sendo a de encontrar os meios de manter a homeostasia
interna, só existem nesse funcionamento em processo
primário duas vias de descarga possível:
- a descarga na vida motriz,
ou vegetativa, e temos of uma das condições
possíveis para a aparição de perturbações
psicomotoras (tiques, estereotipias, dispraxias), psicossomáticas,
e de condutas de auto-estimulação, tais
como, por exemplo, a que descrevemos entre as crianças
desnutridas (hospitalismo). Estas últimas condutas
tornam-se freqüentemente auto-eróticas por
investimento de lembranças de experiências
de satisfação ligadas à motricidade.
- a descarga pelo superinvestimento
no mundo fantasioso em busca de uma identidade de percepção
de natureza alucinatória, com representações
rememoradas de antigas satisfações, como
se elas fizessem parte da realidade externa: "que
isso seja e isso é", procedimento mágico
operando de modo claro no sonho, mas encontrado no nível
de todas as experiências de satisfação
a margem da realidade que já evocamos: devaneios
e o bem compreendido delírio.
A via motora é inicialmente
barrada pela ação da imaturidade do lactente
e vimos que podemos considerar que essa era uma das
condições que favorecem o desenvolvimento
excepcional do mundo psíquico no homem. Essa
será então a via vegetativa que constituirá,
no lactente, o meio privilegiado de assegurar sua homeostasia
psíquica. Isso explica a freqüência
das perturbações psicossomáticas
do lactente afetando sua vida vegetativa e suas funções
fisiológicas: apetite, sono...
A tarefa da educação
será ajudar a criança a suportar uma certa
tensão interna e a diferir a descarga graças
ao desenvolvimento de seu mundo psíquico. Isso
ocorre graças a boa qualidade da relação
com seu meio ambiente, que ela poderá conquistar,
e vimos que o aparelho psíquico da mãe
devia assegurar esse papel organizador e suprir a imaturidade
da criança, lhe concedendo uma autonomia cada
vez mais maior. É em particular graças
a segurança e às satisfações
que a educação suscita que a espera se
torna possível e que a criança pode organizar
o que chamamos de processos secundários, que
se opõem ponto por ponto aos processos primários.
O
FUNCIONAMENTO EM PROCESSOS SECUNDÁRIOS
Ele caracteriza, ao contrario,
o mundo consciente e racional. O afeto esta aqui ligado
as representações de modo estável
e são os processos do pensamento lógico
que devem articular os elos e associações
entre as representações, e não
mais a intensidade afetiva da qual elas são investidas.
O princípio de realidade acaba por corrigir o
princípio de prazer e a espera toma-se possível
e alterna a descarga imediata a todo preço.
O processo secundário
constitui então uma modificação
do processo primário e acaba por preencher uma
função reguladora tornada possível
pela constituição do Ego, do qual um dos
principais papéis será inibir os processos
primários ligando-os as representações,
organizando-os e tornando-os compatíveis com
a realidade externa, que eles terão por tarefa
modificar, a fim de encontrar ali as satisfações
necessárias. Sublinhemos mais uma vez o papel
essencial representado nesse trabalho pela qualidade
das relações com o meio ambiente e sua
interiorização (relações
objetais).
OS
MECANISMOS DE DEFESA
Designamos sob essa denominação diferentes
tipos de operações psíquicas que
tem como fim a redução de tensões
psíquicas internas. É, essencialmente,
o método psicanalítico e a pratica das
psicoterapias, especialmente nas crianças, que
tornaram possível individualize-los, mostrar
a gênese, apurar o valor para a economia psíquica,
seguir aí as transformações e eventualmente
a dissolução se eles se tornam supérfluos.
Se eles são geralmente
úteis para proteger a coesão do aparelho
psíquico, eles não tem todos o mesmo valor.
Geralmente inconscientes, eles estão facilmente
sob o domínio dos processos primários,
tomando a rigidez das compulsões de repetição.
Eles tornam-se então patogênicos e entravam
o funcionamento mental.
Vamos rapidamente passar em
revista os principais dentre eles:
O recalque é sem dúvida um dos mecanismos
de defesa essenciais, particularmente porque ele é
constitutivo do inconsciente.
Entendemos por recalque a operação
através da qual o paciente busca recalcar ou
manter no inconsciente representações
ligadas a uma pulsão. O recalque se produz nos
casos onde a satisfação de uma pulsão,
que pode gerar ela mesma o prazer, corre o risco de
provocar desprazer, com relação a outras
instancias (Laplanche e Pontalis. Vocabulaire de la
psychanalyse - P.U.F.). Instâncias que são
freqüentemente mais próximas da consciência
e que tem por finalidade proteger a relação
do paciente com seus objetos de amor reprimindo tudo
o que iria ao encontro de suas exigências ou de
seus sentimentos de amor e de respeito que o paciente
pensa que devem lhe trazer.
A regressão. - Ela designa
de um modo geral um retorno às formas anteriores
do desenvolvimento do pensamento e do estilo de relações
do paciente com seu meio ambiente. Desde Freud, distinguimos
classicamente três tipos de regressão,
que são de fato geralmente associados:
- a regressão tópica
do consciente ao inconsciente;
- a regressão formal, em que
são retomados modos de expressão ou de
figuração do pensamento mais primitivos,
com a passagem de um funcionamento em processo secundário
a um funcionamento em processo primário.
- a regressão temporal,
em que o paciente encontra modalidades relacionais colocadas
sob o primado das zonas erógenas mais arcaicas:
anais e orais.
A regressão nunca é
um retorno puro e simples ao estado anterior porque
não podemos jamais obscurecer a evolução
intermediária. Um adulto regredido não
será jamais a criança que ele foi. E preciso
de preferência entendê-lo como a reatualização
de um modo de funcionamento antigo que vai induzir,
no interessado, a prevenção de uma linguagem,
de um comportamento, de interesses que terão
a tonalidade e a coloração características
de um determinado estágio.
