| Áreas
Encefálicas Relacionadas com as Emoções.
O sistema Límbico.
Professor
Ângelo Machado.
NEUROANATOMIA
FUNCIONAL
1.0
- INTRODUÇÃO
Alegria,
tristeza, medo, prazer e raiva são exemplos do
fenômeno da emoção. Para seu estudo,
costuma-se distinguir um componente central, subjetivo,
e um componente periférico, o comportamento emocional.
O componente periférico é a maneira como
a emoção se expressa e envolve padrões
de atividade motora, somática e visceral, que
são característicos de cada tipo de emoção
e de cada espécie. Assim por exemplo, a raiva
manifesta-se de maneira muito diferente no homem, no
gato ou em um galo garnisé. A alegria no homem
se expressa pelo riso, no cachorro pelo abanar da cauda.
O choro é uma expressão da tristeza, característica
do homem (para um estudo comparativo sobre a expressão
das emoções, veja o clássico e
ainda atual livro de Charles Darwin “The expression
of the emotions in man and animals, London, John Murray,
1872). A distinção entre o componente
interno, subjetivo, e o componente externo, expressivo
da emoção, é, pois, importante
para seu estudo. Ela fica mais clara se lembrarmos que
um bom ator pode simular perfeitamente todos os padrões
motores ligados à expressão de determinada
emoção, sem que sinta emoção
nenhuma.
Durante
muito tempo acreditou-se que os fenômenos emocionais
estariam na dependência de todo o cérebro.
Coube a Hess, prêmio Nobel de medicina há
cerca de 50 anos, demonstrar que esses fenômenos
estão relacionados com áreas específicas
do cérebro. Este cientista implantou eletrodos
em diferentes regiões do hipotálamo do
gato e observou as mais variadas manifestações
de comportamento emocional, quando estas áreas
eram estimuladas eletricamente em animais livres e acordados.
Sabe-se hoje que as áreas relacionadas com os
processos emocionais ocupam territórios bastante
grandes do encéfalo, destacando-se entre elas
o hipotálamo, a área pré-frontal
e o sistema límbico. O interessante é
que a maioria dessas áreas está relacionada
também com a motivação, em especial
com os processos motivacionais primários, ou
seja, aqueles estados de necessidade ou de desejo essenciais
à sobrevivência da espécie ou do
indivíduo, tais como fome, sede e sexo. Por outro
lado, as áreas encefálicas ligadas ao
comportamento emocional também controlam o sistema
nervoso autônomo, o que é fácil
de entender, tendo em vista a importância da participação
desse sistema na expressão das emoções.
Essas áreas serão estudadas a seguir.
2.0
TRONCO ENCEFÁLICO
No
tronco encefálico estão localizados vários
núcleos de nervos cranianos, viscerais ou somáticos,
além de centros viscerais como o centro respiratório
e o vasomotor. A ativação destas estruturas
por impulsos nervosos de origem telencefálica
ou diencefálica ocorre nos estados emocionais,
resultando nas diversas manifestações
que acompanham a emoção, tais como o choro,
as alterações fisionômicas, a sudorese,
a salivação, o aumento do ritmo cardíaco,
etc. Além disto, as diversas vias descendentes
que atravessam ou se originam no tronco encefálico
vão ativar os neurônios medulares, permitindo
aquelas manifestações periféricas
dos fenômenos emocionais que se fazem por nervos
espinhais ou pelos sistemas simpático e parassimpático
sacral. Deste modo, o papel do tronco encefálico
é principalmente efetuador, agindo basicamente
na expressão das emoções.
Contudo,
existem dados que sugerem que a substância cinzenta
central do mesencéfalo e a formação
reticular podem ter, também, um papel regulador
de certas formas de comportamento agressivo.
Cabe
lembrar também que no tronco encefálico
origina-se a maioria das fibras nervosas monoaminérgicas
do sistema nervoso central, destacando-se aquelas que
constituem as vias serotoninérgicas, noradrenérgicas
e dopaminérgicas. Estas vias projetam-se para
o diencéfalo e telencéfalo e, deste modo,
exercem ação moduladora sobre os neurônios
e circuitos nervosos existentes nas principais áreas
encefálicas relacionadas com o comportamento
emocional. É especialmente importante a via dopaminérgica
mesolímbica, que se projeta especificamente para
áreas altamente relevantes à regulação
dos fenômenos emocionais, como o sistema límbico
e a área pré-frontal. Em síntese,
embora os centros encefálicos mais importantes
para a regulação das emoções
não estejam no tronco encefálico, estes
centros sofrem influência de neurônios nele
localizados, através das vias monoaminérgicas
que aí se originam.
3.0
– HIPOTÁLAMO
A
participação do hipotálamo na regulação
do comportamento emocional, evidenciada pela primeira
vez por Hess, foi amplamente confirmada em vários
animais e no homem. Estimulações elétricas
ou lesões do hipotálamo em animais não
anestesiados determinam respostas emocionais complexas,
como raiva e medo, ou, conforme a área, placidez.
