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Neurotransmissores |
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Neurociência
para o clínico de saúde mental / Steven
R. Pliszka;
trad. Carlos Alberto Silveira - Porto alegre : Artmed,
2004 |
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Examinei,
anteriormente, a neuroanatomia do cérebro e os
mecanismos pelos quais os neurotransmissores químicos
transmitem as suas mensagens para o interior do neurônio.
O próximo passo é examinar alguns dos
principais sistemas neurotransmissores que se acredita
estarem envolvidos na gênese dos transtornos mentais.
Para casa um destes sistemas, devem ser respondidas
diversas questões:
1
– Onde sta localizado o sistema neurotransmissor
no cérebro? Qual é a sua origem (onde
os corpos celulares do neurônios encontram-se)
e para onde se projetam esses axônios? O lugar
no cérebro onde o neurotransmissor é liberado
é o campo terminal?
2
– A quantos tipos diferentes de receptores o neurotransmissor
liga-se? Esses receptores são ionotrópicos
(influenciando diretamente o fluxo de íons e
afetando a probabilidade de um potencial de ação)
ou metabotrópicos (utilizando segundos mensageiros
para influenciar a função de longo prazo
do neurônio) ?
3
– Quais são os efeitos comportamentais
da atividade do sistema neurotransmissor no cérebro?
Essa última questão é a mais complexa
para ser respondida e por meio dela, neste capítulo,
assento as bases para entender como a disfunção
nos sitemas neurotransmissores pode acarretar transtornos
mentais.
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Glutamato |
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O
glutamato é um aminoácido que não
chega ap cérebro a partir da corrente sanguínea.
O cérebro sintetiza-o a partir da glicose e de
outros nutriente. O glutamato é o principal neurotransmissor
excitatório no cérebro; mesmo quantidades
mínimas dele podem desencadear potenciais de
ação. A figura 4.1 mostra as suas rotas
no cérebro.
A rota apresentada (1) na figura é uma das mais
longas do cérebro. Os corpos celulares originam-se
no córtex e os axônios descem pela cápsula
interna ( a fenda entre o putame e o caudado). Os axônios
continuam a sua descida e, então, ramificam-se
para a ponte e para o núcleo rubro no tronco
cerebral. Ali, eles excitam os neurônios motores
que governam uma ampla variedade de músculos.
No tronco cerebral, esses axônios cruzam para
o outro lado do corpo (decussação), depois
prosseguem para a espinha dorsal. Em casa nível
da espinha dorsal, eles excitam neurônios motores
que fazem com que os músculos contraiam-se. Devido
à decussação, um AVC em um lado
do cérebro causará debilidade no lado
oposto do corpo. Essa rota (2) é igualmente importante
no controle do comportamento motor. Esses corpos celulares
também se originam no córtex e projetam-se
para o neoestriado (caudado e putame). A rota apresentada
(3) projeta-se do córtex pré-frontal para
o estriado ventral; sendo fundamental em nosso estudo
posterior do sistema límbico e dos comportamentos
relacionados aos estímulos recompensatórios.
Essa rota (4) mostra uma “alça motora”
excitatória entre o córtex e o tálamo.
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| Figura
4.1 As rotas do glutamato
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Esses
neurônios excitam-se uns aos outros, sendo que
esse circuito fica ativo enquanto uma atividade motora
contínua está sendo executada. Essa “alça”
deve ser interrompida para que a atividade pare e seja
iniciada uma nova ação. A informação
do hipocampo utiliza uma rota do glutamato; esses axônios
projetam-se através do fórnix para chegar
ao corpo mamilar (5). Essa rota é parte do circuito
Papez examinado no Capítulo 2.
Um grande número de neurônios de glutamato
têm corpos celulares na oliva inferior do tronco
cerebral (6), os quais projetam-se para o cerebelo.
Esses neurônios estão envolvidos na coordenação
motora. Finalmente, embora eles não sejam mostrados
na figura, os neurônios com axônios longos
trocam informações entre os hemisférios
(atravessando o corpo caloso) e entre os vários
lobos de casa hemisfério.
A figura 4.2 mostra um ampla variedade de receptores
aos quais o glutamato pode ligar-se. Com freqüência
os receptores são nomeados em função
dos elementos químicos qye se ligam a eles no
laboratório, mesmo quando essas substâncias
não são encontradas no cérebro.
Há três tipos de receptores de glutamato
ionatrópico: ácido a-amino-3hidróxi-5-
metilisoxazole-4-propriônico (AMPA), Cainato e
N-metil-D-aspartato (NMDA). Os dois primeiros são
muito semelhantes e serão discutidos como um
só. Como mostrado na figura, quando o glutamato
liga-se ao receptor AMPA/Cainato, ele abre um canal
de íons ativado por ligante, ocorrendo a troca
de Na+ e K+ ; isso leva à abertura de canais
de Na+ ativados por voltagem e desencadeia o potencial
de ação. O receptor NMDA é o mais
interessante receptorionotrópico. O cálcio
flui através do canal, onde ativera uma série
de enzimas neuronais. Entretanto, diversas ações
devem acontecer antes que o canal abra e admita o cálcio.
Primeiro, o glutamato e o aminoácido glicina
devem ambos ligar-seaos sítios receptores, como
mostrado na figura. O mental zinco (Zn) pode reforçar
a abertura do canal, mas não é requerido.
