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Tratamento
moderno da enxaqueca
| Educação
Médica Continuada - Fundação Educacional
Dannemiller Memorial Programa reconhecido
pela Associação Médica Americana Traduzido
e adaptado por Raul Barnech Rodrigues |
Introdução
Nos
últimos 15 anos houve grande avanço no entendimento
da fisiopatologia, farmacologia, epidemiologia
e genética da enxaqueca.
Opções
terapêuticas no tratamento das crises de enxaqueca
Três
classes de drogas foram cientificamente validadas
para o tratamento das crises: 1) agonistas 5-HT1,
2) antagonistas da dopamina, e 3) inibidores da
prostaglandina.
Farmacologia
dos agonistas 5-HT1
Os
agonistas 5-HT1 podem ser divididos em seletivos
e não seletivos. Todos os triptanos (sumatriptano,
zolmitriptano, naratriptano, rizatriptano, eletriptano,
almatriptano e fravotriptano) são seletivos por
natureza. Os não seletivos incluem a ergotamina
e a dihidroergotamina (DHE), que se ligam também
a receptores dopaminérgicos, o que pode explicar
as náuseas que costumam provocar.
Farmacocinética
Agonistas
5-HT1 seletivos (triptanos)
Os
parâmetros farmacocinéticos importantes que determinam
sua eficácia são: 1) T-max (tempo para nível sanguíneo
máximo), 2) meia-vida (T 1/2), 3) biodisponibilidade,
4) lipofilia, 5) penetração no sistema nervoso
central (SNC), e 6) outras afinidades de receptor.
O
sumatriptano, padrão-ouro desta classe, tem T-max
de 2 horas. Duas drogas que mostraram T-max menor
do que esta são o rizatriptano e o eletriptano
(1-1,5 horas). O sumatriptano tem meia-vida de
2 horas e sua ligação com o receptor é reversível,
o que resulta em efeitos biológicos residuais
relativamente breves. Por outro lado, o naratriptano
tem a maior meia-vida entre os triptanos disponíveis,
cerca de 6 horas. Por este motivo seu efeito analgésico
persiste até 24 horas, e a recorrência de cefaléia
é menor do que com o sumatriptano. A biodisponibilidade
de dose oral é fator importante e contribui consideravelmente
para a consistência das respostas com uso repetido.O
sumatriptano oral tem biodisponibilidade baixa
(14%), mas todos triptanos de segunda geração
têm biodisponibilidade maior. O naratriptano tem
quase 70%, o rizatriptano e o zolmitriptano entre
40-45%. A lipofilia determina o quanto uma droga
pode ultrapassar a barreira hemato-encefálica.
Todos novos triptanos ultrapassam esta barreira,
assim como a DHE. Por outro lado, o sumatriptano
não ultrapassa esta barreira, quando ela está
intacta. É possível que durante as crises de enxaqueca
ocorra uma ruptura da barreira hemato-encefálica,
permitindo a passagem do sumatriptano. Ainda não
está determinado que efeitos centrais dos triptanos
são clinicamente relevantes. Meta-análise dos
dados publicados sobre todos triptanos revela
não haver diferenças significativas quanto a suas
eficácias, quando utilizadas doses adequadas.
Uso
clínico dos triptanos
Sumatriptano
(Sumax, Imigran)
O
sumatriptano, primeiro dos triptanos a ser introduzido
no mercado, está disponível em comprimidos, spray
nasal e injetável (via subcutânea). A forma injetável
tem 96% de biodisponibilidade e é a mais eficaz
de todos triptanos, com resultado de 82% em 2
horas. O início de ação é extremamente rápido
(em 10 minutos) e é a forma mais apropriada para
aqueles pacientes com desenvolvimento rápido das
crises, como no "cluster", na enxaqueca
explosiva e na enxaqueca noturna severa. A forma
injetável pode associar-se a vários efeitos colaterais,
incluindo desconforto no peito, peso no peito
e garganta, parestesias na cabeça, pescoço e extremidades,
ansiedade, leve dificuldade para respirar, etc.