Verificou-se, por exemplo, que a lesão do núcleo
ventromedial do gato torna o animal extremamente agressivo
e perigoso. Em uma experiência clássica
verificou-se que, quando se retiram os hemisférios
cerebrais de um gato, inclusive o diencéfalo,
deixando-se apenas a parte posterior do hipotálamo,
o animal desenvolve um quadro de raiva que desaparece
quase completamente quando se destrói todo o
hipotálamo. Sabe-se hoje que este quadro de raiva
só aparece quando são incluídas
na lesão áreas corticais ou subcorticais
do sistema límbico. Este sistema, através
de inúmeras conexões, exerce uma ação
inibidora sobre o hipotálamo posterior que, quando
liberado, funciona como agente de expressão das
manifestações viscerais e somáticas
que caracterizam a raiva. Ao que parece, o hipotálamo
tem um papel preponderante como coordenador das manifestações
periféricas das emoções. Sabe-se,
entretanto, que a estimulação de certas
áreas do hipotálamo do homem desperta
uma sensação de prazer, o que sugere sua
participação também no componente
central, subjetivo, da emoção.
A maioria
das modificações do comportamento observadas
em experiências com o hipotálamo de animais
já foi também observada no homem, em experiências
realizadas durante o ato operatório ou como conseqüência
de traumatismos, tumores, lesões vasculares ou
infecções desta região. Não
resta, pois, dúvidas de que o hipotálamo
exerce um importante papel na coordenação
e integração dos processos emocionais.
4.0
- TÁLAMO
Lesões
ou estimulações do núcleo dorsomedial
e dos núcleos anteriores do tálamo já
foram correlacionadas com alterações da
reatividade emocional no homem e em animais. Ao que
parece, entretanto, a importância destes núcleos
na regulação do comportamento emocional
decorre de suas conexões. O núcleo dorsomedial
liga-se ao córtex da área pré-frontal
ao hipotálamo e ao sistema límbico.
Os
núcleos anteriores ligam-se ao corpo mamilar
e ao córtex do giro do cíngulo, fazendo
parte de circuitos do sistema límbico. A significação
funcional da área pré-frontal e do sistema
límbico será estudada a seguir.
5.0
- ÁREA PRÉ-FRONTAL
A
área pré-frontal corresponde à
parte não motora do lobo frontal, caracterizando-se
como córtex de associação supramodal.
Essa área desenvolveu-se muito durante a evolução
dos mamíferos e no homem ocupa cerca de 1/4 da
superfície do córtex cerebral. Suas conexões
são muito complexas. Através dos fascículos
de associação do córtex ela recebe
fibras de todas as demais áreas de associação
do córtex, ligando-se ainda ao sistema límbico.
Especialmente importantes são as extensas conexões
recíprocas que ela mantém com o núcleo
dorsomedial do tálamo. Informações
sobre o significado funcional da área pré-frontal
têm sido obtidas principalmente através
de experiências feitas em macacos e observação
de casos clínicos nos quais houve lesão
nessa área. Destes, um dos mais famosos ocorreu
em 1868, quando P.T. Gage, funcionário de uma
ferrovia americana, teve seu córtex pré-frontal
destruído por uma barra de ferro, durante uma
explosão. Ele conseguiu sobreviver ao acidente,
mas sua personalidade, antes caracterizada pela responsabilidade
e seriedade, mudou dramaticamente. Embora com suas funções
cognitivas basicamente normais, ele perdeu totalmente
o senso de suas responsabilidades sociais e passou a
vaguear de um emprego para outro, dizendo "as mais
grosseiras profanidades" e exibindo a barra de
ferro que o vitimara. "Sua mente estava tão
radicalmente mudada que seus amigos diziam que ele não
era mais o mesmo Gage", afirma Harlow (Harlow,
H.M. – 1868 – “Recovery from the passage
of na iron bar through the head”. Mass. Med. Publ.
2:327).
No
que se refere às observações em
animais, a experiência mais famosa foi feita em
1935, por Fulton e Jacobsen, em duas macacas chimpanzé
que tiveram suas áreas pré-frontais removidas.
Depois da operação, as macacas passaram
a não resolver mais certos problemas simples,
como achar o alimento escondido pouco tempo antes. Isso
levou os autores a sugerir que a área pré-frontal
poderia estar relacionada com algum tipo de memória
para fatos recentes. Além disto, os animais tornaram-se
completamente distraídos e não desenvolveram
mais as características manifestações
emocionais de descontentamento, em situações
de frustração.
Com
base nessas experiências, Egas Moniz e Almeida
Lima, dois cirurgiões portugueses, fizeram pela
primeira vez, em 1936, a lobotomia (ou leucotomia) pré-frontal,
para tratamento de doentes psiquiátricos com
quadros de depressão e ansiedade. A operação
consiste em uma secção bilateral da parte
anterior dos lobos frontais, passando adiante dos cornos
anteriores dos ventrículos laterais. Sabe-se
hoje que os resultados devem-se principalmente à
secção das conexões da área
pré-frontal com o núcleo dorsomedial do
tálamo. Essa cirurgia melhora os sintomas de
ansiedade e depressão dos doentes, que entram
em estado de ‘tamponamento psíquico’,
ou seja, deixam de reagir a circunstâncias que
normalmente determinam alegria ou tristeza. Assim, por
exemplo, pacientes com dores intratáveis causadas
por um câncer e profundamente deprimidos, após
a lobotomia, embora continuem a sentir dor, melhoram
do ponto de vista emocional e passam a não dar
mais importância à sua grave situação
clínica. O trabalho de Egas Moniz e Almeida Lima
sobre a leucotomia frontal teve grande repercussão,
pois pela primeira vez empregou-se uma técnica
cirúrgica para tratamento de doenças psíquicas
(psicocirurgia). O método foi largamente usado,
caindo em desuso com o aparecimento de drogas de ação
antidepressiva. Uma conseqüência indesejável
da leucotomia é que muitos pacientes perdem a
capacidade de decidir sobre os comportamentos mais adequados
diante de cada situação, podendo, por
exemplo, com a maior naturalidade, urinar, defecar ou
masturbar-se em público.