A reversão através do oposto representa
o processo pelo qual o objetivo de uma pulsão
se transforma em seu contrário na passagem da
atividade a passividade. Ela esta em geral estreitamente
ligada ao retorno sobre si em que a pulsão substitui
um objeto pela própria pessoa. É o caso
particularmente nos casais de opostos que andam vestidos
iguais: sadismo e masoquismo, voyeurismo e exibicionismo.
O retorno do sadismo através do masoquismo implica
ao mesmo tempo a passagem da atividade a passividade
e uma inversão dos papéis entre aquele
que administra e aquele que experimenta os sofrimentos.
Os conjuntos de condutas opostas
coexistem no inconsciente e sua transformação
de uma em outra só pode ser compreendida se fizermos
intervir a disposição fantástica
onde o paciente, na sua fantasia (que ele age e trabalha
no seu comportamento externo), ocupa alternadamente
todas as posições.
O deslocamento consiste no fato de que o reforço,
o interesse e a intensidade de uma representação
podem se destacar dela para passar as outras representações
originalmente pouco intensas, ligadas a primeira por
uma cadeia associativa.
O isolamento é o procedimento que consiste em
isolar um pensamento ou um comportamento de tal modo
que as conexões com seu contexto afetivo, com
outros pensamentos ou com o resto da existência
do indivíduo se encontram rompidas.
Ele dá meios de fazer
a economia do recalque, contanto que a representação
seja totalmente privada da carga afetiva que ela tinha
primitivamente, o afeto, quanto a ele, devendo encontrar
uma outra saída: por exemplo, deslocamento sobre
uma outra representação.
A anulação retroativa é o mecanismo
psíquico através do qual o indivíduo
se esforça em agir de modo que pensamentos, palavras,
gestos, atos passados não sejam adivinhados.
Ele utiliza para isso um pensamento ou um comportamento
que tenha uma significação oposta. Sua
característica mágica reflete bem seu
elo com o inconsciente.
A formação reacional é uma atitude
psíquica de sentido oposto a um desejo reprimido
e constituída em reação contra
ele. Em termos econômicos, a formação
reacional é um contra-investimento de um elemento
consciente, de forca igual e de direção
oposta ao investimento inconsciente. Podemos tratar
de atividades muito generalizadas, constituindo tragos
de caráter mais ou menos integrados ao conjunto
da personalidade; mas, às vezes, elas assumem
um valor sintomático no que oferecem de rígido,
de forçado e compulsivo. Enquanto traço
de caráter, um gosto excessivo pela limpeza camuflara
uma tendência à sujeira, ou uma compaixão
invasora será uma formação reacional
contra desejos agressivos. Enquanto sintoma, o ódio
a sujeira fará com que o paciente só pense
em sujeira e centrara de fato sua existência e
seus interesses sobre ela, pelo viéis de sua
preocupação com a limpeza; ou a exigência
de compaixão se fazendo tirânica se tornará
uma oportunidade de agredir todo o seu meio. Percebe-se
nestes últimos exemplos o retorno do recalque.
A negação possibilita igualmente fazer
a economia do recalque, o indivíduo podendo tomar
a liberdade de formular um pensamento, um desejo, um
sentimento anteriormente reprimido, com a condição
de negar o que eles significam: "não creia
que eu pense desse modo" ou "que eu tenha
tal desejo". Ela favorece o desenvolvimento do
pensamento, que um excesso de repressão paralisa
de maneira oposta, diminuindo a potencialidade conflitual.
Em excesso, ela empobrece a personalidade que esta ainda
condenada a não reconhecer o que lhe pertence,
sobre o plano afetivo em particular. A racionalização
se apóia freqüentemente sobre a negação
e o isolamento para encontrar sempre boas razoes para
explicar o comportamento cujas motivações
profundas são de fato julgadas inaceitáveis.
A sublimação: um instinto é dito
sublimado na medida em que ele é derivado na
direção de um novo objetivo não-sexual
e que ele visa objetos socialmente valorizados. Trata-se
de um processo postulado por Freud para observar atividades
artísticas e intelectuais aparentemente sem relação
com a sexualidade, mas que encontrariam energia na força
do instinto sexual. A ressexualização
dessas atividades provocaria fenômenos patológicos
e dificuldades na sua realização: inibição,
por exemplo.
Citemos também a reparação
que descrevemos no Cap. 2 a propósito do desenvolvimento
da criança e do acesso a ambivalência.
Ao lado desses mecanismos de
defesa relativamente comuns, devemos confrontar outros,
cuja persistência testemunha por ela mesma um
registro patol6gico (psicose).
A clivagem, mecanismo muito primitivo, considerado como
a defesa mais arcaica contra a angústia, onde
o objeto, visado pelos instintos libidinais e agressivos,
é cindido num "bom" ou num "mau"
objeto que terão destinos relativamente independentes
no jogo das introjeções e das projeções
(veja o Cap. 2). Ele é acompanhado de uma clivagem
correlata do Ego.
A idealização: ela é o resultado
de urna clivagem prévia mas onde, para proteger
o bom objeto dos instintos destruidores, ela vê
suas qualidades e seu valor nitidamente exagerados.
A nega¢ao da realidade, em que o paciente nega
totalmente uma parte mais ou menos importante da realidade
externa.
Nós só citaremos
dois mecanismos: a introjeção e a projeção.
Eles têm com efeito um papel essencial na individuação
e na formação da personalidade e essa
é a razão pela qual nós os estudamos.
A
IDENTIFICAÇÃO
Ela é o processo psíquico
através do qual o paciente assimila um aspecto,
uma propriedade, um atributo do outro e se transforma
total ou parcialmente sobre o modelo deste último.
