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Por que Bioética ?
Revista
Bioética - Vol.1 n°1- 1993
Joaquim
Clotet - Professor de Ética e Bioética,
Cursos
de pós-graduação em Filosofia e Medicina
da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do
Sul, Porto Alegre, RS.
| Nas
duas últimas décadas, os problemas éticos da
Medicina e das ciências biológicas explodiram
em nossa sociedade com grande intensidade.
Isto mudou as formas tradicionais de fazer e
decidir utilizadas pelos profissionais
da Medicina. Constitui um desafio para a ética
contemporânea providenciar um padrão moral
comum para a solução das controvérsias provenientes
das ciências biomédicas e das altas tecnologias
aplicadas à saúde. A Bioética nova imagem da
ética médica, é o estudo sistemático da
conduta humana na área das ciências da vida
e cuidado da saúde, enquanto essa conduta
é examinada à luz dos valores e princípios morais. |
Introdução
Cultura,
liberdade, respeito e diálogo são valores que aperfeiçoam
a quem os possui ou que se esforça por alcançá-los,
quer na vida individual, quer na coletiva. Esta é nossa
concepção da ética, a realização ou crescimento das
pessoas ou sociedades por meio da aquisição, integração
e partilha dos valores.
A
vida e a saúde são bens inestimáveis, cuja posse e distribuição
determinam o grau de desenvolvimento e qualidade de
uma sociedade e da eficiência de um governo.
Poder
falar de saúde, de qualidade de vida e dos meios para
sua consecução num ambiente de diálogo livre e respeitoso,
iniciado e mantido por profissionais da medicina da
ética e do direito, eis a grande oportunidade que nos
é oferecida pelo Conselho Federal de Medicina com a
criação desta nova revista: Bioética.
Mas,
por que Bioética? O que é Bioética?
Bioética
não é apenas o que foi proposto, é algo mais.
1.
Mudanças questionáveis
Razões
não faltariam para justificar uma nova revista. No caso
de uma revista dedicada à Bioética os motivos são prementes.
A sociedade brasileira está sendo surpreendida pelos
meios de comunicação com novas técnicas de transmissão
e término da vida, e de inovações maravilhosas no tratamento
de algumas doenças. Não há dúvida de que o impacto social
é grande, e tem repercussões na esfera familiar, na
conduta individual e coletiva. Trata-se de um fato sócio-cultural
que atinge a humanidade e que provoca perplexidade,
mas também esperança. Enquanto os mass-media exploram
alguns desses temas, a classe médica, protagonista e
testemunha de exceção, tem que se posicionar quanto
ao seu modo de agir e às suas responsabilidades. Mas,
quais as mudanças a que nos estamos referindo e quais
as suas características?
a)
O inquestionável progresso das ciências biológicas e
biomédicas que altera os processos da medicina tradicional
e que apresenta novidades insuspeitas. Quem acreditaria
vinte anos atrás, que um ser humano pudesse ser concebido
fora do corpo de uma mulher? Ou que duas senhoras reclamassem
o direito à maternidade sobre o mesmo nenê, por terem
participado, uma e outra, da fecundação e gestação do
mesmo? Ou que um ser humano pudesse ser mantido em um
estado vegetativo irreversível por vários anos? Ou que
um casal gerasse um filho com a finalidade precípua
de ser doador de tecido medular para filha afetada de
leucemia? Com razão, Robert M. Veatch, diretor do Kennedy
Institute of Ethics, afirma que "os problemas da
Medicina e das ciências biológicas têm explodido nos
últimos anos, de modo exponencial, na consciência pública"
(1). Certamente o aperfeiçoamento das biociências implica
na renovação das formas costumeiras de agir e decidir
dos envolvidos no mundo da medicina.
b)
A socialização do atendimento médico. O reconhecimento
e o exercício do direito de todo cidadão a ser atendido
na sua saúde, seja na emergência de hospitais de pronto-socorro,
hospitais conveniados, públicos ou particulares, multiplica
e generaliza o relacionamento entre pacientes e profissionais
da saúde, exigindo o reconhecimento dos direitos e deveres
de ambas as partes. O conflito tornou-se comum nesses
centros. A imagem do médico que conhecia seu paciente
e cuidava dele anos a fio, já não é mais comum. Novos
padrões de conduta presidem as relações e decisões na
medicina contemporânea. De outro lado, o aprimoramento
das diversas formas da medicina não pode ficar restrito
ao ambiente individual. Atinge também a comunidade,
implicando, portanto, numa resposta comunitária e, em
conseqüência, política, quer em nível nacional ou internacional.