Estes efeitos são menores quando as formas oral
e nasal são usadas. O sumatriptano geralmente
não se acompanha de efeitos sobre o SNC, ao contrário
dos novos triptanos, que podem causar sonolência,
astenia e tontura. A dose inicial recomendada
é de 50mg. Até quatro doses podem ser usadas em
24 horas. Os comprimidos têm início de ação mais
lento (30 minutos) do que a injeção. Uma resposta
em 2 horas ocorre em 56-58% dos casos. A dose
nasal recomendada de sumatriptano é de 20mg para
adultos. Sua eficácia é intermediária entre os
comprimidos e a injeção. Início de ação entre
15-20 minutos. A recorrência da cefaléia é um
problema, com todos triptanos, variando de 20-45%.
Pode ser tratada com uma segunda dose, na maioria
dos pacientes; contudo, existem pacientes que
têm múltiplas recorrências, com "overdose"
de medicação, finalizando em "efeito rebote".
Se isso acontece, o paciente deve ser mantido
com um triptano de meia-vida longa, como o naratriptano,
e com tratamento preventivo concomitante. O sumatriptano
tem sido eficaz também em subgrupos específicos
da enxaqueca, como na enxaqueca menstrual, enxaquecosos
com asma, enxaqueca matutina e em crianças. Em
crianças são usadas doses menores.
Zolmitriptano
(Zomig)
O
zolmitriptano está disponível em comprimidos e
tem mostrado ações centrais e periféricas no sistema
trigeminal. Uma segunda dose é útil para a recorrência
e também para pacientes que não tiveram alívio
completo com a primeira dose.
Naratriptano
(Naramig)
O
naratriptano é diferente dos outros triptanos
por sua longa meia-vida e boa biodisponibilidade
oral. Isto confere longa duração do efeito (até
24 horas) e baixa recorrência de cefaléia. Contudo,
a eficácia em 2 horas não é tão boa como a dos
outros triptanos. Por isso pode ser útil naqueles
pacientes com lento desenvolvimento das crises,
como na enxaqueca menstrual. O naratriptano tem-se
mostrado mais efetivo em crises moderadas, assim
como o sumatriptano em crises mais severas. A
tolerabilidade do naratriptano é excelente. É
útil em pacientes que não respondem ao sumatriptano
ou naqueles com múltiplas recorrências com sumatriptano.
Rizatriptano
(Maxalt)
Por
sua meia-vida curta e boa biodisponibilidade,
alguns estudos mostram que o rizatriptano oral
resolve percentagem maior de casos em 2 horas,
quando comparado a outros triptanos. O Maxalt
RPD tem uma conveniente administração sublingual.
Dissolve-se rapidamente na saliva e é engolido
sem a necessidade de água. A eficácia é a mesma
dos comprimidos. A taxa de recorrência é de cerca
de 40%, contudo, uma segunda dose é geralmente
eficaz. Efeitos colaterais centrais incluem sonolência,
tontura e astenia, vistos mais geralmente quando
10mg ou mais são usados. Existem diferenças individuais
na resposta aos triptanos. O médico, em cooperação
com o paciente, deve determinar qual triptano
deve ser tentado.
Agonistas
5-HT1 não-seletivos
Ergotamina
A
absorção oral e retal da ergotamina é errática,
apresentando grandes variações interindividuais.
A biodisponibilidade oral é menor do que 5%, mas
consideravelmente maior após administração retal.
Concentrações sanguíneas de pico são alcançadas
em 1 hora após administração oral ou retal, mas
com esta são maiores (até 20 vezes). Os efeitos
biológicos desta droga se prolongam por mais tempo
do que sua meia-vida pode sugerir (2-3 horas).
Isto é provavelmente explicado pelas ações de
seus metabólitos, cuja meia-vida é de 20 horas.
A ergotamina produz potente e seletiva constrição
da artéria carótida externa e de seus ramos. Nas
doses usuais, ocorre somente pequeno bloqueio
alfadrenérgico, e o efeito vasoconstritor é mediado
por ação sobre receptores arteriais de serotonina.
Os alcalóides do ergot deprimem a taxa de "firing"
dos neurônios serotoninérgicos do tronco cerebral,
e esta estabilização da transmissão serotoninérgica
parece ser a maior ação da ergotamina, o que parece
ser também o caso das drogas preventivas usadas
na enxaqueca.
Uso
clínico da ergotamina
Uma
dose adequada deve ser tomada o mais cedo possível,
e não dividida a cada meia hora ou a cada hora.
