| Neurologista
defende a inclusão das ciências sociais
e humanas, ao lado das neurociências e das ciências
cognitivas, na abordagem da natureza do homem e das
regras da vida social
Descartes destacou como a principal qualidade humana
a capacidade de raciocínio, livre de qualquer
influência do corpo sobre a mente. Neurologistas
e filósofos hoje contestam essa visão,
afirmando que as emoções determinam em
parte o conteúdo mental. O neurologista e neurobiólogo
Antônio Damásio desferiu um sério
golpe no edifício cartesiano em O Erro de Descartes,
no qual sustenta que nossos juízos intelectuais
e morais são determinados, para além da
lógica interna ao cérebro, por emoções.
Nascido
em Portugal, Damásio instalou-se nos Estados
Unidos, ao lado da esposa Hannah, também neurologista,
há 30 anos. Juntos formaram um dos maiores bancos
de dados mundiais sobre lesões cerebrais, reunindo
dossiês neurológicos e psicológicos
de milhares de pacientes. Estudando as conseqüências
dessas lesões sobre pensamento, emoções
e comportamento, conseguiram chaves para compreender
o funcionamento do cérebro normal.
Damásio
descobriu que diversas doenças ou acidentes que
perturbam o funcionamento do corpo repercutem no estado
mental, nos juízos e nas emoções.
Inversamente,
as emoções determinam em parte o modo
pelo qual tomamos decisões e construímos
nossa própria imagem. Esta é a mensagem
de O Erro lê Descartes e O mistério da
consciência. Em seu último livro, Em busca
de Espinosa, ele vai adiante: os sentimentos caracterizam
toda a nossa existência: são uma "experiência
de vida condensada".
VM&C
O QUE O ENTUSIASMA EM SEUS ESTUDOS SOBRE O CÉREBRO
HUMANO E, PRINCIPALMENTE, SOBRE O PAPEL DAS EMOÇÕES?
DAMÁSIO:
O que me fascina é o estudo das lesões
cerebrais e dos efeitos que produzem sobre o espírito.
Quando uma região é deficiente ou está
destruída, o comportamento do paciente pode mudar
inteiramente, mas por vezes muda apenas de forma sutil.
Como compreender, por exemplo, que uma pessoa disponha
de um notável quociente intelectual, mas seja
incapaz de tomar decisões sensatas para organizar
sua trajetória a longo prazo, sua carreira e
sua vida familiar? Essas pessoas elaboram discursos
de grande rigor racional, mas têm uma péssima
percepção dos riscos. Não sabem
dar conta de situações de perigo. O acesso
a reações emocionais normais, por exemplo,
as que temos diante de uma situação perigosa
e que nos fazem adotar uma atitude de retraimento, prudência
e até de receio, está bloqueado em decorrência
das lesões. Isto indica o papel central das emoções
na tomada de decisão, domínio de expressão
por excelência do juízo, da inteligência
e da deliberação. Assim, há uma
inteligência das emoções. Fascina-me
o fato de que as emoções não representam,
como pensava Descartes, o lado obscuro do espírito
humano, mas, ao contrário, nos ajudam a tomar
boas decisões.
VM&C
HÁ UMA DISTINÇÃO ENTRE EMOÇÕES
E SENTIMENTOS?
DAMÁSIO: Sim. Na linguagem
corrente os dois termos são considerados sinônimos,
o que mostra a estreita conexão que os une. Mas
tentemos defini-los com precisão. Penso que uma
emoção é um conjunto de reações
corporais a certos estímulos. Quando temos medo,
o ritmo cardíaco se acelera, a boca seca, a pele
empalidece e os músculos se contraem -reações
automáticas e inconscientes. Os sentimentos,
por sua vez, surgem quando tomamos consciência
destas "emoções" corporais,
no momento em que estas são transferidas para
certas zonas do cérebro onde são codificadas
sob a forma de uma atividade neuronal. Para prosseguir
com o exemplo, as modificações fisiológicas
fazem com que experimentemos um sentimento de medo.