Essa democratização da medicina deve concretizar-se
na hora da fixação do percentual a ser destinado à saúde
nos orçamentos municipais, estaduais ou federais.
Um
fato manifesto da universalização da saúde em nível
internacional é a fundação de grandes entidades responsáveis
pelo assessoramento técnico aos países que delas participam.
Como exemplo, a Organização Panamericana da Saúde e
o Conselho da Europa que não tem poupado esforços neste
sentido (2), oferecendo este último recomendações de
grande valor na área da fecundação assistida (Conseil
de L'Europe, Recommendations; 874 (1979), 1046 (1986))
e experimentação em embriões e fetos humanos (Conseil
de L'Europe, Recommendations: 934 (1982), 1046(1986),
1100 (1989), R(90)13 (1990)).
c)
A progressiva medicalização da vida. O relacionamento
com os profissionais da saúde nas sociedades desenvolvidas
é, cada vez mais, uma praxe e não um fato isolado ou
uma situação emergencial. Existem especialidades médicas
para as diversas etapas da vida: neonatologia, pediatria,
clínica médica, obstetrícia, geriatria e surgem novas
especialidades como a cirurgia estética, cujo fim primordial
não é o terapêutico. A freqüente presença do médico
na vida de cada pessoa implica em uma maior aproximação
da sociedade com o mundo da medicina da qual pode decorrer
uma série de problemas. Essa multiplicidade da oferta
de serviços médicos requer o estabelecimento das prioridades
a serem atendidas. Nas instituições de saúde mantidas
com verbas públicas dever-se-ia realizar uma dermolipectomia
quando, por causa de insuficiência financeira da própria
instituição, fossem negados serviços mais urgentes?
Ou, quem iria ser atendido com procedimentos ou meios
extraordinários?
d)
A emancipação do paciente. A ênfase social e política
pelo reconhecimento dos direitos fundamentais das pessoas,
sem distinção de classe, sexo e idade, está repercutindo
também no mundo da medicina. Esta não fica alheia à
linguagem reivindicatória dos direitos. Expressões como:
consentimento informado (3), princípios de independência
ou de respeito à autonomia do paciente (4), são novos
na ética médica, desconhecidos pela tradição hipocrática
e fruto do influxo das idéias sociais e políticas na
teoria e práxis médica. O reconhecimento do paciente
como pessoa, com valores fundamentais e determinados,
é uma vitória sobre o poder da classe médica profissionalmente
exercido ao longo da história. M. Lockwood, ao referir-se
a esse mesmo aspecto histórico, às vezes presente ainda
em nossa sociedade, não duvida em chamar o médico de
"déspota benigno" (5), pois nem sempre é dada
ao paciente a informação necessária relativa ao diagnóstico
e prognóstico da doença, nem solicitado o seu consentimento
para o processo terapêutico.
e)
A criação e funcionamento dos comitês de ética hospitalar
e dos comitês de ética para pesquisa em seres humanos.
A função primária desses organismos não é decidir nem
policiar, mas proteger e orientar. O caráter pluralista
que esses comitês devem ter na sua composição é mais
uma demonstração da ampla abrangência da medicina e
de sua interferência na vida social (6). O imperativo
tecnológico, ou o princípio que permitiria realizar
sem discriminação tudo aquilo que a ciência ou a tecnologia
tem capacidade de fazer, apresenta, certamente, seus
limites. Felizmente, o Brasil já possui normas do Conselho
Nacional de Saúde para a realização de pesquisas em
seres humanos. (Conselho Nacional de Saúde, Normas de
Pesquisa em Saúde, D.O.U.,14/06/88 e 05/01/89).
f)
A necessidade de um padrão moral que possa ser compartilhado
por pessoas de moralidades diferentes. Embora a nação
brasileira esteja vivendo um período de sensibilidade
pela ética na vida política, é uma constatação, em nível
mundial, que a nossa época se caracteriza pela apatia
e fragmentação moral, em grande parte devido ao caráter
pluralista de nossa sociedade. H.T. Engelhardt (7) aceita
como um desafio à moral contemporânea o estabelecimento
de alguns princípios comuns para que se resolvam problemas
também comuns, decorrentes do progresso das ciências
biomédicas e da tecnologia científica aplicada à saúde.
g)
O crescente interesse da ética filosófica e da ética
teológica (8) nos temas que se referem à vida, reprodução
e morte do ser humano, (hoje redimensionadas pelas novas
pesquisas científicas). S. E. Toulmin, especialista
em ética filosófica e colaborador da National Commission
for the Protection of Human Subjects of Biomedical and
Behavioral Research, afirma que muito tem contribuído
a medicina para a revitalização da ética. Esta andava
afastada dos problemas práticos, concentrando sua atividade,
particularmente no mundo da cultura anglo-saxônica,
em especializadas e restritas questões metaéticas (9).
