| CIRURGIA
PARA DISTÚRBIOS PSIQUIÁTRICOS
G.
Rees Cosgrove, MD, FRCS(C) -
Professor Associado de Cirurgia da Escola de Medicina
de Harvard.
Neurocirurgião do Massachusetts General Hospital,
em Boston, MA.
Sinopse
A
abordagem terapêutica moderna para a maioria das
doenças psiquiátricas envolve uma combinação
de psicoterapia bem supervisionada, farmacoterapia e
eletroconvulsoterapia. Os pacientes que deixam de responder
de modo adequado a esses métodos modernos de
tratamento e permanecem gravemente incapacitados podem
ser considerados para uma intervenção
cirúrgica. A cingulotomia, a capsulotomia, a
tractotomia subcaudada e a leucotomia límbica
são os procedimentos psicocirúrgicos mais
comuns realizados atualmente, com taxas de resposta
na faixa de 35% a 65%. As técnicas estereotáxicas
modernas têm reduzido as taxas de complicações,
mas ainda continua a controvérsia referente ao
procedimento cirúrgico ótimo. As principais
categorias diagnósticas psiquiátricas
que poderiam responder à cirurgia incluem transtornos
afetivos maiores refratários a tratamento, transtorno
obsessivo-compulsivo e estados de ansiedade crônica.
A cirurgia deve ser considerada como parte de um plano
de tratamento e acompanhada por um programa de reabilitação
psiquiátrica apropriado, além de ser realizada
somente por uma equipe multidisciplinar especializada,
consistindo em neurologista, neurocirurgião e
psiquiatra com experiência nesses transtornos.
A intervenção cirúrgica continua
a ser opção terapêutica razoável
para selecionar os pacientes com doença psiquiátrica
incapacitante e pode ser subutilizada.
Introdução
Atualmente,
a abordagem terapêutica aceita para tratar a maioria
das doenças psiquiátricas envolve uma
combinação de psicoterapia, farmacoterapia
e, em algumas circunstâncias, eletroconvulsoterapia
(ECT). Entretanto, alguns pacientes deixam de responder
adequadamente a todas as intervenções
terapêuticas existentes e continuam gravemente
incapacitados. Para esses pacientes, a intervenção
cirúrgica poderia ser considerada apropriada
se o nível global de funcionamento pudesse ser
melhorado.
A cirurgia
para doença psiquiátrica intratável
envolve a ablação ou a desconexão
de tecido cerebral com a intenção de alterar
estados afetivos e comportamentais anormais causados
por doença mental. É classificada como
procedimento neurocirúrgico porque tenta melhorar
ou restaurar a função por alteração
da fisiologia subjacente. Infelizmente, a base neurobiológica
da maioria das doenças psiquiátricas continua
mal compreendida e sua expressão envolve sintomas
mentais ou psíquicos sem anormalidades fisiológicas
localizadas ou sinais físicos objetivos. Ademais,
concepções profissionais e públicas
atuais errôneas e vieses referentes à doença
psiquiátrica costumam dificultar a justificativa
de uma abordagem cirúrgica.
Todavia,
a cirurgia para doença psiquiátrica foi
freqüentemente aplicada, no passado, para tratar
vários distúrbios psiquiátricos,
inclusive transtornos afetivos, transtorno obsessivo-compulsivo
(TOC) e esquizofrenia. Entre 1942 e 1954, mais de 10
mil casos na Inglaterra e no País de Gales e
mais de 18 mil casos nos Estados Unidos foram realizados¹.
No entanto, apesar ou possivelmente por causa de um
tal uso generalizado, a cirurgia para doença
psiquiátrica tem sido, em vários momentos,
entusiasticamente endossada e, em outros tempos, inteiramente
rejeitada pela classe médica e pela sociedade
em geral. Para compreender essa controvérsia,
deve-se apreciar a evolução histórica
da psicocirurgia.
Perspectiva
histórica
A
psicocirurgia teve início em 1936, em grande
parte por meio dos esforços do neurologista português
Egas Moniz². Após John Fulton³ descrever
os efeitos benéficos das corticectomias frontais
sobre o comportamento de dois primatas, Moniz percebeu
que intervenções semelhantes poderiam
ser aplicadas à condição humana.
Com seu retorno a Portugal, Moniz persuadiu seu colega
neurocirurgião, Almeida Lima, a injetar álcool
na substância branca dos lobos frontais de 20
pacientes institucionalizados. Eles observaram que 14
dos 20 pacientes mostraram melhora compensadora, tendo
essa experiência inicial recebido um apoio cauteloso.
Naquele
momento, não existiam opções de
tratamento farmacológicas satisfatórias,
e várias terapias somáticas não
comprovadas estavam em uso, inclusive a terapia pelo
choque insulínico, a terapia do choque e a ECT.
Os hospícios transbordavam de doentes mentais,
e a doença psiquiátrica era uma grande
questão de saúde pública; portanto,
apesar de uma falta de benefícios terapêuticos
objetivos e das preocupações sobre os
efeitos colaterais potencialmente lesivos, a psicocirurgia
foi adotada entusiasticamente pelos profissionais em
atividade naquela época. Moniz cunhou o termo
psicocirurgia para essa nova intervenção,
e suas contribuições foram finalmente
reconhecidas, em 1949, quando recebeu o Prêmio
Nobel de Medicina "por sua descoberta do valor
terapêutico da leucotomia pré-frontal em
certas psicoses" 4.