Nós lhe reservamos um
lugar particular em conseqüência de sua importância
enquanto:
- processo formador da personalidade;
- mecanismo de defesa essencial
contra a perda e o luto;
- origem de múltiplas
condutas patológicas;
- fator essencial na formação
e no funcionamento dos grupos.
Existem vários tipos de identificação,
que podem eventualmente se combinar.
A Identificação com o objeto perdido.
- Ela a um meio privilegiado de suprir a ausência
do objeto amado perdido. O processo de base é
a incorporação oral, tal como a descrevemos
a propósito da primeira relação
mãe-filho. Neste caso, o objeto é fantasticamente
incorporado, enquanto o paciente adota as características
do objeto. O investimento pulsional do objeto pode ser
abandonado e transferido sobre os traços incorporados.
Haveria ali um processo essencial de formação
do Ego e de aquisição de sua autonomia
com relação ao objeto. Encontramos freqüentemente
este processo na origem das queixas somáticas
subseqüentes a uma perda real de uma pessoa amada.
Essa perda pode ser real puramente fantasiosa e ligada,
por exemplo, a um conflito, a um afastamento temporário
ou a uma nova ligação. A queixa vem tomar
o lugar do objeto perdido reproduzindo uma perturbação
análoga da pessoa amada (famílias de "hepatopatas",
de "enxaquecosos") ou superinvestindo em uma
zona corporal ligada de um modo ou de outro a essa pessoa:
queixa-se da perturbação, frustrante como
foi o objeto perdido, mas ela não constitui menos
uma presença à qual se está inconscientemente
ligado.
A Identificação amorosa deriva da antecedente,
da qual ela representa uma forma mais elaborada, menos
ambivalente, visto que não é necessário
que o objeto desapareça ou esteja perdido para
que ela tenha lugar. Amar é desejar possuir o
objeto e, como isso não pode jamais acontecer
completamente, uma solução pode ser procurar
tornar-se como ele, carrega-lo dentro de si, ser ele.
É indispensável no começo da vida,
para que o indivíduo possa substituir progressivamente
os pais, seu prolongamento subseqüente pode ser
patogênico.
Vemos freqüentemente essa
solução aparecer como tentativa de resolução
do complexo de Édipo. Por exemplo, a menina não
podendo ter para ela sozinha seu pai e ser amada por
ele como ela o desejaria, se identifica com esse pai,
por um ou vários de seus traços: ela não
tem então mais que estar na expectativa de seu
amor, já que ela o consente nela; o que tem também
a vantagem de fazer cessar sua culpabilidade com relação
a sua mãe, a qual ela renuncia, pelo próprio
fato de tomar o seu lugar. Resolução do
conflito então, mas cerceia a menina na aquisição
de sua identidade feminina e dificuldades posteriores
prováveis nas suas relações amorosas
que virão ocasionar sua identificação
masculina. Esse movimento de identificação
com o pai poderá ser a seu modo perturbado, no
caso, por exemplo, de um conflito oral anterior excessivamente
importante, fonte de fantasias agressivas que a levarão
a experimentar a identificação como uma
incorporação oral destruidora do pai,
da qual ela tentara se proteger, por exemplo, fugindo
do seu pai (aparente indiferença ou medo) para
se refugiar regressivamente junto a uma mãe que
ela não ousará mais abandonar. Vemos assim
as reações em cadeia possíveis
e sua complexidade.
Identificação com o terceiro e formação
do grupo. - Na ausência de todo investimento libidinal
no objeto, pode haver entretanto identificação
por intermédio de um elemento em comum que pode
ser uma terceira pessoa. Ressaltam deste mecanismo os
casos ditos de imitação ou de contagio
mental. E igualmente o mecanismo que Freud descreveu
na "analise do ego e psicologia coletiva"
(em Essais de psychanalyse) como estando na base da
constituição do grupo. O elemento comum,
servindo de motor a identificação entre
os membros do grupo, é neste caso o líder
ou o dogma do grupo, representando o ideal de Ego de
cada um dos membros. Trata-se de uma forma de identificação
onde o componente narcísio é dominante.
Seu objetivo não é tanto ser recíproco
ao outro (ao objeto amado na forma precedente) mas pesquisar
sua identidade encontrando no outro o que ele tem de
comum consigo.
A Identificação
com o agressor já foi considerada a propósito
do jogo na criança e da formação
de seu Ego.
Imitação e aprendizagem. - Não
devemos então confundir o processo complexo da
identificação com a imitação
ou com a aprendizagem. A imitação é
somente um revestimento superficial, que interessa apenas
a personalidade do indivíduo, a qual ela permanece
estranha. Ela não tem valor estruturante, amadurecedor,
e cone o risco de arruinar-se ao menor conflito. Ela
dá origem às personalidades frágeis,
que chamamos de personalidades de "falso eu"
ou personalidades "como se".
A aprendizagem tem um aspecto
parcelado e designa toda modificação relativamente
estável de uma função e de um comportamento
sob o efeito da experiência adquirida. Ela é
a resultante objetivável, comportamental, de
um processo ocasionando mais ou menos, segundo o caso,
a personalidade. Pode-se dizer que ela pode ser facilitada
ou inibida pelos conflitos de identificação.
OS
MECANISMOS DE DESEMPENHO
Ao lado desses mecanismos de
defesa alguns autores, como D. Lagache individualizaram
mecanismos de desempenho. Eles se diferenciam dos primeiros
pelo fato de que não são sofridos pelo
Ego, forçado a recorrer automaticamente a uma
defesa imediata e incontrolada para diminuir sua tensão;
mas eles têm, ao contrário, por efeito,
libertar o Ego dessa opressão, lhe dando meios
de objetivar o perigo interiorizando-o e relativizando-o.
É assim que, no exemplo anterior da queixa pela
identificação com o objeto perdido, o
paciente pode, no lugar dessa identificação
relativamente custosa, se livrar desses investimentos
sobre o objeto e torná-los disponíveis
para outros investimentos. Mas isso supõe um
difícil trabalho de conscientização
e de luto operando nesses mecanismos de desempenho.