R. M. Hare, figura destacada da Ética filosófica contemporânea,
faz a seguinte assertiva que confirma nossa posição:
"Os problemas da ética médica são problemas tão
característicos da moralidade que a filosofia moral,
ao que se presume, será capaz de ajudar a sua solução.
Um fracasso nesse campo seria, não apenas um sinal da
inutilidade da disciplina, mas também da incompetência
de quem a utiliza" (10). Esse entrecruzamento da
ética com o progresso continuado da tecnologia e da
medicina produz uma mudança na interpretação tradicional
que estava sendo conferida a determinados símbolos ou
imagens. C. Viafora enumera como tendo marcado caráter
antropológico-religioso os seguintes: a fecundidade
como bênção, a doença como prova, a morte como passagem,
a vida como dom (11). Desde a nova ética podem ser questionados
alguns desses valores e as interpretações que lhes são
dadas. Isto, porém, não implica na queda dos princípios
da ética, quer filosófica quer religiosa. Trata-se de
um sinal da perenidade e atualização da ética que enfrenta
novos posicionamentos através da história.
De
tudo o quanto foi relatado é fácil deduzir que "a
Bioética constitui o novo semblante da ética científica"
(12), como afirma Diego Gracia, catedrático de História
da Medicina e diretor do primeiro programa de mestrado
em Bioética da Europa, na Universidade Complutense de
Madri. É preciso contar com alguns princípios que ajudem
os profissionais a decidir e agir corretamente, pois
a ciência, embora sendo a grande esperança, se apresenta
também como uma grande ameaça para a vida humana. Cabe,
portanto, à sociedade e aos responsáveis pelo exercício
do poder conhecer e assumir os compromissos pertinentes
ao bom uso da ciência a serviço da saúde e bem-estar
da humanidade. Elio Sgreccia, diretor do Centro de Bioética
da Faculdade de Medicina e Cirurgia Agostino Gemelli,
de Roma, sintetiza acertadamente ao afirmar: "é
sabido que uma boa política exige hoje uma boa medicina,
uma boa medicina precisa de uma ética válida" (13).
A
validade da ética biomédica requer que ela se dedique
aos problemas atuais, bem diferentes daqueles do passado.
Antigamente ela já se preocupava com algumas formas
de conduta errada, que deviam ser evitadas, como por
exemplo, o envolvimento sexual com pacientes (14), ou,
numa época bem posterior, com o dever de pagar impostos,
ou de não fazer propaganda (15). Hoje, como foi colocado
acima, há, também, outros temas que merecem consideração.
Passado e presente, porém, confluem num princípio fundamental:
o caráter moral de qualquer atividade médica.
Vamos
agora tentar caracterizar o que é Bioética.
2.
0 que é Bioética?
Se
procurarmos o verbete Bioética num dicionário ou enciclopédia
teremos, provavelmente, a desagradável surpresa de não
achá-lo. Trata-se de um conceito novo. O neologismo
Bioética foi cunhado e divulgado pelo oncologista e
biólogo americano Van Rensselaer Potter no seu livro
Biocthics: bridge to the feature (16). 0 sentido do
termo Bioética tal como é usado por Potter é diferente
do significado ao mesmo hoje atribuído. Potter usou
o termo para se referir à importância das ciências biológicas
na melhoria da qualidade de vida; quer dizer, a Bioética
seria, para ele, a ciência que garantiria a sobrevivência
no planeta.
Certamente,
se impõe a necessidade de serem adotados determinados
valores até agora considerados de caráter não relevante.
A Terra está em perigo, vítima do crescimento descontrolado
da sociedade industrial e de sua tecnologia. O respeito
à ecologia e a necessidade de estabelecer limites ao
desenvolvimento industrial e tecnológico são inquestionáveis
para a sociedade universal no fim do segundo milênio.
Assim foi que a Organização das Nações Unidas criou
em 1983 a Comissão Mundial para o Meio Ambiente ou Comissão
Brundtland. A partir de então, multiplicaram-se o número
de entidades e sessões dedicadas a esses temas. Cabe
recordar o protagonismo brasileiro na Declaração do
Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento,
em junho de 1992.