Um
dos proponentes mais entusiastas da psicocirurgia foi
Walter Freeman, um neuropsiquiatra. A alguns meses da
publicação de Moniz, Freeman5 realizou
a primeira lobotomia pré-frontal nos EUA com
a ajuda neurocirúrgica de James Watts. A lobotomia
pré-frontal de Freeman-Watts era realizada por
meio de trepanações bilaterais feitas
na região frontal inferior no nível da
sutura coronal. Esse procedimento de desconexão
era executado com um leucótomo calibrado, desenhado
especialmente para esse fim, a que era introduzido às
cegas até a linha média, fazendo um movimento
de vaivém para interromper cirurgicamente os
tratos de substância branca nos lobos frontais.
Em 1942, Freeman e Watts relataram resultados favoráveis
para os primeiros 200 pacientes, embora admitissem uma
taxa de complicações significativa, incluindo
síndrome do lobo frontal, crises convulsivas,
apatia, diminuição da atenção
e comportamento inadequado5. Eles relataram
que os pacientes "já não ficavam
perturbados por seus conflitos mentais, mas também
pareciam ter pequena capacidade para qualquer experiência
emocional" 5. Apesar desses efeitos
colaterais, a lobotomia pré-frontal passou a
ser amplamente realizada nos EUA, em grande parte pela
falta de alternativas terapêuticas satisfatórias
e pelo zelo promocional do próprio Freeman, que
se tornou um proponente tão agressivo e entusiasmado
da psicocirurgia que perdeu a confiança e a colaboração
de seu neurocirurgião e elaborou a leucotomia
transorbitária6, que incluía
inserir uma lâmina afiada sob as pálpebras
e através do fino teto orbitário até
a superfície inferior dos lobos frontais. Esse
procedimento foi realizado pelo próprio Freeman
em pacientes no período pós-ictal imediato
após a administração de ECT6.
Essas
técnicas cirúrgicas iniciais eram grosseiras,
imprecisas e associavam-se a uma grande morbimortalidade.
As complicações de tais procedimentos
eram significativas e incluíam hemorragia intracraniana
grave (especialmente da artéria cerebral anterior),
epilepsia pós-cirúrgica e aumento de volume
inadvertido da lesão1. Relataram-se
taxas de mortalidade de até 10% 4.
Eram vistas alterações significativas
de personalidade, como uma síndrome orgânica
do lobo frontal, manifesta por diminuição
da atenção, apatia e desinibição.
No auge do entusiasmo pela psicocirurgia, foi recomendada
para curar ou abrandar esquizofrenia, depressão,
homossexualismo, transtornos comportamentais da infância,
comportamento criminoso e violência incontrolável.
Estima-se que mais de 50 mil procedimentos foram realizados
apenas nos EUA entre 1936 e meados da década
de 19504; grande parte da controvérsia
em torno da psicocirurgia pode estar relacionada a sua
aplicação ardorosa demais e, algumas vezes,
indiscriminada durante esse período.
Ainda
em 1941, havia muita discussão entre neurologistas,
neurocirurgiões e psiquiatras com referência
aos aspectos científicos, éticos e técnicos
da psicocirurgia. Esse debate e a freqüência
dos efeitos colaterais prejudiciais estimularam uma
produção intensa de ensaios mais rigorosos
com o objetivo de reduzir o tamanho das lesões
e direcionar as lesões a regiões cerebrais
específicas. Com a introdução das
técnicas estereotáxicas modernas, em 1947,
ficaram disponíveis métodos para lesionar
aguda e reprodutivelmente estruturas corticais e subcorticais.
Logo se seguiu uma evolução na técnica
cirúrgica: Foltz e White7, em 1962,
relataram sua experiência com a cingulotomia anterior;
Knight8, em 1964, relatou sua experiência
com a tractotomia subcaudada; Leksell9, em
1972, relatou sua experiência com a capsulotomia
anterior; e Kelley10, em 1973, relatou sua
experiência com a leucotomia límbica.
Embora
a lobotomia frontal grosseira dos primeiros anos tivesse
sido abandonada, em favor de intervenções
estereotáxicas mais seletivas, e o número
de procedimentos realizados estivesse significativamente
reduzido, a preocupação com o uso de psicocirurgia
cresceu durante as décadas de 1960 e 1970, em
razão das questões sobre eficácia,
dos relatos de seqüelas permanentes e do potencial
para abuso - todas abastecidas por publicações
da imprensa leiga. O debate público nos EUA,
na Inglaterra e na Austrália apressou a formação
de comissões nacionais para investigar a psicocirurgia
e incentivou a legislação para regulamentar
seu uso.
Nos
EUA, o relatório da National Commission for the
Protection of Human Subjects of Biomedical and Behavioral
Research11 indicou que a psicocirurgia foi
eficaz em mais da metade das 400 cirurgias realizadas
anualmente entre 1971 e 1973 e que nenhum déficit
psicológico poderia ser atribuído aos
procedimentos. Concluiu-se que os temores quanto ao
uso da psicocirurgia em populações minoritárias
e carentes para controle social não têm
fundamento. Estudos pré e pós-operatórios12
feitos por observadores independentes com um grupo de
pacientes menores submetidos à cingulotomia demonstraram
excelentes resultados na maioria dos pacientes, com
melhora significativa do QI verbal em escala total e
do desempenho na escala Wechsler de QI. Testes neuropsicológicos
detalhados dos pacientes submetidos a vários
dos procedimentos psicocirúrgicos mais extensos
também não demonstraram qualquer piora,
exceto em uma categoria isolada (Wisconsin Card-Sorting
Test), porém mais de 50% desses pacientes apresentaram
acentuada melhora dos sintomas psiquiátricos13.