Um real depressivo é praticamente inevitável.
Pode ser tornado suportável graças ao
trabalho de elaboração evocando a linguagem
e a necessidade de apoio momentâneo de uma relação
psicoterapêutica.
O MODELO PSICODINÂMICO
DA PERSONALIDADE
A personalidade se construirá então segundo
um longo processo de trocas entre o de dentro e o de
fora constitutivo da oposição realidade
interna/externa. A barreira entre esses dois mundos
deverá ser suficientemente leve para permitir
essas trocas durante toda sua vida, uma rigidez excessiva
revelando o temor subjacente de ruptura. Essa barreira
se forma progressivamente e necessita durante a infância
de uma substituição reservada geralmente
aos pais que conservam o papel de "Ego auxiliar"
e que Freud chamou de "paraexcitação",
protegendo a criança dos traumatismos e das excitações
excessivas graças ao seu trabalho de filtragem
e de ligação, dando sentido e coerência
ao que a criança vive. A partir das primeiras
experiências de incorporação, a
criança guardando nela o bom e rejeitando o mau,
se opera uma interiorização progressiva
de suas experiências com o mundo exterior, liberando-a
progressivamente deste último. As identificações
com suas variantes e as relações de objeto
com suas diversas modalidades já consideradas
vão assim organizar o mundo interno. As experiências
relacionais e as condutas externas vão então
ter seu semelhante interno sob a forma de condutas interiorizadas.
A
interiorização, cuja identificação
acabamos de ver que representa uma das formas
mais elaboradas, é um mecanismo psíquico
que pode metaforicamente ser comparado a digestão.
Vimos (Caps. 1 e 2) a influencia do modelo fantasmático
oral sobre todas as modalidades relacionais posteriores.
Para que uma conduta, uma relação,
sejam interiorizadas, é preciso que, como
um alimento, elas tenham sofrido uma metabolização,
de onde a personalidade será alimentada,
mas que reaparecerá sob uma forma que pode
ser afastada da forma original. Essa digestão
exige, para se produzir, uma manipulação
possível da agressividade (morder e devorar)
com uma destruição fantasiosa do
objeto com o qual se estima a relação.
Essa deverá ser então, como vimos
na segunda pane, suficientemente estável
e segura para tornar tolerável essa relação
fantasiosa de devoração. |
AS
INSTÂNCIAS DA PERSONALIDADE
Elas são a resultante
desse processo. Designamos sob essa denominação
modelos teóricos fictícios destinados
a observar, organizando e esquematizando, a realidade
complexa da personalidade. As distinguimos classicamente
assim:
Old, que representa o pólo instintivo, impulsivo,
inteiramente inconsciente, funcionando segundo o processo
primário e só buscando a satisfação
imediata das necessidades e a tranqüilizarão
das tensões.
O Ego, que nasce do Id por diferenciação
progressiva ao contato da realidade a qual ele deve
se adaptar para sobreviver. Ele se forma graças
às introjeções e identificações.
Ele é a sede de mecanismos de defesa e representa
a instância rupulsora encarregada de assegurar
o equilíbrio psíquico conservando as tensões
em um nível constante. Ele funciona segundo as
leis do processo secundário, mas permanece parcialmente
inconsciente, especialmente no ato de colocar em ação
mecanismos de defesa.
O Superego, que designa a função crItica
do aparelho psíquico, portadora das ordens morais
a respeito do Ego. Seu funcionamento é em grande
parte inconsciente. Ele resulta da interiorização
das proibições parentais mas, como vimos,
profundamente transformadas devido ao seu investimento
pelos instintos saídos do Id. É assim
que cada vez mais a avidez do indivíduo será
grande, cada vez mais ele a experimentará como
destruidora e mais ele interiorizara as proibições
fundamentando essa voracidade sob uma forma severa,
imagem no espelho da violência de seu desejo.
O Ideal de Ego
Podemos distinguir duas categorias
de exigências:
- umas redutoras: "Você
não deve fazer isso";
- outras optativas, certamente imperativas:
"Você deveria ser assim" ou "você
deve ser assim".
As primeiras representariam
o Superego propriamente dito, as segundas o Ideal de
Ego, modelo ao qual o Ego deve se adequar. Vemos que
o Ideal de Ego tem como alvo o próprio ser do
indivíduo ao qual ele propõe uma imagem
perfeita dele mesmo. Ele esta então intimamente
ligado ao narcisismo e depende da imagem que os pais
têm de sua criança, ou pelo menos daquilo
que esta percebeu. A base será a interiorização
do olhar da mãe sobre seu filho, com todas as
eventualidades já consideradas ligadas ao processo
de interiorização. O Ideal de Ego a então
o depositário do narcisismo infantil do indivíduo
e do de seus pais, a criança procurando inconscientemente
se colocar no lugar do objeto ideal que acabaria por
satisfazer os pais. Ele se segue ao período em
que a criança tem a ilusão de ser todo-poderosa:
“ o que ele (o homem) projeta diante de si como
seu ideal é o substituto do narcisismo perdido
de sua infância; nessa época, ele era para
ele mesmo seu próprio ideal" Freud: "Para
introduzir o narcisismo - 1914 - em La vie sexuelle
- P.U.F.).
É este Ideal de Ego,
depositário do narcisismo infantil parcialmente
perdido, que torna possível observar as manifestações
tão variadas que a fascinação amorosa,
a dependência com relação ao hipnotizador
e a submissão ao líder, que representam
tantos casos onde uma pessoa estranha é colocada
pelo indivíduo no lugar de seu ideal de Ego.