Uma vez que o glutamato e a glicina abram o canal, o
cálcio ainda não pode entrar, pois quando
o neurônio está em repouso, um íon
de magnésio (Mg) bloqueia o mesmo. Só
quando o neurônio for despolarizado pela ação
de suficientes receptores AMPA/Cainato é que
o íon Mg “sai da rota” e ao cálcio
entra. Esse processo torna-se crítico na aprendizagem
e na memória, como veremos no Capítulo
6. Também de interesse para o estudo da esquizofrenia
e do abuso de drogas, a droga fenciclidina (PCP) bloqueia
a entrada do cálcio no neurônio. A PCP
é um alucinógeno poderoso; assim, o receptor
NMDA pode ter influência na patofisiologia da
psicose. |
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Figura
4.2 Os receptores de glutamato
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O glutamato também liga-se aos receptores que
são de natureza metabotrópica. Os receptores
metabotrópicos de glutamato classe I utilizam
uma priteína G que ativa a PLC, separando o PIP2
em DAG e IP3 . Finalmente, os receptores metabotrópicos
inibem a adenilil ciclase (AC), a qual leva à
diminuição na quantidade de AMPc. Os receptores
metabotrópicos ativam enzimas que fosforilam
os canais de cálcio ativados por voltagem no
neurônio, desativando-os. Lembre-se de que esses
canais causam a liberação de neurotransmissores
e, assim, os receptores matabotrópicos realizam
o oposto dos AMPA/Cainato, ou seja, diminuem a excitabilidade.
Por que isso ocorre? Talvez esse seja um mecanismo pelo
qual o neurônio evite ser superestimulado. Os
receptores metabotrópicos também são
encontrados pré-sinapticamente, onde também
diminuem a liberação de glutamato e, desse
modo, regulam a excitabilidade.
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Ácido
Gama (g) – Aminobutírico |
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O
ácido gama (g) – aminobutírico (GABA)
é sintetizado do glutamato no cérebro.
É o principal neurotransmissor inibidor no sistema
nervoso central. As suas rotas são mostradas
na Figura 4.3. Observe o grande número de pequenos
neurônios espalhados no córtex (1).
Esse pequenos interneurônios inibem o disparo
dos seus neurônios-alvo, mantendo manejável
o nível geral de excitabilidade neuronal. As
rotas longas do GABA são complexas. Uma rota
(2) origina-se no neoestriado e termina no globo pálido
interno (Gpi). Esse axônios fazem sinapses em
outros corpos celulares GABA no Gpi, os quais, por sua
vez, projetam-se para o tálamo (3). |
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| Figura
4.3 As rotas do GABA
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Outro
conjunto de neurônios GABA deixa o neoestriado
(4) e projeta-se para o globo pálido externo
(Gpe). Novamente eles fazem sinapses em neurônios
GABA no Gpe; esses neurônios (5) projetam-se para
o núcleo subtalâmico (STN). Uma rota GABA
(6) começa no neoestriado e termina na substância
negra reticulada (SNr). Da SNr, as rotas do GABA (7)
distribuem-se para três localizações:
o tálamo, o colículo superior e o núcleo
pedunculopontino (NPP). Partes do tálamo, com
vimos com as rotas do glutamato, compõem o circuito
motor. Os colículos superiores são importantes
para os movimentos oculares. O PPN ajuda a controlar
os músculos do tronco. A SNr é “tonicamente
ativa”, liberando GABA para essas estruturas,
inibindo as seus neurônios. Se os circuitos motores
do tálamo, os colículos e o NPP são
desligados, não há movimento. Quando é
desejado um novo movimento ,o córtex e o neoestriado
trabalham juntos para bloquear a SNr, assim possibilitando
o movimento.
O GABA tem dois receptores, o GABAA liga-se encontra-se
entre as subunidades a e b. Também é parte
da subunidade a o sítio benzodiazepina, ao qual
se ligam as drogas como o diazepam (Valium). Quando
uma droga antiansiedade como um benzodiazepínico
liga-se a esse sítio, o GABA é mais potente
para abrir o canal. Os benzodiazepínicos também
são anticonvulsivos potentes. Se os neurônios
estão fazendo disparos inadequadamente durante
um ataque, eles reforçarão o efeito inibidor
do GABAm encerrando o ataque. Dentro do canal há
um sítio ao qual se ligam as drogas barbitúricas
como o fenobarbital, também aumentando os efeitos
anticonvulsivos. Há múltiplos subtipos
dessas unidades. A unidade a tem seis subtipos; a b
, quatro; e a g, três. Os receptores GABA em diferentes
partes do cérebro tem subunidades a, b e g que
variam, essas transmitem diferentes sensibilidades aos
benzodiazepínicos.
Os receptores GABAB são metabotrópicos
e inibem a ademilil ciclase. Como mostrado na Figura
3.9, no capítulo 3, isso levaria a reduções
no AMPc e, com menos fosforilação dos
canais de potássio (causada pelo menor atividade
do PKA), haveria um fluxo vazante maior de k+. Isso
também iria hiperpolarizar o neurônio e
diminuir o ritmo de disparos, embora em uma escola de
tempo mais longa. Os receptores GABAB encontra-se tanto
pré-sinaptica como pós-sinapticamente.
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Figura
4.4 O receptor GABAa
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Acetilcolina |
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A
acetilcolina (Ach) é o neurotransmissor utilizado
pelos neurônios que inervam os músculos.
A estimulação dos receptores Ach nos músculos
resulta na sua contração. A Ach e a norepinefrina
São os principais neurotransmissores do sistema
nervoso simpático, o qual é examinado
na final deste capítulo.
No interior do cérebro, o papel da Ach
é menos claro, embora ela provavelmente desempenhe
funções essenciais na aprendizagem e na
vigília. As drogas que bloqueiam a Ach podem
produzir déficits de cognição,
em doses tóxicas, produzem sintomas psicóticos.
Esses efeitos podem ser encontrados em alguns psicotrópicos,
como os antidepressivos tricíclicos, bem como
em uma série de drogas não-psiquiátricas.
Os neurônios centrais da acetilcolina deterioram-se
na doença de Alzheimer, embora tratar a demência
com agonistas Ach tenha apresentado resultados variados.
As diversas rotas da acetilcolina são mostradas
na Figura na figura 4.5. A primeira rota principal (1)
origina-se na área tegmentar dorsal e projeta-se
para o tálamo. Essa rota é parte do “sistema
de ativação reticular”, a gama de
estímulos do tronco cerebral para o tálamo
e o córtex que comandam o nível de excitação
e vigília. A segunda rota da acetilcolina começa
no núcleo septal (2) e envia as seus axônios
através do fórnix para chegar aohipocampo
(a). No capítulo 2, foi discutido o papel do
hipocampo na memória e retorno a esse questão
com profundidade no Capítulo 6. Esses estímulos
de acetilcolina do núcleo spetal são críticos
na regulação do ritmo dos disparos do
hipocampo.