Embora
existam ainda muitas divergências e especulações
em torno do significado funcional da área pré-frontal,
a interpretação às vezes difícil
de dados experimentais e clínicos, como os expostos
acima, permite concluir que esta área está
envolvida pelo menos nas seguintes funções:
a) escolha das opções e estratégias
comportamentais mais adequadas à situação
física e social do indivíduo, assim como
a capacidade de alterá-las quando tais situações
se modificam;
b) manutenção da atenção.
Vimos que lesões na área pré-frontal
causam distração, ou seja, os pacientes
têm dificuldade de se concentrar e fixar voluntariamente
a atenção. Cabe lembrar que outras áreas
cerebrais - a formação reticular inclusive
- também estão envolvidas no fenômeno
da atenção. Entretanto, os aspectos mais
complexos dessa função, como, por exemplo,
a capacidade de seguir seqüências ordenadas
de pensamentos, dependem fundamentalmente da área
pré-frontal;
c) controle do comportamento emocional, função
exercida juntamente com o hipotálamo e o sistema
límbico.
6.0
– SISTEMA LÍMBICO
6.1
- CONCEITO DE SISTEMA LÍMBICO
Figura
1. Vista medial e inferior de um hemisfério
cerebral após remoção de parte
do diencéfalo,
de modo a expor o fascículo mamilo-talâmico.
Na
face medial de cada hemisfério cerebral observa-se
um anel cortical contínuo constituído
pelo giro do cíngulo, giro para-hipocampal e
hipocampo (figura 1 e figura 2). Este anel cortical
contorna as formações inter-hemisféricas
e foi considerado por Broca como um lobo independente,
o grande lobo límbico (de limbo, contorno).
Este lobo é filogeneticamente muito antigo, existindo
em todos os vertebrados. Apresenta uma certa uniformidade
citoarquitetural, pois seu córtex é mais
simples que o do isocórtex que o circunda. Do
ponto de vista funcional admitiu-se durante muito tempo
que o lobo límbico teria funções
olfatórias, fazendo parte do chamado rinencéfalo,
ou encéfalo olfatório. Em 1937, o neuroanatomista
James Papez publicou um trabalho famoso (A proposed
mechanism for emotion. Archives of Neurology and Psychiatry,
38:725-743. 1937), no qual propunha uma nova teoria
para explicar o mecanismo da emoção. Este
mecanismo envolveria as estruturas do lobo límbico,
do hipotálamo e do tálamo, todas unidas
por um circuito hoje conhecido como circuito de Papez.
Estas estruturas compreenderiam um mecanismo harmonioso,
que não só elaboraria o processo subjetivo
central da emoção, mas também participaria
de sua expressão. O trabalho de Papez foi fundamentalmente
teórico e especulativo, embora ele chamasse a
atenção para certos dados clínicos,
como as dramáticas alterações do
comportamento emocional causadas pela raiva (hidrofobia),
cujo vírus lesa preferencialmente o hipocampo.
Embora muitos aspectos da teoria da emoção
de Papez não sejam mais aceitos, o ponto fundamental,
isto é, a importância das estruturas do
lobo límbico e de suas conexões nas manifestações
emocionais está, hoje, amplamente confirmado.
Verificou-se também que estas estruturas não
participam da apreciação consciente dos
odores, sendo, pois, incorreto incluí-las no
rinencéfalo, ou seja, no encéfalo olfatório.
Este termo é hoje usado em um conceito muito
mais restrito para indicar apenas estruturas relacionadas
diretamente com a olfação, ou seja, o
nervo, bulbo e tracto olfatórios, a estria olfatória
lateral e o úncus. As demais formações
anatômicas que tradicionalmente integravam o rinencéfalo
são hoje estudadas como parte do chamado sistema
límbico. Este pode, pois, ser conceituado como
um sistema relacionado fundamentalmente com a regulação
dos processos emocionais e do sistema nervoso autônomo
constituído pelo lobo límbico e pelas
estruturas subcorticais a ele relacionadas.
 |
Figura
2. Principais componentes
do sistema límbico, mostrando-se também
o circuito de Papez.
6.2
- COMPONENTES DO SISTEMA LÍMBICO
Dentro
do conceito enunciado no item 6.1, não há
completo acordo entre os autores quanto às estruturas
que deveriam fazer parte do sistema límbico.
Assim, enquanto alguns autores consideram como integrando
este sistema uma parte da formação reticular
e todo o hipotálamo, outros seguem o ponto de
vista inicial de MacLean e colocam nele apenas parte
do hipotálamo (acreditamos que se todo o hipotálamo
for considerado parte do sistema límbico, uma
certa unidade funcional que ainda existe nesse sistema
ficará perdida pelo acréscimo de novas
funções, como regulação
da temperatura, secreção de hormônios,
regulação do sono e dos ritmos circadianos).