Um processo semelhante está na base da constituição
do grupo humano. O ideal coletivo extrai com efeito
sua eficácia de uma convergência dos "Ideais
de Ego" individuais: "...um certo número
de indivíduos colocou um único e mesmo
objeto no lugar de seu ideal do Ego, e em seguida eles
identificaram um ao outro no seu Ego" (Freud, Psicologia
coletiva e análise do Ego, em Essais de psychanalyse).
Daí o caráter passional, e mesmo vital,
dos ideais e opções ideológicas,
que estão diretamente ligados ao narcisismo,
quer dizer, ao amor próprio e a representação
ideal de si mesmo, apoio do sentimento de nossa continuidade
e de nossa integridade.
Quanto mais o narcisismo falta,
mais a imagem de si será incerta e desvalorizada
e mais o indivíduo ficará constrangido
em transferir seus investimentos sobre ele mesmo para
restabelecer um equilíbrio e uma unidade sem
interromper a ameaça. Isso o conduzira a um egocentrismo
e a atitudes de apresentação destinados
a compensar a ameaça que faz pesar nele sua carência
narcísica. Esse é um dos paradoxos do
narcisismo porque dir-se-á sobre essas personalidades
que elas são narcísicas enquanto que,
de fato, elas sofrem uma carência narcísica.
Podemos entender esse aparente paradoxo compreendendo
que o defeito narcísico é primário,
resultante de uma perturbação relacional
precoce, enquanto a atitude narcísica compensatória
é secundária. As doenças e as deficiências
diversas constituem tantas feridas narcísicas
que podem igualmente ocasionar atitudes compensatórias.
Isso nos parece tão
importante de que o médico, como veremos na terceira
parte, é freqüentemente levado a representar
um apoio narcísico para o doente, imagem de todo
poder, não desprovido de ambivalência,
que o restaurara na sua integridade. Vem então
freqüentemente tomar o lugar do Ideal de Ego do
paciente.
A linguagem, através
da construção gramatical, exprime bem
essa capacidade reflexiva, específica do ser
humano, que lhe torna possível ver, se imaginar
e se comparar a imagem ideal que ele tem dele mesmo.
O "Eu me..." de frases como "eu me considero
culpado...," "eu me arrependo..." mostra
claramente que o indivíduo não é
nada além de uma composição e que
ele adquiriu essa faculdade de olhar sobre ele mesmo,
cujo desaparecimento no momento de algumas perturbações
psicopatológicas revela toda a sua importância
na construção da personalidade.
A
DINÂMICA DA PERSONALIDADE - O RETORNO DO RECALQUE
A personalidade não é uma construção
estática estabelecida de uma só vez mas,
como o próprio organismo, ela esta submetida
a mudanças permanentes e pode ser concebida como
a resultante mais ou menos estável de pressões
múltiplas e contraditórias.
Vimos que tudo o que era inconsciente
e os processos primários constituíam um
tipo de instinto permanente de apetência em busca
de satisfação imediata. O Ego e seu funcionamento
em processo secundário está aí
para conter, organizar e dar meios de diferir a satisfação,
assegurando o contato com a realidade pela tarefa de
se adaptar a ela e modificá-la.
Mas a pressão do inconsciente
permanecendo sempre, o que a reprimido tenderá
a ser restituído, ameaçando o equilíbrio
do Ego. Este tem a sua disposição, para
administrar a situação, além dos
mecanismos considerados duas ordens de medidas:
Os contra-investimentos. -
Designamos contra-investimento o processo que consiste
no investimento pelo Ego de representações,
sistemas de representações, atitudes...
que possam impedir o acesso das representações
e desejos inconscientes à consciência e
à motilidade. Vimos uma ilustração
com as formações reacionais: por exemplo,
uma preocupação com a limpeza acabando
por lutar contra o desejo de sujeira ligado as pulsões
anais.
Nos momentos e situações
de forte solicitação pulsional podemos
observar, quase experimentalmente, a modificação,
a acentuação e certamente a aparição
de contra-investimentos. E o caso da puberdade, onde
a forte pulsão sexual pode provocar contra-investimentos
no nível do trabalho intelectual e da adoção
de condutas ascéticas.
Esses contra-investimentos
têm um impacto particularmente importante na relação
entre pais e filhos. Quando excessivamente importantes
entre os pais, eles podem desempenhar o papel de um
excitante da pulsão correspondente na criança,
tornando conflituosa sua organização.
O contra-investimento pode representar, com efeito,
um papel de mensagem paradoxal designando à criança
a pulsão acusada como sendo fonte de interesse
e de excitação para seus pais. No exemplo
escolhido anteriormente, a limpeza excessiva como proteção
contra a sujeira e a agressividade que esta ligada a
ela, o interesse excessivo do pai pela limpeza o levara
de fato a observar tão especialmente o que poderá
ser sujo na criança, estimulando nesta ultima,
o instinto correspondente nele, proibindo-a de satisfaze-lo.
A criança terá sorte se apresentar um
sintoma que a leve a consulta. Compreendemos facilmente
que seria inoportuno prescrever atendimento destinado
unicamente a criança.
Na permanência dos desejos
inconscientes, os contra-investimentos opõem-se
a constância e à rigidez de suas defesas
e entram na formação dos tragos de caráter.
Eles são assim uma fonte permanente de dispêndio
energético para o indivíduo, sua acentuação
temporária e durável é a fonte
freqüente de fadigas inexplicáveis.
O retorno do recalque. - Ele constitui uma outra solução
para manter o equilíbrio do aparelho psíquico,
desempenhando de qualquer modo o papel de válvula
de escape.
Um certo número de fatores
pode facilitar esse retorno das representações
recalcadas, tais como: um enfraquecimento dos contra-investimentos
ou um ímpeto pulsional, como por exemplo a puberdade
ou o surgimento de acontecimentos atuais lembrando por
um ponto qualquer (uma simples sinonímia de nome
pode bastar) o material recalcado com o qual eles entram
em ressonância.