Isso pode se parte da razão porque a deterioração
dos corpos celulares da Ach prejudica a memória
em pacientes com Alzheimer. Ventral ao núcleo
septal, há um grupo de neurônios Ach que
juntos, são chamados complexo frontocerebral
Ach (3). Esses são o membro vertical da banda
diagonal de Broca (b), o membro horizontal da banda
diagonal de Broca (c) e o núcleon basal de Meynert
(d). Esses neurônios enviam os seus pelo córtex
e também para o corpo amigdalóide. Os
neurônios Ach projetam-se para o nervo vestibulococlear,
importante no equilíbrio (5). Essa é a
razão pela qual as drogas anticolinérgicas
como a dramamine * são úteis em doenças
motoras. Finalmente, há uma pequena quantidade
de interneurônios Ach em todo o neoestriado; eles
são importantes para atenuar os efeitos parkinsonianos
dos medicamentos antipsicóticos mais antigos.
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| Figura
4.5 As rotas da acetilcolina
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Quando
a acetilcolina é liberada dos seus neurônios,
ela pode ligar-se a um de dois tipos principais de receptores
– o nicotínico e o muscarínico.
Os receptores nicotínico são ionotrópicos.
Como com os receptores de glutamato AMPA/Cainato, quando
a acetilcolina liga-se a eles, é aberto um canal
de íons que, finalmente, leva a um potencial
de ação. Os receptores nicotínicos
são encontrados nos músculos e podem também
ativar potenciais de ação no cérebro.
No cérebro e no sistema nervoso autônomo,
ela também liga-se aos receptores muscarínicos
que são metabotrópicos. Proteínas
G que levam a uma diversidade de ações
são ativadas. No cérebro, a Ach pode regular
o período refratário do neurônio
por meio da ativação de adenilil ciclase
e a da fosforilação de canais K. Os neurônios
tornam-se mais responsivos aos estímulos; talvez
isso responda pelo aumento do estado de alerta observado
em um animal quando o sistema Ach está ativo.
Para entender a ação desse neurotransmissor
no corpo, é necessário rever as funções
do sistema nervoso autônomo, como mostrado na
Figura 4.6.
O sistema nervoso autônomo governa grande parte
das funções básicas do corpo: batimentos
cardíacos, ritmo e volume da respiração,
digestão e funçãosexual, entre
outras. Ele é subdividido nos sistemas parassimpático
e simpático. O primeiro diminui o ritmo cardíaco,
fortalece a digestão e a defecação
e, com a excitação sexual, causa ereção
do pênis. Ele ajuda a satisfazer as necessidades
físicas do corpo. Em contraste, o sistema nervoso
simpático aumenta o ritmo cardíaco, retira
o sangue da periferia do corpo, levando-o para os músculos,
e inibe a digestão. Parte da resposta simpática
envolve a liberação de epinefreina (adrenalina)
na corrente sangüínea, proporcionando a
reação de “luta ou fuga”.
A ativação simpática leva a uma
alta excitação e à vivência
de agitação, fúria e/ou ansiedade.
A parte superior da figura 4.6 mostra o sistema nervoso
parassimpático. Ele é uma cadeia de dois
neurônios. Os neurônios no núcleo
motor dorsal do tronco cerebral enviam axônios
para o nervo vago, o qual viaja, em diferentes ramificações,
para o coração, os pulmões e as
vísceras. Esses são denominados neurônios
“pré-ganclionares”, os quais liberam
acetilcolina nos neurônios parassimpáticos
“pós-ganglionares” menores. A Ach
liga-se aos receptores muscarínicos nesses neurônios,
fazendo com que voltem a liberar Ach nos receptores
muscarínicos no coração, nos pulmões
e nas vísceras e contraem-se os brônquios.
Também há neurônios parassimpáticos
pré-ganglionares na área sacral (mais
baixa) da espinha dorsal que projetam-se para a bexiga,
o reto e os órgãos sexuais. Essas conexões
não são mostradas no diagrama.
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| Figura
4.6 Visão geral dos sistemas nervosos simpático
e parassimpático
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A
base da Figura 4.6 mostra o sistema nervoso simpático
(SNS). Os nervos pré-ganglionares têm sua
origem na parte média da espinha dorsal, em uma
coluna de células que vai de pouco abaixo do
pescoço até acima do sacro. Essa é
a coluna de células intermédio lateral
(IML); daí os axônios projetam uma linha
de gânglios ao longo do exterior da espinha dorsal,
onde liberam Ach no segundo neurônio na conexão
simpática. Os neurônios pós-ganglionares
liberam o neurotransmissor norepinefrina (NE) nos músculos
do coração e vasos sangüíneos. |
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Norepinefrina |
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A
primeira coisa a ter em mente a respeito da norepinefrina
(NE) é que ela é encontrada perifericamente
tanto no SNS como no cérebro. A figura 4.7 (topo)
mostra as projeções complexas do sistema
NE central. |
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| Figura
4.7 As rotas da norepinefrina
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Os
corpos celulares da maioria dos neurônios NE no
cérebro são encontrados no locus ceruleus
(LC) do tronco cerebral. Daí, os axônios
dos neurônios NE projetam-se para muitas áreas
diferentes cérebro. Alguns viajam pela medula
espinhal, onde fazem sinapses nos neurônios que
recebem informação sensorial da pele e
dos órgãos internos. Os neurônios
LC não se comunicam diretamente com a IML. Os
neurônios NE projetam-se para a ponte e o cerebelo,
mas as suas projeções mais importantes
são para o córtex, e essas são
muito disseminadas. Na Fi4.7, o tamanho e o escurecimento
dos círculos representam as densidades das projeções
corticais NE. Os neurônios NE são mais
densos no córtex somatossensorial primário,
mas os neurônios LC inervam intensamente os lobos
frontais. Os neurônios LC também projetam-se
para o córtex temporal, embora isso não
seja mostrado na figura. Os neurônios LC rami-se
para entrar no fórnix e na estria terminal que
leva ao hipocampo e ao corpo amigdalóide, respectivamente.