Se a dose inicial falhar, doses subseqüentes também
falharão. Uma dose não nauseante deve ser estabelecida,
se possível. Uma dose que provoque náuseas (provavelmente
um efeito colateral central) é muito alta e pode,
inclusive, intensificar a crise. Uma dose apropriada
de ergotamina é mais bem determinada pela
capacidade do paciente tolerar a ergotamina fora
de crise. A dose média é meio supositório de 2mg
(1mg). A administração retal é a mais eficaz.
Náuseas e vômitos são efeitos colaterais limitantes.
A ergotamina é contra-indicada para quem tem doença
coronariana ou doença arterial periférica.
Dihidroergotamina
(DHE)
Aproximadamente
10 anos após a introdução da ergotamina, a DHE
foi estudada em sua eficácia para abortar crises
de enxaqueca e foi tida como boa, senão melhor
do que a ergotamina. A DHE tem efeitos nulos ou
mínimos de constrição arterial periférica, comparada
com a ergotamina. Estudos modernos confirmaram
isto, mas mostraram que é potente venoconstritora,
explicando sua utilidade no tratamento da hipotensão
ortostática. Como com a ergotamina, pode ocorrer
hipersensibilidade idiossincrásica, com raros
casos de severo espasmo arterial periférico ou
coronariano. A DHE está disponível em preparações
parenterais e em spray nasal. Pode ser usada endovenosamente,
podendo terminar com uma crise de enxaqueca, mesmo
que acompanhada de vômitos profusos e prostração.
Não provoca dependência física.
DHE
para crises de enxaqueca
Após
administração parenteral, o pico plasmático de
DHE é rapidamente alcançado: 15-45 minutos se
subcutânea, 30 minutos se intramuscular, 2-11
minutos se endovenosa e 30-60 minutos se nasal.
A via intramuscular é preferível à subcutânea.
Para crises que já atingiram o máximo, o protocolo
aceito inclui proclorperazina 5mg EV, seguida
imediatamente por 0,75mg de DHE EV lentamente
(2-3 minutos). Se a crise não der sinais de alívio
em 30 minutos, outros 0,5mg de DHE EV são administrados.
Este protocolo funciona em 85% dos casos, evitando
analgésicos narcóticos.
DHE
na enxaqueca intratável
A
enxaqueca pode tornar-se incessante e refratária
ao tratamento corrente. O uso de DHE 0,5mg EV
cada 8 horas revolucionou o tratamento para estes
casos, com 90% de eficácia em 2 dias de tratamento.
Metoclopramida (5mg) é usada como droga adjuntiva.
Antagonistas
da dopamina e agentes pró-cinéticos
Existe
alguma evidência sugerindo que o sistema dopaminérgico
é ativado durante as fases iniciais da crise de
enxaqueca, como pródromo. As náuseas e vômitos
associados são também devidos à ativação do sistema
dopaminérgico. Em adição, existe uma gastroparesia
relativa durante a crise de enxaqueca, resultando
em absorção pobre de medicamentos. Agentes pró-cinéticos,
como a metoclopramida, aumentam a mobilidade gástrica
e melhoram a absorção, além de serem antieméticos
eficazes. Agentes antidopaminérgicos usados nas
crises de enxaqueca incluem clorpromazina EV,
proclorperazina EV, metoclopramida, droperidol
EV e domperidona. Em salas de emergência a difenidramina
EV é também útil.
Inibidores
da prostaglandina, tais como os antiinflamatórios
não hormonais (AINH) são eficazes em crises leves
a moderadas. AINH como a indometacina reduz a
inflamação neurogênica do sistema vascular trigeminal
em estudos experimentais. Vários AINH são tão
eficazes ou melhores do que a ergotamina. Aspirina
e metoclopramida associadas têm apenas pouco menor
eficácia do que o sumatriptano. O naproxeno sódico
(550-750mg) é bastante eficaz em crises leves
a moderadas. O ketorolac (60mg IM) é útil em muitas
crises. Os novos inibidores da COX-2 são também
úteis. Quando combinados com metoclopramida, os
AINH produzem melhores resultados.
Associações
racionais nas crises de enxaqueca
A
combinação de drogas antienxaqueca pode ser útil
no tratamento das crises; por exemplo, um AINH
pode ser combinado com ergotamina ou com triptanos.