Mas esse retorno do recalque
não poderá se formar diretamente e sem
perdas. Ele deverá passar pela constituição
de formações de compromisso que serão
a resultante do ímpeto pulsional por um lado,
e da ação do Superego pelo outro. Serão
as rejeições do inconsciente, "formações
de compromisso entre as representações
recalcadas e recalcadoras". Na mesma formação
se satisfazem, assim, em um mesmo compromisso, ao mesmo
tempo o desejo inconsciente e as exigências proibidoras
da censura. Todas essas formações tem
em comum a exigência, para serem compreendidas,
de uma interpretação, quer dizer, o desencadeamento
do sentido latente escondido atrás do conteúdo
manifesto.
As principais formas de compromissos,
expressão do retorno do recalque, vão
ser:
a) A psicopatologia da vida
quotidiana. - Reagruparemos sob essa designação,
que retoma o título do livro de Freud, o conjunto
das manifestações relevantes de nosso
compromisso verbal ou motor, banais aos olhos do profano,
ornando a vida de cada um e que tem em comum serem involuntárias:
lapsos, atos falhos, esquecimentos... Esse caráter
involuntário, e mesmo freqüentemente o oposto
do que queria conscientemente dizer ou fazer, explica
que recusamos em geral Ihes dar importância. É
preciso ver nessa recusa um efeito do recalque que se
limita em fechar cada vez mais rápido a porta
involuntariamente entreaberta. É com efeito esse
caráter totalmente involuntário e estranho
a todo desejo consciente que lhe confere seu valor de
retorno do recalque. Todas essas manifestações
são bem conhecidas e foram, entre os dados da
psicanálise, as mais vulgarizadas.
Podemos reaproximar a palavra
do espírito que implica uma participação
da consciência maior, a proibição
estando voltada para o meio do humor, que permite um
distanciamento do afeto; é assim com o devaneio
livre e com as fantasias formadas por meio da associação
livre, quer dizer, surpreendendo ao máximo a
vigilância da censura.
b) A transferência, que,
como vimos, designa em psicanálise o processo
pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre
alguns objetos no quadro da relação analítica.
Trata-se de uma repetição de protótipos
infantis vivida com um sentimento de atualidade marcado,
quer dizer, desconhecendo seu valor de repetição
(Laplanche e Pontalis - Vocabulaire de la psychanalyse
- P.U.F.).
c) 0 sonho. - "Via real
na direção do inconsciente." Não
há falta de sentido, como o desejaria o senso
comum e a lógica, mas o enfraquecimento do sentido
que pede que pesquisemos o sentido latente escondido
atrás do conteúdo manifesto. O sonho evoca
então uma interpretação, e é
mesmo durante a descoberta do papel do sonho que Freud
mostrou a importância da função
interpretativa que devia ser a base da técnica
analítica. O sonho obedece com efeito ao princípio
do prazer e tem como função proteger o
sono do indivíduo. Ele aparece quando o sono
corre o risco de ser perturbado por uma excitação
pulsional nascente e ele tem por objetivo causar uma
satisfação alucinatória à
pulsão. O sonho sempre exprime então um
desejo. Mas, mesmo que seja a queda da vigilância,
acompanhando o sono, que facilita a emergência
desse desejo, a consciência nunca é abolida
completamente e não permite uma expressão
direta do desejo: este último deve sofrer deformações,
tornando-se compatível com as exigências
mínimas do Superego que permanecem. Se isso não
acontece, parece que a angústia desperta o dorminhoco,
o sonho transformando-se em pesadelo.
Um processo característico
do sonho é a necessidade de figuração
à qual estão submetidas os pensamentos
do sonho: estes sofrem, com efeito, uma seleção
e uma transformação que lhes tornam capazes
diretamente de serem representados em imagens, sobretudo
visuais, a maneira de uma adivinhação.
Mas a interpretação
psicanalítica dos sonhos não é
uma "chave dos sonhos". Mesmo se existem expressões
simbólicas preferenciais, comuns a uma dada cultura,
que serão mais freqüentemente escolhidas
para figurar um ou outro tipo de desejo, elas só
tomarão seu sentido no quadro estrito da história
pessoal de cada um e, em particular, na cura, ligadas
ao desejo que une o sonhador aquele a quem ele vai contar
seu sonho.
Os estudos neurofisiológicos
destes últimos decênios trouxeram uma massa
de descobertas sobre os mecanismos do sonho e do sono.
O sonho parece sobrevir a fase paradoxal do sono. Ela
é chamada assim porque corresponde a fase em
que o sono é mais profundo, enquanto a atividade
cerebral registrada no eletroencefalograma esta próxima
da atividade ao despertar. Além disso, esta fase
é acompanhada de movimentos oculares rápidos,
como se a pessoa que dorme seguisse uma cena com os
olhos, enquanto a via motriz piramidal do movimento
voluntário é inibida com paralisia motora
total. Se despertarmos a pessoa durante essa fase ela
é capaz, na maioria dos casos, de contar um sonho,
contrariamente às outras fases do sono (adormecimento,
sono leve, sono profundo lento).
Os estudos experimentais mostraram
que a privação eletiva de fases paradoxais,
respeitando as outras fases do sono, provocava perturbações
importantes durante o despertar: comportamento alucinatório
no animal, perturbações da personalidade,
mudanças de caráter e queda da eficiência
no homem. Além disso, constatamos que a fase
paradoxal era necessária para a boa qualidade
e a rapidez das aprendizagens no animal. Atualmente
muitos autores também pensam que o sonho desempenharia
um papel na confrontação das experiências
do dia-a-dia com os modelos de comportamento arcaicos
e inatos, constituindo de qualquer modo uma reprogramação
no vazio e sem perigo por causa da paralisia motora
temporária. A maior freqüência das
fases paradoxais no rec6m-nascido e seu decréscimo
progressivo, ainda que na mulher grávida elas
voltem a crescer, defenderiam igualmente uma causa nesse
sentido.