Essas estruturas também recebem input de NE por
meio de ramificações menores e diretas
como mostrado na ilustração. Finalmente,
os neurônios NE do LC projetam-se para a rafe
dorsal, onde se encontram os corpos celulares da serotonina.
Assim, a NE influencia no output do sistema da serotonina.
O LC não é a única fonte de NE
no cérebro. Um segundo conjunto de neurônios
contendo NE encontra-se pouco abaixo (caudalmente) do
LC. Esses projetam-se para a medula espinal, onde fazem
sinapse na IML, influenciando o SNS diretamente. Eles
também são projetados para o hipotálamo,
onde ajudam a regular uma ampla variedade de hormônios.
Essa estrutura é mostrada na parte inferior da
Figura 4.7.
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Tabela
4.1 Receptores de norepinefria e as suas ações
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A
norepinefrina tem uma diversidade de receptores aos
quais pode ligar-se; amplamente divididos entre as categorias
a e b, podem ser analisados ulteriormente em subtipos,
como exemplificado na Tabela 4.1, que mostra os seus
diferentes sistemas de segundos mensageiros. Nenhum
dos reczeptores NE é ionotrópico; todos
são metabotrópicos. Os receptores a1 e
b só são encontrados no neurônio
póssináptico, enquanto os receptores a2
são encontrados tanto pré como pós-sinapticamente.
Pré-sinapticamente, quando estimulados pela NE,
os receptores a2 reduzem as liberações
de NE e o disparo do LC. A Figura 4.8 mostra receptores
NE tanto no cérebro como na periferia.
Qual é o papel dessa distribuição
ampla dos neurônios NE? Barry Jacobs resumiu estudos
sobre o funcionamento do LC em gatos. Nestes experimentos,
foi inserido (com anestesia) um eletrodo no tronco cerebral
para registrar o disparo dos neurônios LC. O animal
acorda e comportase normalmente (como o tecido do cérebro
não sente dor, o procedimento pouco incomoda
o gato). Durante o sono, o LC fica, em geral, desligado.
Quando o animal está acordado, o LC dispara em
um ritmo muito lento; mas, se um estímulo novo
aparece no ambiente, ele dispara uma torrente de potenciais
de ação. Se os estímulos são
repetidos e não têm significado para o
sujeito, o LC pára de disparar depois de diversas
repetições dos mesmos. Quando ele está
fazendo a higiene ou comendo, o LC também diminui
o ritmo dos seus disparos. Se aparece um predador o
LC faz disparos vigorosos e aumenta a norepinefrina
no plasma. Não é necessário que
seja uma ameaça real, mas qualquer sinal que
faça parte de uma situação conhecida
que desencadeie o LC - o estímulo sinaliza que
alguma coisa está prestes a acontecer com base
na experiência passada.
Marius Usher, Gary Aston-Jones e colaboradores apresentaram
um modelo do funcionamento do LC com base na atividade
desses neurônios LC nos primatas em vigília,
aplicando uma tecnologia semelhante à utilizada
nos estudos com os gatos descritos há pouco.
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Figura
4.8 Comparando os receptores de norepinefrina e periféricos
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Os
macacos aprenderam a apertar uma tecla quando aparecia
um alvo e eram recompensados com um gole de suco. Na
tela, também apareciam não-alvos e o macaco
tinha que aprender a não apertar a tecla. (Essa
tarefa é semelhante ao teste de desempenho contínuo,
uma medida na qual os indivíduos com TDAH saem-se
mal com freqüência.) Eles pensam que, conforme
os macacos aprendiam a tarefa, o LC fazia disparos em
resposta ao alvo, mas parava de disparar quando os elementos
de distração apareciam, também
respondia quando a recompensa aparecia. Essa rápida
rajada do LC em responder ao estímulo é
referida como "atividade fásica". Usher
e colaboradores também mediram a atividade do
LC entre as aparições dos estímulos.
Eles descobriram que a sua atividade básica é
variável. O melhor desempenho dos macacos era
obtido quando a atividade de base do LC era baixa e
rajadas fásicas eram associadas com os alvos.
Em contraste, se ela era alta, os macacos faziam muito
mais alarmes falsos. Usher e Aston-Jones sugeriram que
a atividade do LC mostrava uma relação
em forma de U com a atenção. Em níveis
muito mais baixos de atividade tônica do LC, o
animal está sedado, desatento e não responde
ao ambiente. Em níveis moderados de atividade
NE, o animal está alerta e o LC responde vividamente
a estímulos ambientais novos ou significativos.
Em níveis altos de atividade do LC, o animal
torna-se muito excitado e responde a eventos múltiplos
(e talvez irrelevantes) no ambiente.
O que a norepinefrina faz para os seus neurônios-alvo?
Mostrei no Capítulo 3 que ela pode melhorar a
razão entre sinal e ruído para os neurônios.
Ou seja, a atividade básica do neurônio
alvejado declina e ele torna-se mais responsivo ao estímulo.
Logo, parte da atividade NE pode ajudar a "sintonizar"
os neurônios para auxiliá-los a processar
e priorizar a entrada de informação sobre
o estado atual do mundo. Entretanto, a história
não termina por aí. As projeções
do LC para corpo amigdalóide e o hipocampo desempenham
provavelmente um papel principal na modulação
do medo e da ansiedade e na memória (Capítulos
5 e 6). O input NE para o córtex influencia na
memória de trabalho e na função
executiva (Capítulo 7).
Para compreender plenamente como o sistema NE está
envolvido na reação do cérebro
aos estímulos no ambiente, devemos entender como
o sistema central NE e o SNS trabalham juntos, muito
embora não existam ligações anatômicas
diretas entre eles. A Figura 4.9 mostra esse relacionamento.