Medicações antinauseantes (metoclopramida, antagonista
da dopamina) podem ser combinadas com AINH, triptanos,
ergotamina, ou DHE.
Exemplos
de cuidado escalonado:
As
tabelas 1, 2, 3 e 4 mostram o tratamento das crises
de acordo com sua severidade. Crises leves são
usualmente tratadas com analgésicos simples, AINH
com ou sem metoclopramida, e isometepteno. Crises
moderadas a severas respondem melhor a agonistas
5-HT1, que incluem a ergotamina, DHE, e os triptanos.
A escolha da droga depende de vários fatores,
incluindo o tempo de desenvolvimento da crise,
sintomas associados e severidade da dor. Nas crises
de desenvolvimento rápido, tais como no "cluster",
enxaqueca explosiva e enxaqueca noturna severa,
o sumatriptano injetável é a droga de escolha.
O sumatriptano nasal é também de rápido início
de ação, podendo ser considerado de escolha nestas
situações. Formas orais em geral levam mais tempo
para agir, contudo, sumatriptano, rizatriptano
e zolmitriptano têm mostrado efeito significativo
em 1 hora. Alguns pacientes precisam dispor de
mais de uma droga para suas crises, e eles podem
escolher qual a mais adequada para cada uma delas.
Crises extremamente severas, particularmente em
serviços de emergência, podem ser tratadas com
DHE EV, proclorperazina ou metoclopramida EV.
A resposta à DHE EV é de 80%. Aqueles que não
toleram a DHE ou aqueles com contra-indicação
podem usar um antagonista da dopamina, como perclorperazina
ou clorpromazina EV, droperidol ou difenidramina
EV.
Tabela
1 - crises leves:
Analgésicos
simples
AINH
Isometepteno
(Podendo acrescentar metoclopramida para reduzir
náuseas e melhorar a absorção)
Tabela
2 - crises moderadas:
AINH
Isometepteno
Ergotamina oral, nasal
Sumatriptano oral, nasal
Zolmitriptano oral
Naratriptano oral
Rizatriptano oral, RPD
DHE nasal
(Metoclopramida pode ser associada a agentes orais)
Tabela
3 - crises severas:
Ergotamina
retal com ou sem antiemético
Sumatriptano injetável, nasal, oral
Zolmitriptano oral
Naratriptano oral
Rizatriptano oral, RPD
DHE injetável (IM), nasal
Tabela
4 - crises extremamente severas:
Ketorolac
IM (60mg)
DHE EV com metoclopramida
Antagonistas dopaminérgicos
Opióides
Opióides
no tratamento da enxaqueca
Os
opióides não têm vez no manejo rotineiro das enxaquecas.
Mesmo assim podem ser usados, quando os agonistas
5-HT1 forem totalmente ineficazes ou contra-indicados,
como nos pacientes com cardiopatia isquêmica.
Misturando opióides com DHE ou triptanos ocorre
anulação do efeito destes.
Profilaxia
da enxaqueca
As
metas da profilaxia incluem: 1) redução da freqüência
e intensidade das crises, 2) tornar as crises
mais responsivas ao tratamento agudo, e 3) melhorar
a qualidade de vida do paciente. Existe ampla
evidência clínica sugerindo que existe uma hiperexcitabilidade
neuronal nos pacientes com enxaqueca. Existem
observações bioquímicas e neurofisiológicas sugerindo
que a mobilização de serotonina (5-HT) pode precipitar
crises de enxaqueca. Muitos dos medicamentos profiláticos
têm alguma influência nos sintomas serotoninérgicos
centrais. Drogas que reduzem a freqüência e severidade
das crises de enxaqueca podem ter efeitos centrais
que reduzem a ativação dos geradores de enxaqueca,
diminuem a hiperexcitabilidade neuronal central,
elevam o limiar para depressão alastrante cortical
e reforçam a antinocicepção central. Os efeitos
centrais das drogas profiláticas podem envolver
um ou mais dos seguintes mecanismos: antagonismo
5-HT2, regulação dos canais iônicos voltagem dependentes,
modulação de neurotransmissores centrais, reforço
da inibição gabaérgica, e alteração do metabolismo
oxidativo neuronal. As indicações para tratamento
profilático incluem: 1) duas ou mais crises por
mês, com incapacidade durando três ou mais dias,
2) contra-indicação ou ineficácia das drogas agudas,
3) o uso de drogas agudas por mais de duas vezes
por semana, ou 4) circunstâncias especiais, como
enxaqueca hemiplégica ou crises raras produtoras
de risco de dano neurológico permanente. Os fatores
que influenciam na escolha da droga profilática
dependem do perfil do paciente, incluindo: 1)
freqüência e severidade das crises, 2) incapacidade,
3) impacto na qualidade de vida, 4) comorbidade,
5) eficácia da droga, e 6) efeitos colaterais
e taxa risco/benefício. Medicamentos que prejudicam
a efetividade da profilaxia incluem os analgésicos,
excesso de ergotamina, excesso de agonista 5-HT1,
anticoncepcional oral, drogas vasodilatadoras
(nitroglicerina e nifedipina, p.e.). Motivos para
falha na profilaxia incluem erro diagnóstico,
não reconhecimento de comorbidades, dosagem inadequada
do medicamento, expectativas irreais e má aderência.