O
termo Bioética poderia ser usado também com o significado
amplo referente à ética ambiental planetária, por exemplo:
o tema dos agrotóxicos ou o uso indiscriminado de animais
em pesquisas ou experimentos biológicos. Mas não é essa,
atualmente, sua conotação específica e mais comum. Segundo
a Encyclopedia of Bioethics (17)-resultado da colaboração
de 285 especialistas e 330 supervisores, e a maior contribuição
coletiva para a Bioética numa só obra, com sua segunda
edição em fase final de elaboração..., Bioética é "o
estudo sistemático da conduta humana na área das ciências
da vida e dos cuidados da saúde, na medida em que esta
conduta é examinada à luz dos valores e princípios morais"
(18). Outros autores preferem a expressão ética biomédica
(19), porém sem ampla aceitação.
A
Bioética ocupa-se, principalmente, dos problemas éticos
referentes ao início e fim da vida humana, dos novos
métodos de fecundação, da seleção de sexo, da engenharia
genética, da maternidade substitutiva, das pesquisas
em seres humanos, do transplante de órgãos, dos pacientes
terminais, das formas de eutanásia, entre outros temas
atuais.
Convém
salientar que a Bioética não possui novos princípios
éticos fundamentais. Trata-se da ética já conhecida
e estudada ao longo da história da filosofia, mas aplicada
a uma série de situações novas, causadas pelo progresso
das ciências biomédicas. Para K. D. Clouser, a Bioética
"não é direcionada para busca de princípios, mas
sim para o esgotamento de todas as implicações relevantes
a partir daqueles que já possui" (20). A Bioética
é a resposta da ética aos novos casos e situações originadas
da ciência no âmbito da saúde. Poder-se-ia definir a
Bioética como a expressão crítica do nosso interesse
em usar convenientemente os poderes da medicina para
conseguir um atendimento eficaz dos problemas referentes
à vida, saúde e morte do ser humano.
A
disparidade existente entre as opiniões morais sobre
temas básicos, como são todos aqueles relacionados com
a vida e a morte, evidencia o pluralismo moral da sociedade
hodierna. De outro lado, devemos concordar que não há
normas únicas para resolver as diversas situações que
se possam apresentar. No caso de uma criança recém-nascida,
com Síndrome de Down e fístula tráqueo-esofágica (21),
podem ser dadas e justificadas opiniões diferentes sobre
o tratamento ou destino a serem outorgados à mesma.
O importante, no caso anterior, como em todos os casos
que se apresentem como conflitantes, é tentar conciliar
as melhores soluções. A Bioética procura, de maneira
racional e pactuada, resolver os problemas biomédicos,
decorrentes de visões diferentes dos mesmos, depois
da consideração de princípios e valores morais. O desenvolvimento
da Bioética exige a atitude reflexiva que descobre se
é o homem ou a mulher que usa a ciência ou se, contrariamente,
são por ela usados.
A
Bioética precisa, portanto, de um paradigma de referência
antropológico-moral que, implicitamente, já foi colocado:
o valor supremo da pessoa, da sua vida, liberdade e
autonomia. Esse princípio, porém, às vezes parece conflitar
com aquele outro, relativo à qualidade de vida digna
que merecem ter o homem e a mulher. Nem sempre os dois
princípios se amoldam perfeitamente sem conflitos, no
mesmo caso. Sabemos por própria experiência que, em
determinadas circunstâncias, não é fácil tomar uma decisão.
Constitui uma tarefa da Bioética fornecer os meios para
fazer uma opção racional de caráter moral referente
à vida, saúde ou morte, em situações especiais, reconhecendo
que esta determinação terá que ser dialogada, compartilhada
e decidida entre pessoas com valores morais diferentes.
Para um melhor entendimento das exigências e dificuldades
da Bioética, esta deve ser compreendida, no momento
atual da nossa cultura e civilização, dentro da "linguagem
dos direitos" (22). O movimento em favor dos direitos
humanos promoveu o movimento dos direitos do enfermo
(A patient's bill of rights, Hospitals 1973: 47). Fora
desse contexto resulta difícil entender, explicitar
e justificar a Bioética.
Uma
introdução ao conteúdo da Bioética não pode prescindir
de uma breve explicação dos princípios básicos que compõem
a sua estrutura reguladora. Vejamos, pois, o que alguns
críticos denominam o mantra da Bioética. Quando em 1977
a National Commission for the Protection of Human Subjects
of Biomedical and Behavioral Research, criada pelo Congresso
dos Estados Unidos, iníciou suas reuniões, teve que
elaborar alguns princípios gerais que permitissem resolver
os casos apresentados e que, ao mesmo tempo, fossem
aceitos pela maioria. Esses princípios constituem uma
parte do conhecido Belmont Report, publicado pela Comissão
em 1978: a secção B do informe é dedicada aos princípios
éticos básicos: o do respeito às pessoas, o da beneficência
e o da justiça. (The
Belmont Report. Ethical principies and guidelines for
the protection of human subjects of research. The National
Comission for the Protection of Human Subjects of Biomedical
and Behavioral Research. Department of Health, Education
and Welfare. 1979;
Abril 18:2-5).