Essas avaliações, independentemente de
resultados e de efeitos colaterais, pareceram corroborar
a experiência prevalente publicada. Séries
clínicas mais modernas14-17 relatam
taxas de sucesso semelhantes de 25% a 60%, dependendo
do diagnóstico psiquiátrico e da metodologia.
Os resultados argumentam contra a percepção
pública inicial de que a psicocirurgia seja perigosa,
ineficaz e experimental, mas a oposição
continua, apesar de sua aceitação formal
em declarações de posicionamento pela
psiquiatria organizada em muitos países do mundo.
Anatomia
e fisiologia
A
base teórica da cirurgia para doença psiquiátrica
baseia-se em um conhecimento minucioso da anatomia,
da fisiologia e da bioquímica. Conquanto Moniz
tenha feito publicidade de sua experiência inicial
com lobotomia pré-frontal, o conceito de função
cerebral localizada estava sendo elucidado. Papez18
descreveu o conceito de sistema límbico, propondo
que as interconexões entre lobos frontais e estruturas
subcorticais formem a base anatômica para as emoções
e a memória. Os componentes desse circuito incluem
hipotálamo, núcleos do septo, hipocampo,
corpos mamilares, núcleos talâmicos anteriores
e giros cingulados. Esse sistema foi ainda expandido
por McLean19, que incluiu estruturas paralímbicas,
como o córtex frontal orbital, o córtex
insular, o córtex temporal anterior, a amígdala
e os núcleos talâmicos dorsomediais. Essas
estruturas paralímbicas formam a ligação
entre o neocórtex e o sistema límbico
próprio, estando, portanto, localizadas estrategicamente
de modo a interconectar estímulos somáticos
e viscerais com funções corticais superiores
e percepções.
No
presente, há várias linhas de evidências
que envolvem o sistema límbico na fisiopatologia
da emoção humana e da doença psiquiátrica.
A estimulação elétrica de áreas
específicas no interior do sistema límbico
(ou seja, no cíngulo anterior) no homem tem demonstrado
alterar respostas autônomas e ansiedade20,21.
Tanto os potenciais evocados corticais quanto os registros
por microeletrodos nos giros cingulados do homem têm
demonstrado alteração de resposta à
percepção de estímulos dolorosos22.
A estimulação do hipotálamo em
animais produz efeitos autônomos, endócrinos
e motores complexos, sugerindo que o hipotálamo
integre e coordene a expressão comportamental
de estados emocionais23.
Modelos
neurobiológicos contemporâneos de ansiedade
e de transtornos afetivos também incluem o papel
fundamental do sistema límbico. Os modelos neuroquímicos
indicam que os transtornos afetivos e de ansiedade podem
ser mediados por sistemas monoaminérgicos, sendo
o sistema serotoninérgico particularmente importante
no TOC. Em vários outros estudos, a dopamina,
a noradrenalina, a serotonina e a acetilcolina têm
sido investigadas, e parece evidente que mais de um
sistema esteja envolvido.
Dados
mais recentes obtidos por neuroimagens24,25
reiteram a importância dos sistemas límbico
e paralímbico na doença psiquiátrica.
Imagens anatômicas com ressonância magnética
(RM) morfométrica de alta resolução
demonstram anormalidades focais nessas áreas
estriatais e núcleos caudados menores em pacientes
com TOC24,25. Neuroimagens funcionais sugerem
que alterações metabólicas no cingulado
anterior possam diferenciar o estado depressivo do não-depressivo
em indivíduos afetados. Estudos com tomografia
por emissão de pósitrons (PET)26
sugerem que a remissão da doença se associe
a um aumento do fluxo sangüíneo cerebral
no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo
e no córtex pré-frontal medial, inclusive
o cingulado anterior. Resultados semelhantes têm
sido obtidos usando Tc99m. Quando foi realizada a tomografia
computadorizada com emissão de fóton único
antes e depois de ECT, observou-se aumento significativo
da captação do radiofármaco nos
que responderam à ECT, em comparação
com os não-responsivos27. O aumento
de captação foi mais notável nos
cingulados anterior e posterior. Em um estudo de TOC
por provocação de sintomas usando PET,
Rauch e cols.28 implicaram ainda mais o córtex
orbitofrontal, o núcleo caudado e o córtex
cingulado anterior na fisiopatologia do TOC. Outros
estudos29,30 respaldam esses achados e revelam
um tema comum correlacionando a perfusão do cingulado
anterior com alterações nos sintomas depressivos
ou hipometabolismo do caudado no TOC.
Conquanto
a neuroanatomia, a neuroquímica e a neurofisiologia
das doenças psiquiátricas sejam complexas
e ainda não tenham sido inteiramente compreendidas,
evidências acumuladas sugerem que o sistema límbico
esteja claramente envolvido, o que está estimulando
mais investigações.
Critérios
de seleção
Somente
pacientes com doença psiquiátrica grave,
incapacitante e refratária a tratamento devem
ser considerados para uma intervenção
cirúrgica. Deve-se provar que a doença
é refratária a tentativas sistemáticas
de tratamento farmacológico e psicológico
e, quando apropriado, usar a ECT antes de se pensar
em intervenção neurocirúrgica.
Em geral, concorda-se que a cirurgia continua a ser
"o último recurso para pacientes gravemente
incapacitados que não tenham respondido a todos
os outros tratamentos farmacológicos e comportamentais
de ponta"31. Como em todas as decisões
médicas, o benefício em potencial de tal
intervenção deve ser pesado contra os
riscos impostos pela cirurgia.