Considerações
práticas na farmacoterapia profilática
1)
É extremamente importante começar com doses pequenas
da droga profilática e depois aumentá-las progressivamente,
melhorando assim sua tolerabilidade. Escolher
a droga mais eficaz e com menos efeitos colaterais.
Doses elevadas no primeiro dia de tratamento podem
provocar grande efeito colateral, levando o paciente
a abandonar o mesmo. Isto é particularmente verdadeiro
para a amitriptilina.
2)
Realizar um ensaio com dose ótima por pelo menos
três meses antes de considerar uma droga ineficaz.
3)
Retirar a medicação lentamente. Isto é particularmente
importante com betabloqueadores, bloqueadores
de canal de cálcio e inibidores da recaptação
da serotonina. Se as crises estão bem controladas,
um período de férias de drogas pode ser programado.
Muitos pacientes continuam com bom resultado após
a descontinuidade do tratamento.
4)
Alguns pacientes necessitam de associações de
drogas. As interações medicamentosas devem ser
consideradas.
As
medidas necessárias antes do tratamento profilático
incluem a identificação de comorbidade, tal como
depressão, ataques de pânico, ansiedade, doença
bipolar, coronariopatia, hipertensão e epilepsia.
A possibilidade de efeito rebote das drogas deve
ser lembrada. Os pacientes com esta complicação
requerem desintoxicação. Combinar sempre abordagens
farmacológicas e não farmacológica, incluindo
ajustes na dieta, identificação e evitamento de
gatilhos, encorajamento de exercícios físicos
e técnicas de relaxamento. Biofeedback e aconselhamento
comportamental podem ser particularmente úteis.
Contracepção adequada em mulheres férteis é extremamente
importante.
Duração
do tratamento
Não
existem regras para determinar a duração do tratamento.
Geralmente é de 6 meses. É muito importante que
o paciente entenda que as drogas profiláticas
levam duas ou mais semanas para provocarem os
resultados esperados. Alguns pacientes precisam
voltar ao tratamento após férias do mesmo, e alguns
necessitam tratamento contínuo, sem férias.
Taquifilaxia
na terapia profilática
A
experiência clínica mostra que a taquifilaxia
torna-se um problema com o uso prolongado das
drogas profiláticas. Mesmo medicamentos muito
eficazes, como a metisergida, podem produzir taquifilaxia.
Por isso, é importante monitorar o paciente e
trocar as drogas quando necessário. Além disso,
uma estimativa do sucesso do tratamento profilático
é difícil, pois devemos considerar: 1) a possibilidade
de melhora espontânea da enxaqueca, 2) ciclos
de melhora imprevisíveis em alguns pacientes,
e 3) alta resposta placebo.
Medicações
de uso corrente na profilaxia da enxaqueca:
Bloqueadores
betadrenérgicos: propranolol, timolol, metoprolol,
nadolol
Antidepressivos tricíclicos (ATC): amitriptilina,
nortriptilina, doxepina, protriptilina, desipramina,
imipramina
Inibidores
da recaptação da serotonina (ISRS)*
Bloqueadores de canal de cálcio: verapamil, flunarizina,
diltiazem
Antagonistas
5-HT2: metisergida, ciproheptadina, pizotifeno
AINH:
naproxeno sódico
Drogas
anticonvulsivantes: valproato de sódio, gabapentina
Reposição
de magnésio
Miscelânea,
como: clonidina, papaverina, riboflavina
*
ISRS: todos dentre estes são usados como adjuntivos
no tratamento de pacientes com cefaléia crônica,
não tendo demonstrado efeito antienxaqueca quando
isolados.