Fato interessante, o terror
noturno na criança (pavor nocturnus) durante
o qual ela desperta gritando, arrebatada por um temor
que não pode controlar, como se continuasse a
viver uma cena da qual não poderia se libertar,
corresponderia a uma fase do sono profundo, e não
a fase paradoxal. Tudo se passa como se a tensão
interna excessivamente forte não pudesse esperar
a elaboração da fase paradoxal e do sonho
para se exprimir e se metabolizar, mas devesse se descarregar
brutalmente, gerando uma ruptura violenta do aparelho
psíquico e provocando o despertar. O sonho não
teria podido desempenhar seu papel protetor. É
a mãe, informada pelos gritos, que devera, através
de sua ação apaziguadora e tranqüilizadora,
fechar a fenda assim aberta e possibilitar que a criança
adormeça novamente. Se a criança não
chega a ser tranqüilizada, podemos ver, nas semanas
que se seguem, sua vida psíquica consciente invadida
pelo medo e os tragos deixados pelo pesadelo que vão
ter por efeito constranger seu funcionamento mental
e entravar seu desenvolvimento.
Os resultados dos métodos
de estudo psicanalítico e neurofisiológico
de uma mesma realidade - o sonho -, não saberiam
sem abuso ser assimilados uns pelos outros. Entretanto,
parece bem se desencadear um consenso sobre o importante
papel representado pelo sonho na vida psíquica:
- papel de controle e de elaboração
das tensões internas;
- papel de assimilação
das experiências novas e sua integração
as experiência e modelos de comportamentos antigos.
Nisso, vemos que o sonho é
inteiramente comparável a função
do aparelho psíquico e da vida mental em seu
conjunto. E realmente o que confirma a experiência
psicoterapêutica, que mostra que a capacidade
de sonhar e de exprimir seus sonhos segue o curso da
evolução da relação psicoterapêutica
e reflete a capacidade do Ego em se libertar dos conflitos,
em se abrir na relação e em utilizar as
possibilidades que oferece o acesso ao mundo fantasioso
e as suas modalidades.
Alguns autores (A. Branconnier)
compararam os efeitos nocivos sobre a criança
da ruptura de seu aparelho psíquico pelo terror
noturno, a alguns efeitos das drogas psicodélicas.
Tanto quanto o Ego ainda imaturo da criança pode
ser extravasado e não pode mais reprimir durante
a vida consciente os efeitos traumáticos da experiência
angustiante, o Ego frágil do drogado pode ser
submergido pelos efeitos desorganizadores da "bad
trip". Podemos então observar, nos meses
seguintes, o ressurgimento dos medos, das angústias
e das alucinações que acompanharam a ingestão
da droga e que progressivamente parasitam a vida consciente
do paciente, independente de toda nova ingestão
da droga.
d) A formação
do sintoma pode ser uma das modalidades do retorno do
recalque.
SIGNIFICAÇÃO
DO SINTOMA EM PSICOPATOLOGIA
Definiçao
Como em toda semiologia (ciência
dos signos) o sintoma, para tornar-se signo aos olhos
do observador, deve passar por uma interpretação.
E essa atividade interpretativa que tornara possível
ao sintoma adquirir sentido, lhe remetendo a uma realidade
inteligível constituída por um conjunto
de signos e seus elos de associação ou
de exclusão recíprocos.
A atividade semiológica se desenvolve então
em dois momentos: a observação dos sintomas
e sua ligação a uma realidade que poderíamos
dizer secundária na medida em que ela não
é manifesta imediatamente, e que é a da
semiologia. Há, de fato, interpenetração
entre os dois momentos, porque na medida em que conhecemos
a semiologia é que observamos sintomas, que sem
isso passariam despercebidos. Do mesmo modo que a presença
de alguns sintomas, o fato de sua associação
habitual a outros signos na semiologia conduzira o observador
a pesquisar ativamente outros sintomas, atualmente despercebidos,
mas que ele imagina encontrar.
Será do mesmo modo para
os sintomas psicopatológicos que, além
de sua manifestação aparente, necessitam
de sua ligação com um conjunto de condutas
comportamentais ou fantasiosas que lhe conferirão
seu sentido e sua carência no centro da personalidade.
Vimos que o sintoma era uma
das vias possíveis de retorno do recalque, expressão
mais ou menos dissimulada e deformada do inconsciente.
Como todas as manifestações exprimindo
um retorno do recalque, o sintoma representa com efeito
uma formação de compromisso entre a satisfação
do desejo inconsciente e as proibições
e conflitos que se opõem à sua expressão
livre. Assim como o sonho, o desejo só poderia
aí figurar dissimulando e tendo sofrido deformações
que o tornam mais ou menos irreconhecível.
O sintoma levará a marca
da cisão conflitual entre as forças contrárias
que esta na origem de seu nascimento. Ele refletirá,
nas suas modalidades de expressão, o peso das
forças inconscientes buscando se exprimir e atravessar
os obstáculos que ali se opõem. Encontraremos
em seu nível as características habituais
das manifestações do inconsciente:
- a irracionalidade,
- a repetição.
O
que definirá o sintoma psicopatológico
será então seu caráter forcado,
imposto ao eu, incoercível, repetitivo,
estereotipado, provocando um sofrimento mais ou
menos grande do paciente. Este se achara então
dividido entre uma pane dele que sofre e queria
se desembaraçar do sintoma e a outra parte
que se exprime através do sintoma. |
O
sintoma psicopatológico com efeito só
se desencadeia e se mantém considerando a satisfação
que ele proporciona ao paciente. Sua existência
se dá conforme o princípio de prazer e
tende a obter um benefício econômico por
uma diminuição da tensão. Este
beneficio é demonstrado pela resistência
do paciente a cura, que leva ao fracasso o desejo consciente
de curar-se. Trata-se do beneficio primário da
doença que testemunha:
- da satisfação
da pulsão inconsciente que permite o sintoma;
- da conservação
do elo com os primeiros objetos aos quais a pulsão
inconsciente estava primitivamente ligado. O sintoma
é a garantia e a testemunha do inconsciente,
em virtude de esses primeiros objetos permanecerem sempre
vivos e ele não os perder;
- do prazer causado pela descarga
tensional e pelo atenuamento do conflito autorizado
pelo sintoma.