Os
principais grupos de diagnóstico psiquiátrico
- definidos pelo Diagnostic and Statistical Manual of
Mental Disorders IV (DSM-IV) - que poderiam beneficiar-se
de intervenção cirúrgica incluem
o TOC e o transtorno afetivo maior (ou seja, depressão
maior ou transtorno bipolar). Em muitos casos, os pacientes
apresentam-se com transtornos mistos, combinando sintomas
de ansiedade, depressão e TOC. Devido à
gravidade da doença, muitos pacientes com diagnóstico
primário de TOC terão depressão
concomitante refratária ao tratamento; esses
pacientes continuam candidatos à neurocirurgia.
A esquizofrenia atualmente não é considerada
indicação de cirurgia. História
de transtorno de personalidade, abuso de substâncias
psicoativas ou outra sintomatologia do eixo II costumam
ser contra-indicações relativas à
cirurgia. Somente em casos raros os pacientes com crises
violentas graves e com potencial para lesão grave
ou automutilação devem ser considerados
para amigdalotomia bilateral, talamotomia, hipotalamotomia
ou leucotomia límbica.
A avaliação
atenta sobre a possibilidade de se fazer psicocirurgia
requer que os critérios como gravidade, cronicidade,
incapacidade e refratariedade relativos ao tratamento
sejam operacionalizados para formar diretrizes. Com
referência a isso, a cronicidade exigiria pelo
menos um ano de duração dos sintomas sem
remissão significativa, embora, falando de maneira
prática, a confirmação da refratariedade
ao tratamento geralmente exija mais de cinco anos de
doença antes da cirurgia. A gravidade geralmente
é medida usando instrumentos de pesquisa clínica
validados, correspondentes aos indicadores específicos,
como a pontuação da Yale-Brown Obsessive
Compulsive Scale acima de 20 para TOC ou a pontuação
acima de 30 no Beck Depression Inventory. A incapacidade
pode ser refletida, por exemplo, por uma pontuação
na Global Assessment of Function abaixo de 50.
A fim
de determinar se a doença psiquiátrica
de um paciente é refratária ao tratamento,
apesar dos cuidados apropriados, o paciente deve ser
encaminhado para intervenção cirúrgica
pelo psiquiatra que faz seu tratamento. Este profissional
deve demonstrar um compromisso contínuo com o
paciente e com o processo de avaliação
e, também, concordar em ser responsável
pela conduta pós-operatória. O psiquiatra
deve providenciar questionários detalhados que
documentem o grau e a gravidade da doença, bem
como relato minucioso da história diagnóstica
e terapêutica. As especificações
das tentativas farmacológicas devem incluir os
agentes usados, as doses, a duração, a
resposta e a razão para interrupção
em qualquer tentativa subótima. Tentativas adequadas
de ECT ou de terapia comportamental, quando clinicamente
apropriadas, também devem ser demonstradas.
O paciente
e sua família também devem concordar em
participar inteiramente do processo de avaliação,
bem como do programa de tratamento psiquiátrico
pós-operatório. Em geral, são aceitos
somente pacientes adultos (acima de 18 anos de idade)
capazes de dar um consentimento informado e que expressem
genuíno desejo de prosseguir para a cirurgia.
Obviamente, a cirurgia só deve ser realizada
para ajudar um paciente, jamais por razões sociais
ou políticas.
Avaliação
pré-cirúrgica no Massachusetts General
Hospital
No
Massachusetts General Hospital (MGH), caso o paciente
satisfaça os critérios anteriormente descritos,
passa por uma avaliação pré-cirúrgica
mais detalhada feita por um grupo multidisciplinar experiente
de psiquiatras, neurocirurgiões e neurologistas
(o Comitê de Avaliação de Cingulotomia
do MGH). Executa-se minuciosa revisão do prontuário
médico para assegurar que a doença seja,
de fato, refratária a todas as terapias convencionais.
A avaliação do MGH também inclui
eletroencefalograma, RM cerebral, testes neuropsicológicos
e exames clínicos conduzidos, independentemente,
por um psiquiatra, um neurologista e um neurocirurgião
em um ambiente ambulatorial. São solicitados
eletrocardiograma e exames laboratoriais apropriados
para avaliar os riscos clínicos e excluir etiologias
orgânicas para as anormalidades do estado mental.
São empregados instrumentos validados de pesquisa
clínica para quantificar a gravidade dos sintomas
psiquiátricos.
O paciente
deve satisfazer de modo unânime os critérios
de seleção para que a cirurgia seja indicada
e ter cumprido as exigências de consentimento
informado. Em uma revisão desse tópico,
Stagno e cols.31 fornecem excelente discussão
sobre o tema: "A liberdade de escolha é
questão especialmente complexa para TOC. A complexidade
emerge porque os pacientes com TOC costumam estar desesperados
por alívio de seu distúrbio". Portanto,
deve ser determinado pelo comitê se o paciente
e sua família concordam em participar das avaliações
pré e pós-operatórias e nos processos
de tratamento e se são capazes de dar consentimento
informado. Um familiar ou parente próximo também
deve compreender o processo de avaliação,
as indicações para a cirurgia, os riscos
desta e as alternativas à cirurgia. Também
devem concordar em estar à disposição
para fornecer suporte emocional ao paciente durante
a hospitalização.