Bloqueadores
betadrenérgicos
A
base biológica do efeito dos betabloqueadores
na enxaqueca pode incluir antagonismo 5-HT2b,
redução da amplitude do contingente de variação
negativa e bloqueio da atividade do óxido nítrico.
A eficácia clínica dos betabloqueadores não está
relacionada com sua capacidade de penetrar no
SNC, propriedades estabilizadoras de membrana,
propriedades de bloqueio 5-HT2 e seletividade
beta. Os betabloqueadores são particularmente
eficazes em pacientes com enxaqueca associada
com estresse e hipertensão. A propriedade antiansiedade
dos betabloqueadores ajuda neste sentido. Todos
betabloqueadores podem causar fadiga, depressão,
distúrbio da memória, impotência masculina e hipotensão
ortostática e estão contra-indicados para pacientes
com asma ou insuficiência cardíaca congestiva.
É prudente não usar betabloqueadores em pacientes
com depressão ou baixa energia.
Antidepressivos
Antidepressivos
tricíclicos (ADT)
Os
antidepressivos, particularmente os ADT, são amplamente
utilizados no tratamento da enxaqueca e da cefaléia
tensional. A amitriptilina é provavelmente o mais
comumente usado. A base biológica inclui modulação
da 5-HT e da norepinefrina. Experimentalmente,
a amitriptilina mostrou inibir a ativação neuronal
trigeminal. O efeito antidepressivo ajuda no tratamento,
embora esteja desvinculado do efeito antienxaquecoso.
ADT são particularmente eficazes em pacientes
com crises freqüentes, enxaqueca com overdose
de medicamentos, enxaqueca com insônia, associação
enxaqueca-cefaléia tensional, cefaléia crônica
diária e enxaqueca com depressão. Associações
de ADT, particularmente amitriptilina com betabloqueadores,
é um caminho prático para tratar pacientes com
cefaléias freqüentes, especialmente aqueles com
depressão, estresse, ansiedade e distúrbio do
sono associados.
Inibidores
seletivos da recaptação da serotonina (ISRS)
Em
um estudo, a fluoxetina não se mostrou mais eficaz
do que o placebo na profilaxia da enxaqueca. O
mesmo estudo mostrou que ela é útil no tratamento
da cefaléia crônica diária. Contudo, os ISRS são
amplamente utilizados em pacientes com enxaqueca,
particularmente em virtude da depressão em comorbidade.
A venlafaxina, o primeiro inibidor da recaptação
da serotonina e da norepinefrina, pode ser eficaz
na profilaxia da enxaqueca, mas isto não está
comprovado. A nefazodona, com antagonismo 5-HT2
central, com benefícios sobre a depressão e sobre
a ansiedade, pode ser útil na profilaxia da enxaqueca.
Estudos para comprovação estão em andamento.
Medicações
gabaérgicas
Comumente,
existe um balanço entre a inibição gabaérgica
e a excitação mediada por aminoácido no SNC. Nos
enxaquecosos, é possível que aja uma desinibição,
provocada por inibição gabaérgica reduzida, resultando
em excitabilidade neuronal central aumentada.
Esta situação é semelhante à vista nas epilepsias.
Valproato
Existem
dois locais de ação do valproato que resultam
na redução da intensidade e freqüência das crises
de enxaqueca. A ação central inclui elevação dos
níveis de GABA, redução da taxa de disparo das
células serotoninérgicas na rafe dorsal e redução
da ativação do nucleus caudalis trigeminal. Os
efeitos periféricos incluem redução da inflamação
neurogênica no sistema vascular trigeminal, mediada
por agonismo GABA-ª . O valproato tem-se mostrado
eficaz. O efeito colateral inicial mais comum
é náusea e/ou vômito, mas desaparece com a continuidade
do tratamento. Outros efeitos colaterais são tremor,
aumento de peso, astenia e perda de cabelos. Hepatite
e outras desordens hepáticas são contra-indicações
para seu uso. Controle trimestral das enzimas
hepáticas é medida prudente quando se usa valproato.