A informação sobre estímulos externos
no ambiente chega ao cérebro por meio da visão,
da audição e do tato (função
somatossensorial). Essa informação é
integrada no córtex para formar a nossa percepção
do mundo. Quando os estímulos são enviados
para o córtex, o tronco cerebral também
é alertado; os neurônios no paragigantocelular
(PGi) são ativados (1). O PGi tem projeções
tanto para o LC (2) como para a medula espinal, onde
ativa o IML (3) e o SNS. O LC projeta-se pelo córtex,
como vimos na Figura 4.7. Como descrito anteriormente,
os estímulos poderiam ser associados com alguma
experiência. Por exemplo, um animal poderia reconhecer
um predador e ele estaria pronto, porque o SNS já
foi ativado pelo PGi. Por outro lado, o estímulo
poderia não ter significado, assim o IML deveria
ser desligado. Como isso aconteceria?
Observe a posição do hipotálamo
neste circuito. Ele está recebendo informação
do córtex pré-frontal e do giro cingulado
(4). O primeiro pode estar respondendo ao estímulo
à luz de planos de longo prazo, em oposição
às necessidades imediatas. Junto com o corpo
amigdalóide e o hipocampo, o segundo acessa memórias
antigas sobre o estímulo, assim como a relevância
desse para as necessidades biológicas correntes.
O hipotálamo também está recebendo
informação do núcleo do trato solitário
(NTS). O NTS está em contato com o estado biológico
do corpo (equilíbrio dos fluidos, nível
de glicose, etc.). Toda essa informação
é processada no hipotálamo (5), o qual
pode enviar dois outputs principais que governam a resposta
de estresse. Primeiro, ele libera o fator liberador
de corticotropina (CRF) para a hipófise e essa
responde com a liberação do hormônio
adrenocorticotrópico (ACTH) (6). O ACTH viaja
pela corrente sangüínea para a medula adrenal,
onde faz com que ela secrete cortisol. O hipotálamo
também é projetado para o IML (7), onde
o SNS pode ser ativado de forma direta. A EPI (adrenalina)
é liberada na corrente sangüínea,
podendo dar início à reação
de luta ou fuga.
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Figura
4.9 O sistema da norepinefrina e a resposta ao estresse
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Nos
transtornos de ansiedade, esse circuito pode ser disparado
com muita facilidade. Injetado artificialmente, o CRF
é um poderoso agente ansiogênico e as drogas
que bloqueiam os seus efeitos podem ser bons agentes
ansiolíticos. Darlene Francis, Michael Meany
e um grupo de pesquisadores na McGill University estudaram
o sistema NE em fêmeas de camundongos no período
pós-parto. Durante as primeiras semanas de vida,
elas cuidam e lambem os filhotes; se isso não
acontece (isto é, há negligência
maternal), as crias desenvolvem um sistema CRF - ACTH
hiper-responsivo. Os filhotes "abandonados"
também produzem uma ativação maior
do SNS em resposta ao estresse. Esse tema será
retomado no Capítulo 11. |
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Sistema
Dopamina |
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Os
corpos celulares da dopamina estão localizados
principalmente em dois agrupamentos mostrados na Figura
4.10. O primeiro é a substância negra compacta
(SNc). Os axônios desses neurônios são
direcionados para o estriado (1); essa rota é
denominada "rota nigroestriatal". A doença
de Parkinson está relacionada a uma deterioração
dos neurônios da SNc. No Capítulo 5, veremos
como a perda do estímulo de dopamina para o neoestriado
pode levar aos sintomas de Parkinson: rigidez muscular
e lentidão de movimentos (bradicinesia). O segundo
maior agrupamento é a área tegmentar ventral
(ATV). Os axônios desses neurônios viajam
para a frente através do feixe frontocerebral
mediano e depois se espalham para inervar duas regiões:
o córtex pré-frontal e o estriado ventral
(2). Essas duas são as rotas mesolímbica
e mesocortical dopaminérgicas, respectivamente.
Muitos manuais de farmacologia apresentam cérebros
de camudongos nos quais a dopamina é direcionada
apenas para o córtex pré-frontal. Nos
primatas (incluindo os humanos), as projeções
de dopamina são muito mais distribuídas.
Como mostrado na Figura 4.10, as projeções
mais densas de dopamina são para o córtex
motor primário, embora as outras áreas
frontais também sejam fortemente inervadas. Praticamente
nenhuma dopamina é encontrada no córtex
somatossensorial primário (onde a NE tinha densidade
máxima) e muito pouca é encontrada no
córtex occipital.
Encontramos projeções substanciais de
dopamina para os lobos parietal e temporal. A DA e a
NE também inervam níveis diferentes do
córtex. Os neurônios NE projetam-se para
camadas mais profundas do córtex, os DA, para
áreas mais superficiais do cérebro.
As projeções da ATV para o estriado central
são de particular interesse para o estudo do
abuso e da dependência de drogas. Essa rota tem
algumas propriedades interessantes nos animais. Como
vimos nos estudos do LC, um eletrodo muito fino pode
ser inserido no cérebro de um camundongo de modo
que a sua extremidade seja colocada na ATV
Quando o animal recupera-se da cirurgia, circula pela
gaiola. O eletrodo está conectado a uma alavanca;
quando ele a pressiona, o eletrodo estimula o caminho
da ATV-estriado ventral. Isso faz com que sejam disparados
potenciais de ação nos axônios e
seja liberada dopamina no nucleus acumbens (um subconjunto
de neurônios no estriado ventral). Os ratos acham
isso recompensador e continuarão a pressionar
a barra para receber estimulação.
Outro tipo de experimento pode ser feito com ratos.
Um tubo muito fino de vidro é inserido diretamente
no nucleus acumbens. Então, esses animais pressionam
alavancas que liberam cocaína diretamente no
acumbens, a qual bloqueia a recaptação
de dopamina, aumentando a quantidade da mesma nessa
estrutura. Assim, a rota ATV-acumbens é um aspecto
importante do circuito de recompensas do cérebro.
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Figura
4.10 As rotas da dopamina
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Entender
essa função pode levar a pistas sobre
por que alguns indivíduos têm mais tendência
ao abuso e à adição de drogas.