A seguir,
apresentamos uma relação de estruturas
cuja inclusão no sistema límbico é
admitida pela maioria dos autores, agrupando-as em duas
categorias: componentes corticais, constituídos
de áreas de associação terciárias,
e componentes subcorticais.
6.2.1
- Componentes Corticais
a) giro
do cíngulo - contorna o corpo caloso, ligando-se
ao giro para-hipocampal pelo istmo do giro do cíngulo
(figura 1). É constituído de um tipo de
córtex intermediário entre o isocórtex
e o alocórtex que alguns autores chamam de mesocórtex.
É percorrido por um feixe de fibras, o fascículo
do cíngulo;
b) giro para-hipocampal - situa-se na face
inferior do lobo temporal (figura 1 e figura 3) e, em
grande parte, é constituído de um córtex
muito antigo, paleocórtex, que do ponto de vista
citoarquitetural se classifica como alocórtex;
c) hipocampo (o termo hipocampo é empregado
no seu sentido mais amplo e inclui o hipocampo propriamente
dito, ou corno de Ammon, o giro denteado e o subiculum.
Estas três estruturas, em conjunto, são
freqüentemente denominadas formação
do hipocampo) - eminência alongada e curva que
no homem situa-se no assoalho do corno inferior dos
ventrículos laterais acima do giro para-hipocampal
(figura 3). O hipocampo é constituído
de um córtex muito antigo, arquicórtex,
do tipo alocórtex. Proteja-se para o corpo mamilar
e área septal através de um feixe compacto
de fibras, o fórnix (figura 1).
 |
Figura 3. Esquema de
um corte frontal do giro para-hipocampal e hipocampo.
6.2.2
- Componentes Subcorticais
Figura
4. Corte frontal do cérebro passando
pela comissura anterior. Notam-se as estruturas do corpo
estriado e o núcleo basal de Meynert, situado
na substância inominata.
a) corpo
amigdalóide – também chamado
núcleo amigdalóide, é um dos núcleos
da base. Situa-se no lobo temporal, próximo ao
úncus (figura 4) e em relação com
a cauda do núcleo caudado. É constituído
de numerosos subnúcleos e suas conexões
são extremamente amplas e complexas. A maioria
de suas fibras eferentes agrupa-se em um feixe compacto,
a estria terminal (uma parte das fibras eferentes do
corpo amigdalóide constitui a via amigdalófuga
ventral, que termina no núcleo dosomedial do
tálamo e no hipotálamo), que acompanha
a curvatura do núcleo caudado e termina principalmente
no hipotálamo;
b) área septal - situada abaixo do rostro
do corpo caloso, anteriormente à lâmina
terminal e à comissura anterior, a área
septal compreende grupos de neurônios de disposição
subcortical conhecidos como núcleos septais.
Alguns destes neurônios se estendem até
a base do septo pelúcido. A área septal
tem conexões extremamente amplas e complexas,
destacando-se suas projeções para o hipotálamo
e para a formação reticular, através
do feixe prosencefálico medial;
c) núcleos mamilares - pertencem ao
hipotálamo e situam-se nos corpos mamilares.
Recebem fibras do hipocampo que chegam pelo fórnix
e se projetam principalmente para os núcleos
anteriores do tálamo e para a formação
reticular, respectivamente pelos fascículos mamilo-talâmico
e mamilo-tegmentar;
d) núcleos anteriores do tálamo –
situam-se no tubérculo anterior do tálamo.
Recebem fibras dos núcleos mamilares e projetam-se
para o giro do cíngulo;
e) núcleos
habenulares - situam-se na região do trígono
das habênulas no epitálamo. Recebem fibras
aferentes ela estria medular e projetam-se para o núcleo
interpeduncular do mesencéfalo.
6.3
- CONEXÕES DO SISTEMA LÍMBICO
Com
o aparecimento de modernas técnicas de pesquisa
neuroanatômica, nosso conhecimento sobre as conexões
dos diversos componentes do sistema límbico aumentou
consideravelmente. Apesar disto, não se conhece
ainda o significado funcional de grande parte dessas
conexões, que são muito complexas. Seu
estudo será feito a seguir, de maneira esquemática
e simplificada.
6.3.1 - Conexões Intrínseca
Os
diversos componentes do sistema límbico mantêm
entre si numerosas e complexas intercomunicações.
Dentre elas, a mais conhecida é o circuito
de Papez, circuito fechado que une as seguintes
estruturas límbicas, enumeradas na seqüência
que representa a direção predominante
dos impulsos nervosos (figura 2): hipocampo, fórnix,
corpo mamilar, fascículo mamilo-talâmico,
núcleos anteriores do tálamo, cápsula
interna, giro do cíngulo, giro para-hipocampal
e novamente o hipocampo, fechando o circuito. A importância
desse circuito no mecanismo das emoções
foi apontada inicialmente por Papez (ver item 6.1) e
há evidência de que ele está envolvido
também no mecanismo da memória.
O corpo
amigdalóide e a área septal, que mantêm
entre si conexões recíprocas, embora não
façam parte do circuito de Papez, ligam-se a
este circuito em vários pontos.
6.3.2
- Conexões Extrínsecas
As
estruturas do sistema límbico têm amplas
conexões com setores muito diversos do sistema
nervoso central, destacando-se, por sua importância,
as conexões recíprocas que mantêm
com o hipotálamo.