Está contra-indicado durante a gravidez. A interação
do valproato com barbitúricos não deve ser esquecida.
Enquanto os betabloqueadores continuam como primeira
escolha de forma genérica, o valproato deve ser
a primeira escolha quando os betabloqueadores
estiverem contra-indicados. Os betabloqueadores
produzem depressão em alguns pacientes, o que
pode mudar o esquema para valproato. Pacientes
enxaquecosos que estejam em imunoterapia para
alergia, não devem usar betabloqueadores concomitantemente,
o que também pode mudar o esquema para valproato.
Betabloqueadores reduzem a tolerância a exercícios
naqueles que se exercitam regularmente. O valproato
não tem ação sobre tolerância a exercícios. Quando
existe comorbidade com epilepsia, ou doença bipolar,
o valproato deve ser a primeira escolha de tratamento.
Gabapentina
A
gabapentina mostrou-se eficaz na profilaxia da
enxaqueca, em estudo randomizado duplo-cego. Eleva
os níveis de GABA no cérebro, mas o mecanismo
preciso não é conhecido. Mostrou eficácia também
na enxaqueca transformada. Tem baixo perfil de
efeitos colaterais. Uma desvantagem é seu alto
custo.
Antagonistas
5-HT2
A
metisergida continua sendo um dos agentes mais
eficazes na profilaxia da enxaqueca. Contudo,
seus potenciais efeitos colaterais fazem seu uso
pouco atraente. Pode causar ganho de peso e edema
periférico. Com mais de 6 meses de uso, pode ocorrer
fibrose retroperitoneal, pleuropericárdica e subendocárdica.
Esta complicação é rara e parece ser idiossincrásica.
Raramente descritos: constrição de vasos maiores,
fibrose vascular mesentérica, e infarto vesical
pequeno. Uso em conjunto com outros alcalóides
do ergot, bloqueadores betadrenérgicos, dopamina,
eritromicina, ou troleandomicina, pode aumentar
o risco de espasmo ou oclusão arterial. A metisergida
deve ficar reservada para enxaqueca severa e refratária.
Muitos médicos recomendam intervalos de 4 semanas
a cada 6 meses de uso, mas existe dúvida se isto
é eficaz. Realizar sempre exames periódicos para
reações fibróticas, incluindo R-X de tórax, ecocardiograma,
tomografia computadorizada de abdômen.
Ciproheptadina
A
ciproheptadina parece ser uma droga muito eficaz
na profilaxia da enxaqueca em crianças, sendo
possivelmente a droga de escolha. Não tem efeitos
colaterais maiores, exceto por aumento do apetite
e leve sonolência.
Bloqueadores
de canal de cálcio
O
bloqueador de canal de cálcio mais comumente usado
na profilaxia de cefaléias, nos Estados Unidos,
é o verapamil. Contudo, ele tem menor eficácia
do que a flunarizina. É bem tolerada, podendo
ser usada por longos períodos. É a droga de escolha
na profilaxia do "cluster". Pacientes
com aura prolongada podem se beneficiar do verapamil.
É especialmente útil em pacientes com hipertensão
associada, ou quando existe contra-indicação para
uso de betabloqueadores, como na asma ou doença
de Raynaud. É interessante notar que muitos dos
agentes profiláticos para enxaqueca têm efeito
sobre os canais iônicos voltagem-dependentes,
particularmente os canais de cálcio. O desenvolvimento
de antagonistas específicos melhorarão a profilaxia
da enxaqueca.
AINH
O
naproxeno e o ácido flufenâmico têm eficácia clínica
menor do que os betabloqueadores, valproato ou
metisergida, e seus potenciais efeitos colaterais
(gastrointestinal e renal) tornam-nos inadequados
para uso prolongado. Contudo, para profilaxia
breve, particularmente na enxaqueca menstrual,
podem ser bastante eficazes. Os AINH têm múltiplos
mecanismos de ação, incluindo inibição de prostaglandina,
redução da inflamação neurogênica perivascular,
e influência sobre a neurotransmissão serotoninérgica
central. Não há correlação com sua capacidade
antiagregante plaquetária.
