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Breve Panorama Histórico da Ética
Revista
Bioética Vol.1 n°1- 1993
Franklin
Leopoldo e Silva
Professor,
Departamento de Filosofia Faculdade de Filosofia,
Letras
e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,
SP.
| Este
texto procura esboçar as principais tendências
observadas historicamente no
desenvolvimento da reflexão em Ética.
O esforço para compreender as condições da
ação moral esteve sempre vinculado ao ideário
filosófico-cultural vigente nas diferentes
épocas históricas: o saber prático, o sentido
moral, o intelectualismo, o formalismo, o
intuicionismo representam algumas das direções
em que caminhou o pensamento em busca de uma
definição do valor moral. Contemporaneamente
a recuperação da experiência moral mostra-se
como a perspectiva mais promissora para um
novo modo de abordar a questão do fundamento
ético. |
Dentre
todas as preocupações que motivaram a reflexão desde
os primórdios da cultura ocidental, é bem possível que
a Ética tenha sido a primeira. Por tudo o que se conhece
da civilização grega em seus períodos mais arcaicos,
sabe-se que as elaborações místicas, as religiões, a
poesia, a tragédia, a organização da vida política e
outras manifestações do pensamento ocupavam-se intensamente
com o significado ético da vida humana. Quando nos voltamos
para as primeiras tentativas de ordenação do pensamento
em função da explicação do mundo e do lugar que o homem
nele ocupa, notamos imediatamente a mescla dos objetivos
de compreensão do cosmos, como ordem física, com a preocupação
em atingir os princípios de caráter ético que fundamentam
e governam a organização do universo. Tanto é assim
que não se pode separar com exatidão o conhecimento
físico da reflexão acerca dos valores intrinsecamente
ligados à dinâmica do mundo natural.
Isto
nos revela que o saber no estágio de suas primeiras
organizações sistemáticas não separava nitidamente,
como o fazemos hoje, o mundo natural do homem que o
habita. E isto muito simplesmente porque se considerava
que o ser humano estava no mundo em harmonia com as
leis mais profundas que regem a totalidade das coisas.
As conjunções, oposições, conflitos e sínteses responsáveis
pela disposição atual do cosmos, pela origem dos elementos
e pelos ciclos que demarcam as idades físicas do universo
reproduziam-se, como num microcosmo, no desenvolvimento
físico e moral dos indivíduos. Assim, o conhecimento
da perfeição natural do universo era inseparável da
consideração da perfeição moral de que ele se revestia,
a ponto de o homem ter, diante de si, na organização
cosmológica, um modelo pelo qual guiar-se na tentativa
de atingir a perfeição pessoal, no sentido ético. Dai
a indissociabilidade entre a Verdade e o Bem na filosofia
platônica, idéias que encerravam em si os mais elevados
critérios de equilíbrio, perfectibilidade e harmonia,
de tal modo que o conhecimento do mundo e do homem envolvia
substancialmente a avaliação do grau de correspondência
entre a vida natural e esses paradigmas que forneciam
a medida da perfeição em todos os aspectos.
Mesmo
quando o conhecimento, com Aristóteles, se voltou para
uma maior compatibilização da generalidade ideal com
a diversidade, a particularidade e a contingência próprias
do mundo factual, a harmonia entre o homem e a totalidade
do cosmos permaneceu como critério ético. Apenas se
entendeu que nos assuntos relativos aos valores que
devem nortear a conduta não se podia esperar o mesmo
grau de certeza e objetividade que se podia atingir
na ciência das coisas e dos seus princípios. Deixou-se
então de procurar a harmonia por meio da cientificidade
e passou-se a buscá-la por meio da prudência, espécie
de saber analógico mais adaptado à fluidez e à relatividade
em suma, à complexidade da vida moral. No entanto, o
reconhecimento da especificidade dos problemas éticos
não eximiu a consideração de tais questões da busca
pelos critérios de equilíbrio harmonioso que devia caracterizar
a virtude.
Essa
harmonia foi quebrada pelo advento do pensamento cristão,
que deixou de considerar a continuidade entre homem
e natureza ao sobrepor à naturalidade do homem os aspectos
relativos à interioridade, privilegiando a alma como
elemento de vínculo entre a criatura e o Criador, e
fazendo do mundo natural apenas cenário da trajetória
do espírito rumo ao seu verdadeiro destino, a eternidade.