6.3.2.1
– Conexões Aferentes
É
do senso comum que as pessoas podem se emocionar pela
simples recordação de episódios
passados armazenados na memória. Mais freqüentemente,
entretanto, as emoções são desencadeadas
pela entrada no sistema nervoso central de determinadas
informações sensoriais. Assim, por exemplo,
informações visuais, auditivas, somestésicas
ou olfatórias que sinalizem perigo podem despertar
medo. Há evidência de que todas essas modalidades
de informações sensoriais têm acesso
ao sistema límbico, embora nunca diretamente.
Elas são antes processadas nas áreas corticais
de associação secundárias e terciárias
e penetram no sistema límbico por vias que chegam
ao giro para-hipocampal (área entorrinal) de
onde passam ao hipocampo, ganhando assim o circuito
de Papez. Fazem exceção os impulsos olfatórios,
que passam diretamente da área cortical de projeção
para o giro para-hipocampal e o corpo amigdalóide.
Também as informações relacionadas
com a sensibilidade visceral têm acesso ao sistema
límbico, seja diretamente, através das
conexões do núcleo do tracto solitário
com o corpo amigdalóide, seja indiretamente,
via hipotálamo. Ainda a propósito das
conexões aferentes do sistema límbico,
cabe lembrar as numerosas projeções serotoninérgicas
e dopaminérgicas que ele recebe da formação
reticular e que, segundo parece, exercem ação
moduladora sobre a atividade de seus neurônios.
6.3.2.2 - Conexões Eferentes
 |
Figura
5. Esquema das conexões eferentes do
sistema límbico com a formação
reticular do mesencéfalo.
As
conexões eferentes do sistema límbico
são importantes porque, através delas,
este sistema participa dos mecanismos efetuadores que
desencadeiam o componente periférico e expressivo
dos processos emocionais e, ao mesmo tempo, controlam
a atividade do sistema nervoso autônomo. Essas
funções são exercidas fundamentalmente
através das conexões que o sistema límbico
mantém com o hipotálamo e com a formação
reticular do mesencéfalo. As primeiras, já
estudadas a propósito do hipotálamo, são
especialmente relevantes. Aliás, já foi
dito que o hipotálamo é o principal "braço
executivo" do sistema límbico. As conexões
com a formação reticular do mesencéfalo
se fazem basicamente através de três sistemas
de fibras (figura 5):
a) feixe
prosencefálico medial - situado entre a
área septal e o tegmento do mesencéfalo,
este feixe contém fibras que percorrem nos dois
sentidos o hipotálamo lateral, onde muitas delas
terminam. Ele constitui a principal via de ligação
do sistema límbico com a formação
reticular;
b) fascículo mamilo-tegmentar - feixe
de fibras que dos núcleos mamilares se projeta
para a formação reticular do mesencéfalo;
c) estria medular - feixe de fibras que se
origina principalmente na área septal e termina
nos núcleos habenulares do epitálamo.
Estes, por sua vez, ligam-se ao núcleo interpeduncular
do mesencéfalo, que se projeta para a formação
reticular.
Como
o hipotálamo e a formação reticular;
têm conexões diretas com os neurônios
pré-ganglionares do sistema autônomo, as
vias acima descritas permitem ao sistema límbico
participar do controle do sistema autônomo, o
que é especialmente importante na expressão
das emoções.
6.4 - FUNÇÕES
DO SISTEMA LÍMBICO
Como
já foi assinalado, a função mais
conhecida do sistema límbico, e que deu origem
ao próprio conceito deste sistema, é de
regular os processos emocionais. Intimamente relacionadas
com esta função, estão as de regular
o sistema nervoso autônomo e os processos motivacionais
essenciais à sobrevivência da espécie
e do indivíduo, como fome, sede e sexo. Sabe-se
também que alguns componentes do sistema límbico
estão ligados diretamente ao mecanismo da memória
e aprendizagem e participam da regulação
do sistema endócrino. Algumas dessas funções
serão estudadas com mais detalhes a seguir.
6.4.1 - Regulação dos Processos
Emocionais e Motivacionais. Síndrome de Klüver
e Bucy
No
mesmo ano em que Papez publicou seu famoso trabalho
relacionando as estruturas límbicas com as emoções,
dois cientistas, H. Klüver e P. Bucy, publicaram
um trabalho experimental que veio confirmar as idéias
de Papez. Estes autores fizeram uma ablação
bilateral da parte anterior dos lobos temporais em macacos
Rhesus, lesando algumas estruturas importantes
do sistema límbico, como o hipocampo, o giro
para-hipocampal e o corpo amigdalóide. Esta cirurgia
resultou na maior modificação do comportamento
de um animal até hoje obtida após um procedimento
experimental. Estas alterações de comportamento
são conhecidas como síndrome de Klüver
e Bucy e consistem no seguinte:
a) domesticação completa dos animais que
usualmente são selvagens e agressivos;
b) perversão do apetite, em virtude da qual os
animais passam a alimentar-se de coisas que antes não
comiam;
c) agnosia visual manifestada pela incapacidade de reconhecer
objetos ou mesmo animais que antes causavam medo, tais
como cobras e escorpiões;
d) tendência oral manifestada pelo ato de levar
à boca todos os objetos que encontra (inclusive
os escorpiões);
e) tendência hipersexual, que leva os animais
a tentarem continuamente o ato sexual (mesmo com indivíduos
do próprio sexo ou de outra espécie) ou
a se masturbarem continuamente.