O
princípio da autonomia, denominação mais comum pela
qual é conhecido o princípio do respeito às pessoas,
exige que aceitemos que elas se autogovernem, ou sejam
autônomas, quer na sua escolha, quer nos seus atos.
O princípio da autonomia requer que o médico respeite
a vontade do paciente ou do seu representante, assim
como seus valores morais e crenças. Reconhece o domínio
do paciente sobre a própria vida e o respeito à sua
intimidade. Limita, portanto, a intromissão dos outros
indivíduos no mundo da pessoa que esteja em tratamento.
Os fundamentos filosóficos desse princípio podem ser
encontrados, entre outros autores, em Locke (23), Kant
(24) e J. S. Mill (25).
O
princípio da beneficência requer, de modo geral, que
sejam atendidos os interesses importantes e legítimos
dos indivíduos e que, na medida do possível, sejam evitados
danos. Na Bioética, de modo particular, esse princípio
se ocupa da procura do bem-estar e interesses do paciente
por intermédio da ciência médica e de seus representantes
ou agentes. Fundamenta-se nele a imagem do médico que
perdurou ao longo da história, e que está fundada na
tradição hipocrática: "usarei o tratamento para
o bem dos enfermos, segundo minha capacidade e juízo,
mas nunca para fazer o mal e a injustiça" (26);
"no que diz respeito às doenças, criar o hábito
de duas coisas: socorrer, ou, ao menos não causar danos"
(27). A mesma mensagem, com o mesmo arquétipo da práxis
médica, está presente na obra do médico John Gregory
(28), na época do iluminismo.
O
princípio da justiça exige eqüidade na distribuição
de bens e benefícios no que se refere ao exercício da
medicina ou área da saúde. Uma pessoa é vítima de uma
injustiça quando lhe é negado um bem ao qual tem direito
e que, portanto, lhe é devido. Para a fundamentação
filosófica do princípio da justiça podem ser utilizados
diversos autores, merecendo ser destacados Aristóteles
(29) e John Rawls (30). Assim como o princípio da autonomia
é atribuído, de modo geral, ao paciente, e o da beneficência
ao médico, o da justiça pode ser postulado, além das
pessoas diretamente vinculadas à prática médica (médico,
enfermeira e paciente), por terceiros, como poderiam
ser as sociedades para a defesa dos direitos da criança,
em defesa da vida, ou grupos de apoio à prevenção da
AIDS, cujas atividades e reclamações exercem uma influência
notável na opinião pública, através dos meios de comunicação
social.
São
esses os princípios que, inicialmente, sustentam o exercício
da Bioética. A aplicação dos mesmos nos diferentes casos
nem sempre é fácil, nem conclusiva; mas o seu uso constitui
uma amostra do interesse e importância pelas formas
corretas de agir.
Conclusão
Depois
desta exposição, resulta óbvia a conveniência de uma
revista dedicada à Bioética, haja vista que a nossa
sociedade precisa de:
1.
Um meio eficiente para a formação continuada
dos profissionais da saúde nessa área.
2.
Um instrumento de ajuda
e atualização para os Conselhos de Medicina e outros
Conselhos da área de saúde.
3.
Um estímulo para a criação
da cadeira de Bioética nas Faculdades de Medicina do
pais e a preparação conveniente dos respectivos professores
e alunos.
4.
Um lugar destacado para
o diálogo interdisciplinar que deverá ter como protagonistas:
médicos, especialistas em ética e bioética, advogados,
políticos, sociólogos e representantes das diversas
religiões.
Um
foro no qual se discutam, com antecedência à sua aprovação
pelo Congresso Nacional, as futuras leis sobre: reprodução
assistida, uso de embriões e fetos humanos para fins
diagnósticos, terapêuticos e científicos, transplantes
de órgãos, rejeição do tratamento em pacientes terminais,
criação do comitê nacional de bioética e outros tópicos
que a sociedade julgar pertinentes, ou seja, uma tribuna
cultural, profissional e política que enriqueça o país
e o aproxime das nações que já a possuem. São esses
alguns dos espaços que esta revista se propõe preencher.
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