A este benefício primário
se acrescenta um benefício secundário
ligado aos ganhos diversos que o indivíduo pode
extrair secundariamente da exploração
de sua doença.
Também o sintoma corre
o risco rapidamente de ser investido narcisicamente
pelo paciente, de fazer parte dele e de se tornar seu
modo de comunicação com o meio, substituto
daquele que crê não poder encontrar na
realidade exterior. Compreendemos, nessas condições,
que atingir brutalmente o sintoma pode provocar um afluxo
de angústia.
Se não agirmos suficientemente
rápido, o indivíduo se instala na doença
e "...o ego se comporta como se fosse guiado por
essa idéia de que o sintoma esta lá de
hoje em diante, e não saberia ser eliminado:
s6 deve funcionar sob esta circunstância e extrair
a maior vantagem possível." (FREUD, "Inhibition,
symptôme et angoisse").
O sintoma e, mais ainda, as
perturbações do comportamento e a patologia
do agir são com efeito uma forma de autoterapia
e uma modalidade de defesa e de proteção
de que o paciente se arma face ao que ele viveu como
uma agressão e um traumatismo transbordando as
capacidades habituais de organização de
seu aparelho psíquico. Eles se tornam sua "coisa",
sua criação, que lhe possibilitam ao mesmo
tempo se afinar e se diferenciar face à sua angústia
e sua expectativa com relação aos outros
e de manter um elo com as mágoas do passado que
criaram as condições de sua emergência.
Os sintomas que se impõem igualmente ao meio
social e o conduzem ao fracasso lhe dão uma possibilidade
de marcar sua diferença conservando elos de dependência
e de reivindicação com os objetos insatisfatórios
do passado. Abandona-los é freqüentemente
difícil porque é se encontrar desapossado,
se a angústia subjacente não se atenuou,
e é renunciar aos pedidos de observação
que dizem respeito ao passado.
Pelo
seu caráter de compromisso, o sintoma,
quaisquer que sejam as queixas do paciente, representa
então uma certa solução as
suas dificuldades, que geralmente o leva a um
impasse e o aliena, mas que evita a conscientização
de um conflito. |
Momentos
e condições de aparecimento do sintoma
As perturbações
psicopatológicas têm suas raízes
na formação da personalidade e, então,
na infância do paciente. Entretanto, mais freqüentemente,
elas só se manifestam francamente no momento
do final da adolescência ou um pouco além.
Por que essa ruptura?
Podemos compreendê-la
se admitirmos a necessidade em provocar uma perturbação
psicopatológica da conjunção de
uma história, de uma estrutura da personalidade
tal como ela se organizou e paralisou durante a história
e de fatores conjunturais vindos da realidade exterior.
A variação da importância respectiva
desses fatores é infinita. É certamente
com efeito que podemos ver todos os intermediários
entre as perturbações que aparecem desde
a primeira infância e aquelas que necessitam,
para se revelar, do surgimento de traumatismos internos
cada vez mais importantes. No limite, todo indivíduo
colocado em condições suficientemente
traumatizantes é capaz de manifestar sintomas
psicopatológicos, por exemplo, sob o efeito do
medo, da tortura, de drogas, de privações
sensoriais por isolamento prolongado... Na maior pane
dos casos serão algumas situações
privilegiadas, em conseqüência de suas significações
afetivas e simbólicas, o ponto do aparecimento
de perturbações:
- adolescência, em razão
da necessidade de assumir uma identidade sexuada e de
acabar o processo de individuação e de
separação do meio familiar;
- casamentos, ou o estabelecimento
de relações amorosas, paternidade ou maternidade;
- perda de pessoas amadas ou
de ideais, fracassos.
Saúde psíquica
e organização psicopatológica
Todos esses fatores de ruptura
do equilíbrio de um paciente vão levar
este último as organizações internas
para tentar constituir um novo equilíbrio utilizando,
em particular, os mecanismos de defesa que ele terá,
elaborado durante o seu desenvolvimento, aos quais virão
acrescentar-se os sintomas e as perturbações
das condutas. E a medida onde o novo sistema defensivo
se caracterizará por sua rigidez, seu caráter
repetitivo, sua estabilidade que poderemos caracterizar
como organização psicopatológica.
Ele se diferenciara do nível de organização
anterior por uma menor flexibilidade, pelo estreitamento
do campo de interesses, pela queda das capacidades de
aquisição e pelo retorno a essas posições
mais regressivas. O psicanalista e etnólogo Georges
Devereux qualifica assim de "diferenciação
por empobrecimento" o processo conduzindo às
organizações patológicas.
Por oposição
a esse caráter forçado, rígido,
repetitivo das condutas patológicas, a saúde
psíquica se caracteriza pelo seu dinamismo e
pela possibilidade de:
- trocas entre o indivíduo
e os outros, o mundo exterior em geral;
- trocas entre o real presente
do indivíduo e seu passado: possibilidade de
se lembrar;
- trocas entre os diferentes
componentes de seu aparelho psíquico: entre o
inconsciente e o consciente, o Ego e o Id, o Superego
e o Ego, utilização alternativa e provisória
de diferentes mecanismos de defesa.
Este bom funcionamento se refletirá
na capacidade de associação do paciente,
quer dizer, de estabelecer vínculos e, então,
de dar um sentido ao que ele vive em ligação
com o que ele é de fato.
|