Convém
assinalar que quadros semelhantes a este já foram
observados no homem, em conseqüência da ablação
bilateral do lobo temporal para tratamento de formas
agressivas de epilepsia.
Admite-se
que a agnosia visual que ocorre na síndrome de
Klüver e Bucy resulta de lesão das áreas
visuais de associação localizadas no córtex
do lobo temporal. Todos os demais sintomas que ocorrem
nessa síndrome são conseqüência
de lesões de estruturas do sistema límbico,
em especial do corpo amigdalóide.
Estes
resultados despertaram grande interesse e levaram muitos
cientistas a pesquisar a participação
dos componentes do sistema límbico nos fenômenos
emocionais. Algumas das evidências encontradas
sobre esta participação serão analisadas
a seguir.
6.4.1.1
- Corpo Amigdalóide
As
funções do corpo amigdalóide ou
amígdala são muito variadas, refletindo
também sua complexidade estrutural. Lesões
ou estimulações desta área em animas
resultam em alterações do comportamento
alimentar (afagias e hiperfagias) ou da atividade das
vísceras, bastante semelhantes às que
se obtêm com procedimentos idênticos feitos
no hipotálamo. O registro da atividade elétrica
dos neurônios do corpo amigdalóide, tanto
no homem como nos animais, evidencia uma ativação
em situações com significado emocional,
como encontros agressivos ou de natureza sexual. Embora
alguns resultados sejam conflitantes, a maioria das
experiências relata que em animais as lesões
da amígdala resultam em uma domesticação
do animal com um quadro hipersexual semelhante ao observado
na síndrome de Klüver e Bucy. Também
no homem lesões bilaterais do corpo amigdalóide
resultam em considerável diminuição
da excitabilidade emocional de indivíduos portadores
de distúrbios de comportamento, manifestados
pela agressividade. Por outro lado, a estimulação
do corpo amigdalóide em animais desencadeia comportamentos
de fuga ou de defesa, associados à agressividade.
Coerentemente com este fato, no homem, focos epilépticos
da região amigdaliana do lobo temporal freqüentemente
associam-se a um aumento da agressividade social.
Interessantes
são as relações entre o corpo amigdalóide
e o medo. Pacientes conscientes submetidos a estimulação
elétrica do corpo amigdalóide durante
o ato cirúrgico freqüentemente relatam sentimentos
não direcionados de medo; geralmente acompanhados
de manifestações viscerais características
da situação, como dilatação
da pupila e aumento do ritmo cardíaco. Já
foi visto também que macacos que normalmente
têm medo de cobras, depois de sofrerem amigdalectomia,
perdem este medo, aproximam-se delas e até as
comem.
6.4.1.2
-Área Septal
Lesões
bilaterais da área septal em animais causam a
chamada "raiva septal", caracterizada por
uma hiperatividade emocional, ferocidade e raiva diante
de condições que normalmente não
modificam o comportamento do animal. Há também
um grande aumento da sede. Estimulações
da área septal causam alterações
da pressão arterial e do ritmo respiratório,
mostrando o seu papel na regulação de
atividades viscerais. Por outro lado as experiências
de auto-estimulação a serem descritas
no próximo item mostram que a área septal
é um dos centros do prazer no cérebro.
6.4.1.3
- O Giro do Cíngulo
Verificou-se
que a ablação do giro do cíngulo
(cingulectomia) em carnívoros selvagens domestica
completamente o animal. No homem, a cingulectomia já
foi empregada no tratamento de psicóticos agressivos.
Verificou-se, também, que a simples secção
do fascículo do cíngulo, (cingulotomia),
interrompendo o circuito de Papez, pode melhorar consideravelmente
quadros graves de depressão e ansiedade (para
maiores informações sobre o assunto, veja
Ballatine, H.T.; Cassidy, W.L.; Flanagan, N.B. and Marino
Jr. R. – 1967 – Journal of Neurosurgery,
26: 488-495) dando resultados que, quanto a este aspecto,
se assemelham aos obtidos nas leucotomias frontais.
6.4.1.4
- O Hipocampo
O
papel do hipocampo na regulação do comportamento
emocional foi inicialmente apontando por Papez, que
chamou a atenção para o aumento da realidade
emocional causada por lesões do hipocampo pelo
vírus da raiva. Lesões bilaterais do hipocampo
em macacos resultam em um aumento da agressividade destes
animais. Apesar de existirem dados experimentais que
conflitam com este, a participação do
hipocampo na regulação do comportamento
emocional é hoje geralmente admitida. Outra função
importante do hipocampo é a sua participação
no fenômeno da memória que será
estudado no próximo item.
6.4.2
– Participação dos Mecanismos da
Memória
Pode-se
distinguir dois tipos de memória: memória
recente, que permite a retenção de informações
durante pouco tempo (horas ou dias), e memória
remota, ou permanente, na qual esta retenção
pode permanecer por vários anos (alguns admitem
também a existência de uma memória
imediata em que a retenção de informações
dura apenas alguns segundos). A memória remota
é muito estável e mantém-se inalterada
mesmo após danos cerebrais graves, enquanto a
memória recente é mais lábil e
pode ser comprometida em várias situações
patológicas. Não se sabe exatamente onde
são armazenadas as informações
no caso da memória remota, mas admite-se que
isso ocorra em áreas de associação
do neocórtex. Sabe-se, entretanto, que a memória
recente depende do sistema límbico, que está
envolvido nos processos de retenção e
consolidação de informações
novas e possivelmente também em seu armazenamento
temporário e transferência para áreas
neocorticais de associação para armazenamento
permanente.