A menor rota de dopamina é a túbero-infundibular
(3). Os axônios destes neurônios liberam
dopamina na hipófise, onde ela inibe a liberação
do hormônio prolactina. Nas fêmeas, a prolactina
promove o desenvolvimento dos seios; nos machos, o seu
papel não é claro. As drogas antipsicóticas
mais antigas bloqueiam os receptores de dopamina na
hipófise, levando a um aumento da prolactina.
As vezes, nas mulheres tratadas com essa droga, isso
pode levar à produção indesejada
de leite (galactorréia) em um pequeno número
de pacientes. Finalmente, há uma pequena rota
de dopamina da ATV para o vermis cerebelar O vermis
é uma estrutura mediolinear importante no cerebelo
na coordenação entre os movimentos e as
emoções. Mais tarde examinaremos essa
estrutura, pois é uma das muitas cujo envolvimento
no TDAH é sugerido.
Há cinco subtipos de receptores de dopamina,
como mostrado na Tabela 4.2, divididos em duas famílias.
A "família D1" consiste dos receptores
D1 e D5. Ambos estão ligados a proteínas
G que estimulam a adenilil ciclase. Em contraste, os
receptores D2, D3 e D4 estão ligados a proteínas
que inibem a adenilil ciclase e que são referidas
como a "família D2". Os receptores
de dopamina têm distribuições muito
variadas no cérebro. O D1 e a D2 acham-se no
neoestriado predominantemente, enquanto os receptores
D3 são encontrados no nucleus acumbens, onde
influem de modo significativo no circuito do prazer
descrito anteriormente. Os receptores D3 são
os mais sensíveis, requerendo menos dopamina
para serem disparados do que os outros. Os receptores
D1 e D4 acham-se no córtex e o D5 no hipotálamo
e no hipocampo.
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Tabela
4.2 Receptores de dopamina
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O papel da dopamina no cérebro parece estar relacionado
ao comportamento motor e à ação.
Se a dopamina é esgotada da SNc, perdemos a capacidade
de iniciar movimentos. Nos macacos, os neurônios
de dopamina na SNc disparam pouco antes daqueles no
lobo frontal, quando quer que esteja para ser executado
um movimento motor conhecido. Se os receptores dopamina
no córtex central dos macacos estão bloqueados,
a capacidade deles para planejar movimentos motores
e manter em mente a localização de um
objeto é perturbada.
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Serotonina |
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A Figura 4.11 mostra as diversas rotas da serotonina
(5-hidroxi-triptamina ou 5-HT). A serotonina como um
neurotransmissor apareceu muito cedo na evolução.
Ela é encontrada no sistema nervoso da lesma
marinha (Aplysia), desempenhando um papel na memória
do animal: ela facilita a retração das
guelras da criatura em resposta a um evento que tenha
sido associado anteriormente a um estímulo nocivo.
Os neurônios de serotonina influenciam a capacidade
da sanguessuga de nadar e colarse a um corpo morno.
Forneço esses exemplos para ilustrar o fato de
que a serotonina deve desempenhar algum papel crucial
no sistema nervoso, pois apareceu cedo na evolução
e foi conservada nos animais superiores, incluindo os
humanos. A serotonina está distribuída
amplamente no tronco cerebral. Aqui, estou preocupado
com os três maiores núcleos denominados
"rafe". As rafe dorsal (a) e medial (b) projetam-se
para uma ampla variedade de áreas do cérebro.
A dorsal (linha pontilhada) procede pelo feixe frontocerebral
mediano, mas antes de fazê-lo inerva os neurônios
que contêm dopamina do SNc e a ATV influenciando,
assim, a descarga do sistema dopamina. Ela se dirige
para o estriado (tanto o caudado-putame como o estriado
ventral) e todo o córtex. Então, projeções
separadas procedem pela estria terminal e pelo fórnix
para chegar ao corpo amigdalóide e ao hipocampo,
respectivamente. A rafe mediana também projeta-se
para o córtex, assim como para o colículo
superior e para o cerebelo. Há entradas de serotonina
no hipotálamo, em especial para um subconjunto
dessa área, o núcleo supraquiasmático.
Esse núcleo é fundamental na regulação
do ritmo circadiano, como o ciclo de sono-vigília.
A
rafe magnus/pálido (c ) projeta-se para baixo
(caudalmente) para a medula espinal, onde modula a entrada
sensorial. Ela desempenha um papel como "portal"
para estímulos dolorosos, logo, com freqüência,
as drogas que afetam a serotonina influem no manejo
da dor.
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Figura
4.11 As rotas da serotonina
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Esses
neurônios da serotonina também fazem
sinapses com neurônios motores, assim ela claramente
desempenha um papel no movimento, particularmente
em estabelecer a força dos reflexos. Finalmente,
esses neurônios da serotonina também
fazem sinapses no IML, desempenhando um papel na saída
do SNS.
Existe
uma gama estonteante de subtipos de receptores de
serotonina, como mostrado na Tabela 4.3. Um grupo
de cientistas, conhecido informalmente como o "clube
da serotonina", reúne-se e discute todas
as maneiras diferentes como os 14 subtipos conhecidos
deveriam ser rotulados. Todos os recetores 5-HT1 inibem
a adenilil ciclase, enquanto todos os receptores 5-HT2
aumentam o IP3 e o DAG por meio da fosfolipase C.
O receptor 5HT3 é o único receptor ionotrópico;
todos os outros são metabotrópicos.
Todos os subtipos de receptores estão amplamente
distribuídos no cérebro.
A
função do sistema de serotonina é
tão complexa quanto a sua distribuição.
Nos humanos, ela tem sido associada à depressão,
ansiedade, comportamento agressivo, obesidade e outros
dístúrbios da alimentação,
migrânea, disfunção sexual e dor
crônica. Com freqüência as drogas
que afetam a serotonina são úteis em
todas essas condições.
Obviamente esse sistema influencia uma ampla variedade
de funções cerebrais e corporais. Uma
pista para a função da serotonina é
a sua relação e as suas diferenças
com os sistemas NE e dopamina. Os neurônios
LC influenciam na modulação da atenção
e na memória de trabalho. O sistema da dopamina
tem uma das suas funções fundamentais
na modulação do comportamento motor
O sistema da serotonina está situado entre
esses dois outros. A NE projeta-se para a rafe, onde
ativa o sistema da serotonina por meio dos receptores
póssinápticos a1. Por sua vez, a serotonina
dirige-se para a ATV e a SN, onde influencia fortemente
a liberação de dopamina para o cérebro.