Miscelânea
Magnésio
Mesmo
que uma deficiência de magnésio no cérebro esteja
implicada na fisiopatologia da enxaqueca, não
existem provas de que sua reposição tenha benefício
em sua profilaxia.
Riboflavina
Baseado
na consideração teórica de possível alteração
no metabolismo energético mitocondrial na enxaqueca,
e na estreita ligação entre MELAS e enxaqueca,
altas doses de riboflavina (vitamina B2) foram
estudadas e mostraram reduzir a freqüência das
crises de enxaqueca, na dose de 200mg BID.
Escalonamento
da profilaxia da enxaqueca
O
tratamento contínuo diário, com medicamentos profiláticos,
é necessário quando as crises são freqüentes e
quando associadas com cefaléia tensional intercrítica.
Pacientes com enxaqueca menstrual severa, ou aqueles
com enxaqueca quando em grandes altitudes, podem
requerer profilaxia por curtos períodos. Na enxaqueca
menstrual, a medicação é usualmente iniciada 2
ou 3 dias antes da menstruação e continuada durante
ela. Profilaxia episódica pode ser instituída
quando existe um gatilho conhecido para as crises.
Por exemplo, na cefaléia induzida por esforço
e na cefaléia ligada à atividade sexual.
O
papel da comorbidade na profilaxia da enxaqueca
A
presença de comorbidade pode oportunizar ou limitar
certos tratamentos.
Comorbidade
e oportunização terapêutica:
Enxaqueca
+ hipertensão = usar betabloqueadores
Enxaqueca
+ angina = usar bloqueadores de canal de cálcio
Enxaqueca
+ estresse = usar betabloqueadores
Enxaqueca
+ depressão = usar ADT e ISRS
Enxaqueca
+ insonia = usar ADT
Enxaqueca
+ baixo peso = usar ADT
Enxaqueca
+ epilepsia= usar valproato
Enxaqueca
+ mania = usar valproato
Comorbidade
e limitação terapêutica:
Enxaqueca
+ epilepsia = não usar ADT
Enxaqueca
+ depressão = não usar betabloqueadores
Enxaqueca
+ obesidade = não usar ADT
Limitações
terapêuticas pelos efeitos colaterais:
Asma
= não usar betabloqueadores
Idosos
com cardiopatia = não usar ADT, bloqueadores de
canal de cálcio, betabloqueadores
Atletas
= não usar betabloqueadores
Profissões
requerendo muita atenção = não usar betabloqueadores
e ADT
Disfunção
hepática = não usar valproato
Associação
medicamentosa racional
Pode-se
combinar um agente profilático primário para a
enxaqueca com agentes compatíveis para tratar
comorbidades, incluindo depressão, ansiedade,
desordem de pânico, hipertensão e insônia.
As
combinações de drogas são comumente usadas para
pacientes com cefaléia refratária. Algumas combinações
são sugeridas, como antidepressivos e betabloqueadores.
Outras requerem mais cuidado, como betabloqueadores
e bloqueadores de canal de cálcio. Outras são
contra-indicadas, como inibidores da monoaminooxidase
(IMAO) e ISRS.
Associações
sugeridas:
Antidepressivos com: betabloqueadores, bloqueadores
de canal de cálcio, valproato, metisergida
Metisergida com : bloqueador de canal de cálcio
ISRS com: ADT
Associações
que requerem cuidado:
Betabloqueador com: bloqueador de canal de cálcio,
metisergida
IMAO com : amitriptilina ou nortriptilina
Contra-indicações:
IMAO com: ISRS, maioria dos ADT (exceto os dois
acima), carbamazepina
Uso
de medicações agudas durante tratamento profilático
Mesmo
que as drogas profiláticas reduzam as crises,
elas podem ocorrer, ou crises de cefaléia tensional
podem ocorrer. Em geral, o tratamento profilático
torna a medicação aguda mais eficaz.
Metisergida,
cuidar com: ergotamina, DHE, agonistas 5-HT1
IMAO, cuidar com: sumatriptano oral, zolmitriptano,
rizatriptano
Não usar com meperidina.
Valproato, cuidar com: barbitúricos de ação curta
Propranolol, cuidar com: rizatriptano, zolmitriptano
Eritromicina, cuidar com: eletriptano
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