Técnicas
cirúrgicas, resultados e complicações
No
presente, as abordagens cirúrgicas em geral consistem
em um entre quatro procedimentos distintos: cingulotomia,
tractotomia subcaudada, leucotomia límbica e
capsulotomia anterior. Todos são, na atualidade,
realizados bilateralmente e utilizam técnicas
estereotáxicas. Em alguns casos, são realizadas
repetições dos procedimentos, a fim de
ampliar as lesões. É impossível
uma comparação direta desses diferentes
procedimentos entre vários centros por causa
das imprecisões de diagnóstico, dos instrumentos
de avaliação pré-cirúrgicos
não padronizados, do viés entre os centros
e das escalas variadas de avaliação dos
resultados. No entanto, cada procedimento pode ser discutido
com respeito a indicações, técnica,
resultados e complicações.
Cingulotomia
A
cingulotomia tem sido o procedimento cirúrgico
de escolha na América do Norte nos últimos
40 anos. Ballantine32 demonstrou a segurança
e a eficácia da cingulotomia em grande número
de pacientes, que tem sido usada para tratar transtornos
afetivos maiores, estados crônicos de ansiedade,
TOC e dor crônica intratável.
A cingulotomia
é realizada usando moldura estereotáxica
compatível com RM sob anestesia local e com sedação
intravenosa. São feitas imagens coronais oblíquas
ponderadas em T1, e as coordenadas-alvo são calculadas
para um ponto no giro cingulado anterior 20 mm a 25
mm posteriormente à ponta dos cornos frontais,
7 mm a partir da linha média e 1 mm acima do
teto do ventrículo. Para assegurar a ablação
do fascículo cingulado inteiro, podem ser calculados
alvos adicionais a 14 mm da linha média, imediatamente
superiores ao teto do ventrículo lateral. São
criadas lesões por termocoagulação
usando radiofreqüência por inserção
do eletrodo no alvo e aquecimento a 85°C por 90
segundos. O eletrodo é então retirado
10 mm e realiza-se uma segunda lesão. Essa técnica
resulta em uma lesão com aproximadamente 2 cm
de altura e 8 mm a 10 mm de diâmetro14.
Sintomas
menores de cefaléia, febre baixa e náuseas
são comuns depois de cingulotomia (como em todos
os procedimentos estereotáxicos), mas, em geral,
duram de 24 a 48 horas. Podem ocorrer temporariamente
marcha instável, tonturas, confusão, retenção
urinária e crises convulsivas isoladas; embora
geralmente leves e autolimitados, esses sintomas podem
durar por várias semanas. Declínio comportamental
ou cognitivo permanente significativo não tem
sido observado após a cingulotomia. Uma análise
independente com 13 de 57 pacientes antes e depois da
cingulotomia não mostrou evidências de
déficits neurológicos ou comportamentais
duradouros depois da cirurgia. De fato, uma comparação
das pontuações de QI no pré e no
pós-operatório pela escala Weschler demonstrou
ganhos significativos no pós-operatório.
Essa melhora foi maior nos pacientes com dor crônica
e depressão, porém desprezível
naqueles com diagnóstico de esquizofrenia. É
extremamente rara a morbidade maior, havendo apenas
quatro hemorragias intracranianas e nenhum óbito
em quase mil cingulotomias realizadas no Massachusetts
General Hospital nos últimos 40 anos.
Em geral, há uma demora para o início
de qualquer efeito benéfico sobre a depressão
e o TOC após cingulotomia, chegando o período
de latência a 3 a 6 meses. Ballantine33
relatou melhora significativa em 62% dos pacientes no
total, 64% dos pacientes com depressão maior
e 33% dos pacientes com TOC. Estudos retrospectivos
e prospectivos modernos usando critérios de resultados
mais rígidos demonstraram que somente um terço
dos pacientes se beneficiou substancialmente da cingulotomia.
Usando as medidas de resultados idênticas empregadas
por Ballantine33, estudos mais recentes14
produziram taxas de sucesso semelhantes, enfatizando
as escalas com classificação de resultados.
Os pacientes com transtornos afetivos parecem responder
melhor que aqueles com TOC, e aproximadamente 40% deles
exigirão mais de um procedimento14.
Tractotomia
subcaudada
A
tractotomia subcaudada foi introduzida por Sir Geoffrey
Knight8 e tem sido usada extensamente no
Reino Unido desde 1963 como tratamento para transtornos
afetivos maiores, TOC, estados de ansiedade crônica
grave e vários outros distúrbios psiquiátricos.
O intuito do procedimento é interromper os tratos
de substância branca entre o córtex orbitário
e as estruturas subcorticais, fazendo uma lesão
na região da substância inominada imediatamente
abaixo da cabeça do núcleo caudado.
O procedimento
cirúrgico foi inicialmente realizado usando pontos
de referência ósseos e ventriculografia.
As coordenadas de alvo foram calculadas em 15 mm a partir
da linha média e aproximadamente 10 mm a 11 mm
acima do plano esfenoidal na parte mais anterior da
sela túrcica. As técnicas estereotáxicas
modernas guiadas por RM agora têm suplantado esses
métodos ultrapassados com visualização
direta da região subcaudada. As lesões
foram inicialmente criadas por implantação
de duas fileiras de cinco sementes de ítrio-90
radioativo e volumes de lesão resultantes da
ordem de 2 ml, mas tem sido empregada a termocoagulação
em outros lugares8.
As
complicações vistas em uma série15
de 208 casos foram poucas, mas incluíram confusão
mental transitória pós-operatória
(10%), crises convulsivas pós-operatórias
(2%) e acentuação de traço de personalidade
indesejável (7%). A principal morbidade incluiu
um caso de coma e um caso de óbito por destruição
inadvertida do hipotálamo quando semente de ítrio-90
migrou do alvo15.