A NE reforça o efeito da entrada sensorial
no cérebro, mas quando a serotonina é
liberada para os neurônios corticais, eles tornam-se
menos responsivos ao input. Desse modo, a serotonina
desempenha um papel em decidir quando já se
gastou tempo suficiente processando a informação
e se necessita "tirar as mãos" sobre
os sistemas motores. Por outro lado, a dopamina pode
facilitar a ação.
Os neurônios serotoninérgicos projetam-se
não apenas para os corpos celulares da ATV
e da SN, mas para as terminações dos
axônios de dopamina. Isso faz o efeito da serotonina
no complexo de neurônios da dopamina. Em algumas
situações, a serotonina inibe a liberação
desse complexo. Em outras, ela pode inibir a liberação
de dopamina, mas, pelo menos nos humanos, ela parece
reforçá-la. Há correlações
muito fortes entre os níveis de metabólitos
de dopamina de serotonina no líquido cerebrospinal.
Quando a droga fenfluramina é administrada
a humanos, ela causa a liberação de
serotonina. Estudos por tomografia de emissão
de pósitrons (PET)* em voluntários normais
mostram que esse aumento na serotonina também
causa liberação de dopamina. Os voluntários
recebem racloprida radioativa, a qual liga-se aos
receptores de dopamina. O estudo PET mostra quanta
racloprida está anexada ao receptor Quando
é dada a fenfluramina, a quantidade de racloprida
ligada para o receptor diminui, porque a maior quantidade
de dopamina recentemente liberada compete com a racloprida
por um lugar no receptor Será importante manter
em foco os efeitos diferenciais da serotonina na liberação
de dopamina quando estudarmos as ações
das medicações antipsicóticas
no Capítulo 12. Na medula espinal, a serotonina
aumenta a excitabilidade dos neurônios motores
e, assim, eles podem reagir mais rapidamente a um
estímulo. A serotonina pode facilitar a ação
através da ativação do sistema
de dopamina.
Através de sua influência no hipotálamo,
a serotonina também governa a alimentação,
o sono e muitas funções vegetativas.
Logo, ela tende a estar envolvida não apenas
nos transtornos depressivos (nos quais o sono e o
apetite são perturbados), mas também
nos transtornos de controle de impulsos, situando-se,
dessa forma, entre tomar uma informação
(o sistema NE) e agir de acordo com aquela informação
(o sistema dopamina). Jeffrey Gray e Neil McVaughton
sugeriram que o sistema NE-serotonina é parte
de “sistema de inibição comportamental”,
ou seja, um mecanismo cerebral afinado para responder
a estímulos que produzam medo ou ansiedade.
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Tabela
4.3 Receptores de serotonina
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Em
contraste, é sugerido que as rotas da dopamina
sejam parte de um “sistema de ativação
comportamental”projetada para procurar estímulos
prazerosos ( ou engajar-se na fuga ativa de estímulos
perigosos). O comportamento adaptativo depende do equilíbrio
entre um comportamento inibido, temeroso e atividades
de busca de prazer ativas. A serotonina pode desempenhar
um papel especial na conquista desse equilíbrio.
Essa idéia torna-se mais clara nos capítulos
posteriores, nos quais é estudada a sua influência
na depressão, na ansiedade e na agressão. |
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Peptídeos |
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Agora,
tomo um conjunto muito diferente de neurotransmissores,
os peptídeos. Em vez de pequenas moléculas,
os peptídeos são cadeias de aminoácidos.
Os neurotransmissores estudados até aqui são
liberados e agem somente na fenda sináptica do
neurônio; eles não se difundem pelo cérebro.
São degradados rapidamente ou recaptados para
o neurônio para terminarem a sua ação.
Em contraste, os peptídeos podem ser difundidos
e agir no cérebro em sítios distantes
do de liberação, embora, como os neurotransmissores
clássicos, tenham receptores que também
são altamente localizados. Às vezes, o
peptídeo é liberado junto com um neurotransmissor
convencional. Embora o pequeno neurotransmissor químico
aja de forma rápida, como descrito anteriormente,
os efeitos do peptídeo são mais prolongados.
Há diversas classes de peptídeos. O fator
liberador de corticotropina, mencionado anteriormente,
é um destes. A colecistoquinina, que foi encontrada
originalmente nos intestinos e está envolvida
na digestão, também é encontrada
no cérebro. Ela pode estar envolvida nos ataques
de pânico. Voltaremos a ela no Capítulo
11. Por enquanto, eu enfoco os opiáceos endógenos,
a substância P e a ocitocina. Nos capítulos
posteriores, serão apresentados outros.
Os
potenciais analgésicos e geradores de dependência
da morfina, da heroína e de outras drogas opiáceas
são bastante conhecidos. O cérebro produz
três opiáceos naturais ou endógenos:
a ß-endorfina, a encefalina e a dinorfina. Os
pequenos neurônios que liberam essas substâncias
são encontrados através do cérebro
e medula espinal. Nessa última, eles estão
concentrados na área de recepção
da dor Os neurônios da encefalina e da dinorfina
são encontrados no putame caudado, a partir do
qual projetam-se para o globo pálido; nesses
neurônios, os peptídeos são liberados
juntamente com o GABA. Os opiáceos endógenos
ligam-se a três tipos de receptores: d (delta),
? (kappa) e µ, (mu). A ß-endorfina e a morfina
ligam-se mais estreitamente ao receptor µ, enquanto
a dinorfina liga-se fortemente ao receptor ?. As encefalinas
têm maior afinidade para os receptores d. Todos
os receptores de opiáceos endógenos inibem
a adenilil ciclase.