VM&C
OS SENTIMENTOS ENTÃO NASCEM DAS EMOÇÕES?
DAMÁSIO: Sim.
O cérebro recebe continuamente sinais provenientes
do corpo, tal como um espectador. Cada estado é
representado sob a forma de uma combinação
de atividades de neurônios singular, em centros
denominados somatossensoriais. Cada um de nós
possui um mapa pessoal dos sentimentos: alguém
que experimentou o medo memorizou inconscientemente
uma combinação de modificações
de seus parâmetros fisiológicos, que ficou
gravada em um conjunto de neurônios do córtex
somatossensorial: cada vez que o conjunto for ativado,
experimenta-se um novo sentimento de medo. Os sentimentos
emergem da leitura de mapas em que estão marcadas
as alterações emocionais: são como
reproduções instantâneas de nosso
estado corporal.
VM&C:
TODOS os SENTIMENTOS NASCERIAM DE UMA REAÇÃO
CORPORAL?
DAMÁSIO: Não.
Uma vez registrado o sentimento (quando o mapa correspondente
foi estabelecido), ele pode ser reavivado "do interior",
em certa medida sem a intervenção do corpo.
Ao nos lembrarmos de uma tarde agradável, reencontramos
a emoção que sentimos na ocasião.
Mas notemos que a emoção só aparece
em toda a sua limpidez quando o corpo participa dela
novamente.
VM&C:
NO SEU ENTENDER, AS NEUROCIÊNCIAS PODERIAM REDUZIR
UM DIA OS SENTIMENTOS A "FICÇÕES
ÚTEIS" DO CÉREBRO?
DAMÁSIO: De forma
alguma. Medo, alegria ou amor são eventos humanos
reais e se exprimem mediante certos comportamentos.
O fato de melhor compreendê-los nada tirará
de seu interesse ou de sua força.
VM&C:
A DISTINÇÃO ENTRE EMOÇÃO
E SENTIMENTO LEMBRA ESTRANHAMENTE O DUALISMO DE DESCARTES.
COMO REPRESENTARA RELAÇÃO ENTRE CORPO
E ESPÍRITO?
DAMÁSIO: Parece-me
equivocada a idéia de Descartes segundo a qual
estas são substâncias essencialmente distintas.
O corpo e o espírito seriam sim dois aspectos
diferentes de uma certa classe de mecanismos biológicos.
Alguns anos após Descartes, Espinosa entreviu
isso. Em sua Ética escreveu: "A idéia
do espírito humano foi construída a partir
de um objeto: o corpo". Essa frase antecipa os
conhecimentos da neurobiologia moderna.
VM&C
EM SEU ÚLTIMO LIVRO, ESPINOSA É QUALIFICADO
DE IMUNOLOCISTA ESPIRITUAL EM BUSCA DE UMA VACINA CONTRA
AS PULSÕES. SERÁ PRECISO VIVER SEM PAIXÕES?
DAMÁSIO: O que
me fascina em Espinosa não é tanto sua
clarividência sobre os temas de ordem biológica,
mas as conclusões que extrai desse conhecimento
para refletir sobre o que seria uma vida justa e qual
a organização ideal da sociedade. Ele
recomenda opor aos afetos negativos, como a tristeza
e o medo, outros positivos como a alegria, definidos
como uma forma de paz interior e de impassibilidade
estóica.
VM&C:
ALÉM DE SERVIREM PARA TOMARMOS DECISÕES,
QUAIS AS OUTRAS FUNÇÕES DOS SENTIMENTOS?
DAMÁSIO: Eles
têm um papel social e moral. Em nosso laboratório,
investigamos a compaixão, a vergonha e o orgulho,
fundamentos da moral. Elucidando as bases de sentimentos
como esses, a neurobiologia desvenda não só
a natureza humana individual, mas as regras da vida
social. Para isto é preciso empregar uma abordagem
experimental ampliada: além das neurociências
e das ciências cognitivas, deve-se levar em conta
as ciências sociais e humanas.