As
primeiras revisões8 de resultados
clínicos após tractotomia subcaudada sugeriram
bons resultados em 68% dos pacientes que sofriam de
depressão e em 50% dos pacientes com TOC. Os
pacientes com esquizofrenia, transtorno de personalidade,
abuso de substâncias psicoativas ou abuso de álcool
não mostraram bons resultados. Uma revisão
mais recente15 da experiência entre
1979 e 1991, feita pela Geoffrey Knight National Unit
for Affective Disorders, em Londres, verificou que somente
34% dos pacientes estavam bem um ano após a cirurgia.
Sintomas vegetativos de depressão apresentam
menos probabilidade de melhorar do que os sintomas de
ansiedade e afeto depressivo. Alguns pacientes tiveram
apenas benefício temporário de sua lesão
inicial e viu-se benefício em uma segunda lesão15.
Embora tenha havido críticas a esses dados por
causa do acompanhamento de curto prazo e de categorias
de resultados "idiossincráticos", os
resultados globais parecem ser paralelos aos da cingulotomia.
Leucotomia
límbica
A
leucotomia límbica foi introduzida por Kelly10,
em 1973, e é uma combinação dos
dois procedimentos descritos previamente, cingulotomia
anterior e tractotomia subcaudada. Kelly raciocinou
que essas duas lesões poderiam levar a um resultado
melhor quanto aos sintomas de TOC do que qualquer uma
das duas lesões isoladamente por desconexão
das vias orbitofrontotalâmicas e lesão
do cíngulo. As indicações para
esse procedimento incluem TOC, estados ansiosos crônicos
e depressão maior, juntamente com vários
outros diagnósticos psiquiátricos.
O procedimento
é executado estereotaxicamente e são feitas
lesões de 6 mm no quadrante medial inferoposterior
de cada lobo frontal, juntamente com duas lesões
em cada giro cingulado. As lesões foram criadas
usando criossonda ou termocoagulação.
No intra-operatório, estimulava-se a região
subcaudada e, se fossem observadas respostas autônomas,
isso era interpretado como prova fisiológica
de localização correta da lesão.
As
complicações incluem confusão mental
e incontinência urinária transitórias
no pós-operatório imediato; também
foram observadas queixas persistentes de letargia (12%),
leves alterações de personalidade (7%)
e um caso de perda de memória permanente em razão
de uma lesão feita de modo impreciso. Nenhum
paciente observou crises convulsivas no pós-operatório,
mas, dada a incidência de 2% a 5% após
cingulotomia ou tractotomia subcaudada isoladamente,
esperar-se-ia que isso aparecesse em uma série
maior. Não se observou comprometimento cognitivo
importante, e as medidas do QI mostraram discreta melhora
no pós-operatório34.
Como
em outros procedimentos, a melhora de sintomas no pós-operatório
não foi imediata, com uma redução
flutuante, porém progressiva, de sintomas em
relação ao primeiro ano de pós-operatório.
Dos pacientes com TOC, 89% melhoraram clinicamente;
daqueles com ansiedade crônica, 66% melhoraram;
dos com depressão 78% melhoraram34.
A análise mais rigorosa, usando escalas clínicas
de classificação validadas e observadores
sem viés, não tem sido aplicada a esses
dados, embora trabalhos mais recentes16 sugiram
benefício em menor número de pacientes.
Capsulotomia
anterior
Embora
Talairach35 tenha sido o primeiro a descrever
a capsulotomia anterior, Leksell36 popularizou
a técnica para pacientes com vários distúrbios
psiquiátricos. O objetivo da capsulotomia anterior
é interromper as conexões frontotalâmicas
no pilar anterior da cápsula interna que passam
entre a cabeça do caudado e o putâmen.
As indicações clínicas para capsulotomia
inicialmente incluíam esquizofrenia, depressão,
estados crônicos de ansiedade e neurose obsessiva36.
As
localizações-alvo estão no terço
anterior do pilar anterior da cápsula interna,
5 mm atrás da ponta dos cornos frontais, 20 mm
lateralmente à linha média no nível
do plano intercomissural. As técnicas estereotáxicas
acopladas à RM agora podem visualizar diretamente
a cápsula anterior, e as coordenadas do alvo
são calculadas com base na anatomia individual
do paciente. As lesões, em geral, têm sido
produzidas por termocoagulação e devem
ter 10 mm a 12 mm de altura e 4-5 mm de largura. Ocasionalmente,
as lesões são feitas por meios radiocirúrgicos.
As
complicações da capsulotomia, em uma série
de 115 pacientes, incluem confusão mental transitória
(86%), incontinência (27%) e cansaço (32%).
Um paciente apresentou hemorragia intracraniana e um
outro desenvolveu crises convulsivas. O ganho de peso
é comum, com média total de 10% de ganho.
Não se relataram evidências de disfunção
cognitiva em mais de 200 pacientes de capsulotomia estudados
com o uso de vários testes psicométricos,
embora deficiência de memória e comportamento
desmazelado fossem notados em alguns pacientes9.
Em
uma revisão de todos os casos de capsulotomia
relatados na literatura, Mindus17 verificou
dados suficientes para categorizar os resultados em
213 de 362 pacientes. Desses, 137 (64%) foram classificados
como apresentando resultado satisfatório, sendo
a melhora mais significativa aquela dos pacientes com
depressão e TOC.