Recentemente, foi desenvolvida uma substância
chamada [11c]carfentanil. Essa substância emissora
de pósitrons pode ser injetada sem riscos em
humanos, e se liga aos receptores µ no cérebro
de modo que podem ser visualizados em um PET scan. Jon-Kar
Zubieta e colaboradores realizaram PET em 20 voluntários
humanos enquanto esses eram expostos a estímulos
dolorosos; os participantes também deram pontuações
para a dor que sofriam. A ativação de
receptores de opiáceos durante estímulos
dolorosos foi encontrada em muitas regiões, incluindo
o cingulado anterior, o córtex pré-frontal,
o tálamo e o hipotálamo.
Interessantemente, a quantidade da ativação
de receptores de opiáceos apresentava correlação
com a intensidade com que os participantes experimentavam
a dor quanto maior a ativação de receptores
opiáceos no nucleus acumbens, na corpo amigdalóide,
no cingulado anterior e no tálamo, menos intensa
era a classificação que os participantes
davam à dor Isso levanta a interessante questão
de se as pessoas com níveis menores de ativação
dos receptores de opiáceos teriam menor tolerância
à dor O sistema opiáceo será discutido
mais detalhadamente no Capítulo 10.
A substância P é um peptídeo que
foi descoberto na década de 1930. Ela foi extraída
de tecidos dos intestinos como um pó seco, assim
os decobridores o chamaram de "P" nos seus
cadernos. Embora tenha sido descoberta primeiramente
no intestino, mais tarde foi encontrada no sistema nervoso,
onde desempenha um papel importante na transmissão
de sinais dolorosos. Traumas de pele desencadeiam o
disparo de neurônios de substância P que
terminam na medula espinal. Pimentas* contêm capsaicina,
a qual estimula a liberação da substância
P. No cérebro, os neurônios da substância
P projetam-se do putame caudado para o globo pálido
(semelhante às encefalinas/dinorfinas); eles
também são encontrados em todo o cérebro
como pequenos interneurônios. A substância
P está envolvida não apenas na dor, mas
também na regulação do comportamento
de apego. Mark Kramer e colaboradores injetaram agonistas
da substância P em porquinhos-da-índia,
levando-os a fazer vocalizações semelhantes
àquelas dos animais sob estresse. Quando eles
são separados das suas mães, normalmente
fazem pedidos de socorro; esses chamados são
eliminados se os animais forem infundidos com antagonistas
da substância P. Em um teste clínico com
pacientes depressivos, foi descoberto que um antagonista
dessa substância era um antidepressivo efetivo.
Os neurônios de ocitocina foram encontrados primeiramente
no hipotálamo, a partir de onde projetam-se para
a hipófise posterior Quando a ocitocina é
liberada em fêmeas prenhes, ela inicia as contrações
uterinas e também desencadeia a lactação
em mães em fase de amamentação.
O som do choro de um bebê faz com que os neurônios
hipotalâmicos liberem ocitocina. A ocitocina também
é encontrada em machos e foi mostrado que ela
influencia na formação de casais e no
comportamento sexual. Carmichael e colaboradores estudaram
participantes humanos engajados no intercurso sexual
enquanto mediam o nível de ocitocina no sangue.
Havia correlação positiva entre o número
e a intensidade de orgasmos e os níveis de ocitocina
no plasma tanto nos machos como nas fêmeas. Ratazanas
da planície (um tipo de roedor), que são
monógamos e envolvem-se em um alto nível
de comportamento maternal com as suas crias, têm
densidade de receptores de ocitocina muito mais alta
do que espécies de ratazanas que são polígamas.
Novamente deve ser enfatizado que há muito mais
peptídeos cerebrais do que podem ser explanados
neste livro.
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Fatores
de Crescimento |
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O
grupo final de neurotransmissores que considero são
os fatores de crescimento. Eles também são
peptídeos e transmitem os seus sinais para o
neurônio via receptor de tirosina quinase (TKS),
o qual foi revisado no Capítulo 3. Eles podem
ser produzidos por células de suporte (glia)
do sistema nervoso, assim como pelos próprios
neurônios. Como o nome indica, são crxticos
no começo do desenvolvimento para a divisão
e o crescimento neuronal, mas continuam a ser importantes
durante toda a vida do animal para a prevenção
da morte neuronal. Estamos particularmente interessados
em um subgrupo de fatores de crescimento, as neurotrofinas,
as quais apóiam a diferenciação
e a sobrevivência de subconjuntos específicos
de neurônios. Essas neurotrofinas são o
fator de crescimento nervoso (NGF), o fator neurotrófico
derivado do cérebro (BDNF) e as neurotrofinas
3 (NT3) e 4/5 (NT 4/5). Elas podem ser liberadas de
qualquer lugar no cérebro. Com freqüência
o neurônio póssináptico libera uma
neurotrofina de volta para o seu neurônio pré-sináptico.
O NGF é necessário para os neurônios
simpáticos desenvolverem-se no período
fetal e para serem mantidos durante a vida. O NGF também
é encontrado no córtex e no hipocampo,
assim como nos neurônios colinérgicos frontocerebrais.
Os neurônios BDNF apóiam a expansão
dos axônios dos neurônios da dopamina e
da acetilcolina. Níveis mais altos de atividade
neuronal estimulam a liberação de BDNE
Ratos que não podem produzir o BDNF morrem em
poucas semanas e os animais que estão vivendo
em ambientes de alto estresse produzem níveis
mais baixos desse fator; esses animais também
mostram encolhimento dos seus hipocampos. Essas substâncias
"estimuladoras do cérebro" são
examinadas mais detalhadamente no Capítulo 11,
o qual discute os transtornos de ansiedade e o estresse.
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Resumo |
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Este
capítulo mostrou onde alguns dos principais neurotransmissores
estão localizados. Também vislumbramos
como os vários sistemas de neurotransmissores
operam. Nos próximos três capítulos,
abordo comportamentos específicos. O Capítulo
5 examina o comportamento motor e como respondemos aos
estímulos de recompensa. O Capítulo 6
discute a memória e a emoção e
o 7 estuda a linguagem, a atenção e a
função executiva. Depois, na Parte II,
vemos como essas funções poderiam ser
perturbadas por transtornos mentais.
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