VM&C:
PARA MUITOS, A CONSCIÊNCIA HUMANA É TÃO
INACESSÍVEL À PESQUISA QUANTO AS EMOÇÕES
ANTIGAMENTE, JÁ QUE SEU ESTUDO SE BASEIA EM TESTEMUNHOS
SUBJETIVOS E NÃO EM FATOS.
DAMÁSIO: A subjetividade
pode ser objeto da ciência? E a nossa aposta:
pensamos que é preciso coletar testemunhos das
pessoas sobre suas experiências interiores, observar
do exterior o comportamento e medir a atividade cerebral.
Esses três "ângulos de observação"
deveriam ser complementares e ajudar a circunscrever
melhor a realidade do ser humano. Relacionando esses
níveis, podemos elaborar uma teoria da consciência
capaz de gerar hipóteses verificáveis
pelas experiências. Do meu ponto de vista, a consciência
é tão acessível à pesquisa
científica quanto quaisquer outros fenômenos
mentais.
VM&C:
QUAL O PAPEL DO CORPO NA EMERGÊNCIA DA CONSCIÊNCIA?
DAMÁSIO: A consciência
de si é construída a partir de uma imagem
do corpo, que decorre por sua vez das sensações
que experimentamos (frio, calor, palpitações
do coração, movimentos etc.). Elaboramos
uma imagem de nosso corpo e de suas reações
em função dos constrangimentos externos.
Representação do corpo e consciência
estão intimamente ligados.
VM&C:
POR QUE o SER HUMANO DESENVOLVEU UMA CONSCIÊNCIA
DE SI?
DAMÁSIO: Penso
que o corpo precisa verificar sem cessar que seu equilíbrio
(sua homeostase) está sendo respeitado. O cérebro
deve receber informações atualizadas sobre
o estado do corpo a fim de regular os mecanismos vitais.
Diante de um perigo, o corpo reage por meio de um conjunto
de reações fisiológicas, que o
cérebro converte em atividade neuronal. É
preciso aceder à atividade neuronal e tomar consciência
dela para agir.
Para o organismo, é a única maneira de
sobreviver num meio em perpétua mudança.
As emoções, sem sentimentos conscientes,
não bastam.
VM&C:
DEVEMOS CONCLUIR QUE OS ANIMAIS TÊM CONSCIÊNCIA?
DAMÁSIO: Penso que os
animais também formam conceitos de si simples,
que eu chamo de "núcleo de si". Para
um eu mais amplo, tal como o encontrado na espécie
humana, é preciso uma memória autobiográfica.
VM&C:
SEREMOS CAPAZES DE CRIAR ARTIFICIALMENTE CONSCIÊNCIA
E SENTIMENTOS?
DAMÁSIO: Atualmente
não se pode responder esta questão. Por
outro lado, é possível enunciar as condições
necessárias ao surgimento de sentimentos e de
uma consciência. Para que isto ocorra, um robô
deve ser capaz, exatamente como se dá no homem,
de criar em seu "cérebro" uma representação
de suas funções corporais e de suas alterações,
isto é, de perceber a si mesmo. Não pode
haver consciência sem este mecanismo. Uma outra
questão, evidentemente, é saber se desejamos
uma máquina capaz de sentimentos.
VM&C:
A PESQUISA SOBRE EMOÇÕES AJUDARÁ
NO TRATAMENTO DAS DOENÇAS DO ESPÍRITO?
DAMÁSIO: Sim,
pois os problemas emocionais constituem o núcleo
da maior parte das doenças mentais. No futuro
certamente teremos tratamentos específicos e
medicamentos que agirão sobre sistemas celulares
ou moleculares que intervém na gênese das
emoções. Outras formas de terapia, como
as psicoterapias, provavelmente se beneficiarão
das pesquisas sobre as emoções.
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