Discussão
Grande
parte da controvérsia que cerca o uso da cirurgia
para doença psiquiátrica intratável
pode ser atribuída à aplicação
razoavelmente indiscriminada e às altas taxas
de complicações dos procedimentos iniciais.
Os avanços recentes na cirurgia e nas técnicas
estereotáxicas certamente minimizaram os efeitos
colaterais, mas as questões de seleção
de casos e de localização das lesões
continuam a ser consideráveis. Uma crítica
válida à psicocirurgia é que a
base teórica da intervenção cirúrgica
para o tratamento de doença psiquiátrica
não foi bem estabelecida. Embora as evidências
científicas envolvam o sistema límbico
e suas interconexões na fisiopatologia dos principais
distúrbios psiquiátricos, continuam indefinidas
as bases neuroanatômica e neuroquímica
da emoção na saúde e na doença.
É possível que, à medida que os
conhecimentos fisiopatológicos da doença
psiquiátrica grave melhorem, a comunidade médica
e a sociedade em geral passem a aceitar mais esses procedimentos.
Críticas
à psicocirurgia também sugerem que a cirurgia
possa ser realizada antes que outras terapias alternativas
sejam suficientemente tentadas. Atualmente, apenas os
pacientes com doença psiquiátrica crônica,
grave e incapacitante, e que sejam completamente refratários
a qualquer terapia convencional, são considerados
para a cirurgia. Isso pressupõe que tentativas
sistemáticas bem documentadas do tipo farmacológico
e psicológico e, ainda quando apropriada, de
ECT tenham sido feitas, isoladamente ou combinadas,
antes de ser considerada a intervenção
neurocirúrgica. Somente quando um paciente deixa
de responder a todas as terapias disponíveis
e apropriadas, a intervenção cirúrgica
é julgada adequada como conduta de salvamento.
Embora o número de procedimentos psicocirúrgicos
realizado no mundo atualmente seja desconhecido, estima-se
que menos de 25 pacientes sejam operados anualmente
nos EUA e na Grã-Bretanha, e somente um a dois
pacientes por ano passam por psicocirurgia na Austrália;
portanto, as alegações de que a psicocirurgia
seja hiperutilizada parecem muito exageradas.
Houve
um tempo em que qualquer paciente com doença
psiquiátrica grave poderia ser considerado candidato
à intervenção cirúrgica,
sendo o único critério maior que o paciente
estivesse em um "estado constante de autopreocupação
torturante"5. Esse critério de
inclusão global criou uma população
de participantes muito heterogênea, tornando difícil
a comparação de resultados. A falta de
diagnóstico psiquiátrico preciso também
tornou impossível predizer os resultados com
base nas síndromes clínicas. Para fazer
justiça aos profissionais do passado, o diagnóstico
psiquiátrico era muito menos definido, e certos
diagnósticos, como o TOC, ainda não existiam
como entidades clínicas distintas. Agora está
claro que as indicações para psicocirurgia
são muito mais restritivas. De maneira geral,
há concordância de que pacientes com transtorno
afetivo maior, estados de ansiedade crônica e
TOC sejam os melhores candidatos à cirurgia.
Esses pacientes devem satisfazer os critérios
do DSM-IV para as categorias de diagnóstico respectivas.
Apesar do fato de a maioria dos pacientes submetidos
à psicocirurgia no passado apresentar diagnóstico
de esquizofrenia, a doença atualmente não
é considerada indicação para cirurgia.
Transtornos de personalidade ou transtorno por uso de
substâncias psicoativas são contra-indicações
relativas significativas à cirurgia.
A seleção
apropriada dos pacientes para cirurgia continua a ser
uma questão importante e de responsabilidade
do psiquiatra e de outros especialistas membros da equipe
psicocirúrgica. As objeções éticas
em relação ao uso de psicocirurgia têm
sido abordadas em todos os centros ao se receber um
consentimento informado do paciente e da família
sem coação, juntamente com a concordância
unânime dos médicos que fizeram o encaminhamento
e que estão tratando o paciente.
Como
falta lógica científica para a psicocirurgia,
as observações e conclusões referentes
a seu uso têm sido amplamente empíricas
e acumuladas no transcorrer de muitos anos provenientes
de várias instituições. Embora
muitas técnicas psicocirúrgicas tenham
sido usadas no passado, quatro procedimentos - cingulotomia
anterior, tractotomia subcaudada, leucotomia límbica
e capsulotomia anterior - têm evoluído
como os mais seguros e eficazes. Estes procedimentos
envolvem lesões dos territórios límbicos
ou paralímbicos ou interrupções
de suas conexões com estruturas cerebrais mais
profundas sendo realizados bilateralmente sob condições
estereotáxicas modernas para permitir a identificação
precisa e o lesionamento exato das estruturas-alvo.
Historicamente, todos os procedimentos psicocirúrgicos
têm sido direcionados a algum componente desse
sistema; entretanto, alguns autores preferem o termo
cirurgia do sistema límbico ao termo psicocirurgia.
Com os dados atualmente disponíveis, é
impossível determinar se há uma técnica
cirúrgica ou estratégia ótima.
Todos os procedimentos modernos parecem ser seguros
e bem tolerados, com relativamente poucos efeitos colaterais
ou complicações.