A
evidência desses fatos veio, principalmente, do
estudo de pacientes nos quais foi feita a remoção
bilateral de parte do lobo temporal, contendo o hipocampo,
na tentativa de melhorar quadros graves de epilepsia.
Esses pacientes tornam-se incapazes de memorizar eventos
ou informações surgidos depois do ato
cirúrgico, quadro conhecido como amnésia
anterógrada. Assim, por exemplo, não
conseguem entender uma história ou uma novela
de televisão, pois não são capazes
de memorizar os nomes dos personagens ou os eventos
que precederam aquele que está lendo ou vendo.
Tipicamente,
há também perda de memória para
fatos ocorridos pouco antes da cirurgia (amnésia
retrógrada), mas, curiosamente, depois de
um certo ponto no passado todos os fatos podem ser lembrados
sem problemas, ou seja, a memória antiga permanece
normal. Certas habilidades motoras podem também
ser aprendidas, pois, a aprendizagem motora depende
do cerebelo. Sabe-se hoje que a síndrome amnésica
observada nesses casos se deve não só
à remoção do hipocampo, mas também
à lesão do corpo amigdalóide, que
participa dos mecanismos relacionados com a memória.
Assim, a destruição do hipocampo em macacos
causa um quadro moderado de amnésia, que se torna
muito mais grave, quando, simultaneamente, se destrói
também o corpo amigdalóide. Síndromes
amnésicas semelhantes à acima descrita
têm sido assinaladas, no homem, em conseqüência
de processos patológicos que acometem o sistema
límbico, não só em seus componentes
no lobo temporal, mas também no fórnix
e no corpo mamilar. É bem conhecida a síndrome
de Korsakoff, que resulta da degeneração
dos corpos mamilares em conseqüência de alcoolismo
crônico e na qual a amnésia anterógrada
é o sintoma mais importante.
Outro
quadro clínico em que ocorrem graves problemas
de memória é a doença de Alzheimer,
na qual há perda gradual da memória recente,
seguida, nas fases mais avançadas, de uma completa
deterioração de todas as funções
psíquicas com amnésia total. Parece que
os problemas de memória nesta doença se
devem a dois fatores principais. Um deles é a
degeneração dos neurônios colinérgicos
do núcleo basal de Meynert. Isso leva a uma perda
das fibras colinérgicas, que exercem ação
moduladora sobre a atividade dos neurônios do
sistema límbico e do neocórtex relacionados
com a memória. Outro fator, provavelmente mais
importante, descoberto recentemente (Hyman, B.T.; van
Hoesen, G.W.; Damásio, A.R. & Barnes, C.L.
– 1984 – Science 225:1168-1170.) , é
a degeneração seletiva de dois grupos
de neurônios do sistema límbico. Um deles
localiza-se no hipocampo, nas áreas que dão
origem às principais fibras eferentes desse órgão;
o outro se localiza na chamada área entorrinal,
no giro para-hipocampal, que constitui a porta de entrada
das vias que, do neocórtex, se dirigem a esse
giro e daí ao hipocampo. Desse modo, essas lesões
gradualmente levam a um total isolamento do hipocampo,
com conseqüências sobre a memória
que equivalem às que vimos acima para os casos
de ablação do hipocampo.
Embora
a participação do sistema límbico,
em especial do hipocampo e da amígdala, no processo
de consolidação da memória recente
e sua transformação em memória
remota seja hoje geralmente aceita, não se sabe
exatamente como isto se faz. A hipótese mais
tradicional é a apresentada acima, ou seja, a
memória recente é armazenada temporariamente
no hipocampo e na amígdala, sendo depois transferida
para o neocórtex para armazenamento permanente.
Outra hipótese é que a memória
recente já de início estaria no neocórtex,
onde seria gradualmente consolidada e transformada em
memória remota por ação do hipocampo
e da amígdala, agindo através de suas
conexões com o neocórtex. (Para mais informações
sobre este assunto, assim como outros problemas relacionados
com a memória, veja Squire, L.R. 1987 –
Memory and Brain, Oxford Univ. Press, Oxford, 315pp).
7.0 - CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Do
que foi exposto, verifica-se que as áreas encefálicas
relacionadas com o comportamento emocional ocupam territórios
muito amplos do telencéfalo e do diencéfalo,
nos quais se encontram as estruturas que integram o
sistema límbico, a área pré-frontal
e o hipotálamo. Além de sua participação
nos fenômenos emocionais, estas áreas regulam
as atividades viscerais através do sistema nervoso
autônomo. Verificou-se, assim, que estimulações
elétricas em várias áreas do hipotálamo,
da área pré-frontal ou do sistema límbico
determinam manifestações viscerais diversas,
tais como salivação, sudorese, dilatação
pupilar, modificações do ritmo cardíaco
ou respiratório. O fato de que as mesmas áreas
encefálicas que regulam o comportamento emocional
também regulam o sistema nervoso autônomo
se torna mais significativo se considerarmos que as
emoções se expressam em grande parte através
de manifestações viscerais (choro no homem,
aumento de salivação e eriçar dos
pêlos em um gato com raiva) e são geralmente
acompanhadas de alterações da pressão
arterial, do ritmo cardíaco ou do ritmo respiratório.
Torna-se mais fácil entender, também,
que muitos distúrbios emocionais resultam em
afecções viscerais, sendo um exemplo clássico
o caso das úlceras gástricas e duodenais.
Estas inclusive podem ser provocadas por estimulações
crônicas do hipotálamo.
Merece
consideração especial o problema das localizações
funcionais no hipotálamo, sistema límbico
e na área pré-frontal. Essas localizações,
de um modo geral, são pouco precisas e, no que
se refere às manifestações viscerais,
são muito menos precisas do que as existentes
em áreas relacionadas com a regulação
de funções somáticas. No hipotálamo
pode-se distinguir uma área predominantemente
simpática (hipotálamo posterior) e outra
predominantemente parassimpática (hipotálamo
anterior); o mesmo não ocorre na área
pré-frontal ou no sistema límbico. Com
efeito, estimulações em uma determinada
área límbica podem resultar inicialmente
em hipertensão seguida de hipotensão.
Lesões ou estimulações de uma mesma
área podem resultar em fenômenos muito
diferentes, como diminuição da agressividade
e aumento da atividade sexual. Por outro lado, o mesmo
tipo de fenômeno, como aumento da agressividade,
pode resultar de lesões em territórios
diferentes e, às vezes, distantes, como o núcleo
ventral medial do hipotálamo e a área
septal. Admite-se que isto se deva ao fato de que a
regulação de muitos tipos de comportamento
e atividades viscerais depende não de áreas
isoladas e estanques, mas de circuitos que podem envolver
áreas muito distantes.
A propósito
das localizações funcionais no hipotálamo
e no sistema límbico, cabe uma referência
às experiências de auto-estimulação
que permitiram a localização de "áreas
do prazer" no cérebro. Estas experiências
foram realizadas pela primeira vez por Olds e Milner
em ratos nos quais foram implantados cronicamente eletrodos
em várias partes do cérebro. Pressionando
uma alavanca, os animais podiam estimular eletricamente
uma determinada área do próprio cérebro,
havendo ainda um dispositivo capaz de registrar automaticamente
o número de estimulações por minuto.
Com este método, verificou-se que os animais
evitam estimular determinadas áreas do cérebro
(áreas de punição), mas
estimulam com uma freqüência muito alta um
grande número de áreas (áreas
de recompensa), onde, segundo se admite, a estimulação
resulta em prazer para o animal. O número de
estimulações em algumas áreas atinge
8.000 por hora, ocupando todo o tempo do animal, que
deixa de ingerir água ou alimento estimulando-se
até a exaustão. Com esta técnica,
verificou-se que as áreas de recompensa são
em número muito maior do que as áreas
de punição, localizando-se principalmente
no sistema límbico e no hipotálamo. Entre
as áreas que determinam estimulações
com freqüência mais elevada destacam-se a
área septal e as regiões percorridas pelo
feixe prosencefálico medial. De um modo geral,
as áreas de recompensa do cérebro correspondem
às áreas relacionadas com os processos
motivacionais primários, como a fome, a sede
e o sexo. Com base nisto, admite-se que a auto-estimulação
causaria nos animais uma sensação de prazer
que seria semelhante à sentida quando o animal
satisfaz sua fome, sua sede ou sua necessidade sexual.
Esta hipótese foi em parte confirmada em experiências
de auto-estimulação realizadas em pacientes
humanos, como tentativa de tratamento de doenças
mentais.
Do
ponto de vista neuroquímico, as áreas
encefálicas relacionadas com o comportamento
emocional são muito importantes porque apresentam
enorme diversidade de substâncias ativas, destacando-se
os peptídeos, os opiáceos e as monoaminas,
estas, como já foi visto, originadas em grande
parte de neurônios do tronco encefálico.
A riqueza dessas áreas em monoaminas, em especial,
noradrenalina, serotonina e dopamina, é muito
significativa, tendo em vista que muitos medicamentos
usados em psiquiatria para tratamento de distúrbios
do comportamento e da afetividade agem modificando o
teor de monoaminas cerebrais. Sabe-se também
que muitos neurônios do hipotálamo e do
sistema límbico possuem receptores para hormônios
circulantes, em especial hormônios sexuais, que,
assim, são capazes de modular a atividade desses
neurônios e influenciar os processos emocionais
e motivacionais que eles regulam.
Pesquisas
recentes indicam também que substâncias
ativas presentes no sistema límbico, como algumas
monoaminas e o opióide endógeno beta-endorfina,
exercem uma ação moduladora sobre a memória,
podendo facilitar ou inibir o processo de memorização
(A descoberta do papel da beta-endorfina na modulação
da memória deve-se ao neuroquímico Ivan
Izquierdo (Psychopharmacologym 66:199-203, 1979). Para
mais informações sobre este assunto, veja
Izquierdo, I. – 1983 – Ciência Hoje
2, nº 8: 27-31 e Izquierdo, I. – 1986 –
Ciência Hoje 5, nº 25: 81-84).
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