Avaliações
subjetivas dos resultados no passado permitiram aos
críticos da psicocirurgia contestar os resultados
com alguma validade. Dada a dificuldade de avaliar resultados
em distúrbios funcionais, mentais e comportamentais,
os critérios para cura ou melhora significativa
não são claros e jamais houve acordo universal
sobre eles. Também existem muitos obstáculos
que impedem uma comparação direta dos
resultados entre os centros, inclusive imprecisões
de diagnóstico, instrumentos de avaliação
pré-cirúrgica não-padronizados,
vieses entre centros e escalas variadas para avaliação
de resultados. No entanto, se uma classificação
de resultado global livre de sintomas ou muito melhorada
for considerada resposta satisfatória, então
em uma revisão recente37 dos procedimentos
neurocirúrgicos modernos em uma série
de pacientes com TOC a cingulotomia foi eficaz em 56%,
a leucotomia límbica foi eficaz em 61% e a capsulotomia
foi eficaz em 67%. Nos pacientes com transtorno afetivo
maior, a cingulotomia foi eficaz em 65%, a tractotomia
subcaudada foi eficaz em 68%, a leucotomia límbica
foi eficaz em 78% e a capsulotomia foi eficaz em 55%.
Com
base nesses métodos de comparação,
a superioridade clínica de qualquer um dos procedimentos
não é convincente, embora haja uma sugestão
de que a capsulotomia anterior e a leucotomia límbica
possam ser um pouco mais eficazes em pacientes com TOC.
A cingulotomia é mais comumente usada nos EUA,
enquanto na Europa a capsulotomia e a leucotomia límbica
são mais prevalentes. Todos os procedimentos
parecem aproximadamente equivalentes do ponto de vista
terapêutico, mas, em termos de efeitos colaterais
indesejáveis, a cingulotomia parece ser o mais
seguro de todos os procedimentos atualmente realizados.
Outra
crítica à psicocirurgia diz que, não
importa qual estrutura do sistema límbico seja
escolhida para ablação, o resultado clínico
parece semelhante. Essa falta de especificidade não
é necessariamente evidência contra seu
uso, já que muitos psicotrópicos e até
a ECT podem oferecer benefício para uma ampla
gama de distúrbios mentais. É mais provável
que enfatize nossos conhecimentos incompletos da base
neurobiológica das doenças psiquiátricas
e nossa falha em realizar ensaios controlados cuidadosos,
comparando diferentes técnicas cirúrgicas
dentro do mesmo centro.
Muitos
psiquiatras aceitariam prontamente um tratamento empírico,
caso os dados clínicos existentes respaldando
um resultado favorável fossem substanciais e
convincentes. Até o presente, poucos ensaios
prospectivos com acompanhamento por longo prazo foram
completados, mas esses parecem respaldar a afirmação
de que, até quando se usam critérios de
resultados mais rígidos, a cingulotomia e a capsulotomia
anterior são úteis em 25% a 50% dos pacientes
com TOC intratável. Usando critérios de
resultados menos rígidos, a melhora é
vista em 50% a 70% dos pacientes35, o que
é semelhante a estudos anteriores.
Conquanto
exista controvérsia referente à escolha
exata do procedimento cirúrgico a ser empregado,
há uma concordância plena de que a avaliação
pré-cirúrgica deve ser realizada por equipes
multidisciplinares empenhadas e com experiência
no tratamento cirúrgico de doenças psiquiátricas.
É essencial o diagnóstico com base em
um esquema de classificação formal. Embora
seja impossível desenvolver obrigatoriedades
para todos os centros, são necessários
ensaios prospectivos empregando instrumentos clínicos
padronizados com acompanhamento em longo prazo. Comparação
de estado funcional pré-operatório e pós-operatório
(além dos sintomas psiquiátricos alvo)
continuam a ser um importante parâmetro na caracterização
dos resultados. A cirurgia não é curativa
e deve ser considerada somente como um aspecto na conduta
global desses pacientes. Todos os centros com vivência
enfatizam a importância da reabilitação
pós-operatória e a necessidade de acompanhamento
psiquiátrico constante. Parece que muitos pacientes
melhoram intensamente após a cirurgia e as complicações
ou os efeitos colaterais são poucos.
Apesar
do advento de novos agentes psicofarmacológicos
eficazes, em geral os centros que empregam essa forma
de intervenção cirúrgica sentem
que a psicocirurgia continua a ser importante opção
terapêutica para doença psiquiátrica
incapacitante e que, provavelmente, seja subutilizada;
entretanto, deve-se insistir na cautela com referência
ao seu uso para se ter certeza de que jamais ocorra
aplicação ardorosa demais e indiscriminada
dessa forma de terapia. Felizmente, à medida
que melhoram nossos conhecimentos sobre a base neurobiológica
das doenças psiquiátricas, a lógica
e a base teórica para a intervenção
cirúrgica ficarão aparentes. Até
lá, apenas estudos de acompanhamento de longo
prazo prospectivos e cuidadosamente controlados feitos
por observadores independentes poderão melhorar
nossa avaliação empírica da psicocirurgia.
Conclusões
A
intervenção cirúrgica pode ser
útil em certos pacientes com doenças psiquiátricas
graves, incapacitantes e refratárias a tratamento,
inclusive os transtornos afetivos maiores, o TOC e os
estados de ansiedade crônica. As intervenções
cirúrgicas só devem ser executadas por
uma equipe multidisciplinar especializada, com vivência
nesses distúrbios. A cirurgia deve ser considerada
parte de um plano de tratamento e deve ser seguida por
um programa de reabilitação psiquiátrica
apropriado. Muitos pacientes melhoram bastante após
a cirurgia, sendo poucas as complicações
ou os efeitos colaterais. A intervenção
cirúrgica continua a ser importante opção
terapêutica para doença psiquiátrica
incapacitante e provavelmente é subutilizada.
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