A dependência direta do homem em relação a Deus, entendido
como origem e destino, transformou o sentido ético da
estadia do homem no mundo. Concebida agora em termos
de transitoriedade, esta estadia assumia o significado
de uma peregrinação moral pautada na diferença-e mesmo
na oposição- entre homem e natureza. Essa devia ser
vista apenas como o cenário moral dos obstáculos à realização
ética do espírito. Afirmada com diferentes graus de
ênfase nos vários séculos de predomínio de um pensamento
orientado pelo objetivo de sintetizar o conteúdo e a
forma da filosofia grega com a doutrina cristã, a dualidade
entre homem e natureza teve como conseqüência a fundamentação
dos critérios éticos num sentido moral que refletia
na criatura humana a absoluta perfeição do seu Criador.
Essa base teológica da ética estava em consonância com
os pressupostos antropológicos que definiam a vida humana
como dádiva divina. A correção moral consistia em tentar
corresponder, o máximo possível, ao valor da criatura
humana entendida como semelhante a Deus. Esse valor
está relacionado com uma noção cunhada no âmbito do
pensamento cristão e que se afirmará como uma das principais
chaves de reflexão ética até nossos dias: a noção de
pessoa. A importância do aparecimento desse conceito
liga-se a alterações metafísicas no pensamento ocidental,
trazidas ou provocadas pelo pensamento cristão e no
mérito das quais não é possível entrar aqui. Digamos
apenas que a modificação de maior porte refere-se à
identificação entre Ser e Pessoa, ocorrida no momento
em que a dimensão tradicionalmente adequada para pensar
o ser supremo ou primeiro princípio passou a valer para
Deus, doutrinariamente entendido como Pessoa. A semelhança
entre criatura e Criador, no caso do homem, revestiu-se
então de uma dignidade que introduziu na condição humana
um atributo ético, doravante inseparável da natureza
humana. Isto reforça o caráter interior e não naturalista
da dimensão ética. Na interioridade como fonte de vida
ética privilegia-se a razão como a faculdade que deve
predominar na avaliação e decisão éticas, mesmo que
a conduta envolva elementos de vontade e afetividade
inerentes à condição humana.
Se
a descoberta da interioridade deve ser indubitavelmente
atribuída à filosofia cristã, a compreensão desta interioridade
como autonomia subjetiva é, inquestionavelmente obra
da modernidade, isto é, da fase da história do pensamento
que se inicia com Descartes no século XVII. A interpretação
da interioridade como subjetividade trouxe duas conseqüências
que repercutirão no domínio da Ética. A primeira concerne
ao fato de que a afirmação da autonomia do sujeito,
entendida como autonomia da razão, coloca em questão
a subordinação do conhecimento e da moral aos aspectos
teológicos envolvidos na síntese entre a filosofia antiga
e a doutrina cristã elaborada anteriormente. A razão,
autônoma, deve procurar livremente as condições do conhecimento
e da ação moral. Os resultados alcançados não devem
ser avaliados à luz de critérios alheios ao puro exercício
da racionalidade. Se tais resultados coincidirem, no
todo ou em parte, com aqueles obtidos pela tradição
da filosofia cristã, isto não retirará dos resultados
e dos procedimentos o caráter laico, racional e livre,
uma vez que a investigação se terá guiado unicamente
pelo que se denominava na época a "luz natural"
da razão. A outra conseqüência refere-se ao exercício
e à finalidade dessa autonomia. O exercício se dá no
âmbito do conhecimento e a finalidade é a obtenção da
sabedoria, entendida como a perfeita conciliação entre
a teoria e a prática. Vê-se então que o significado
cognitivo ou teórico predomina e que a interpretação
da interioridade como subjetividade tem um caráter "epistemologizante",
isto é, destina-se a privilegiar a conquista autônoma
do conhecimento, base do saber moderno e da constituição
de todas as ciências e de suas aplicações técnicas.
O
que decorre imediatamente dessa prevalência do conhecimento
na definição da autonomia racional é a dimensão intelectualista
da Ética, isto é, a idéia de que as questões morais
podem ser equacionadas e solucionadas pela via racional.
Numa hierarquia rígida de graus de conhecimento, em
que, por exemplo, a Física se fundamenta na Metafísica,
o estudo das condições éticas da vida humana deriva
necessariamente de outros conhecimentos mais elevados
ou mais fundamentais. Mas esse pressuposto intelectualista
logo revelou seu lado inconseqüente: a decisão moral
é parte integrante da vida cotidiana e a Ética não pode
esperar, para se constituir, pelos resultados das outras
ciências. Não é possível "suspender" a vida
ética enquanto se aguarda a constituição de seus requisitos
científicos. Há que haver uma moral, desde sempre, mesmo
que provisória, como aquela adotada pelo próprio Descartes.
O resultado dessa postura intelectualista é o adiamento
indefinido de uma moral "teórica".
Pode-se
dizer que essa dificuldade contribuiu, mesmo que indiretamente,
para que se alcançasse uma nova visão das relações entre
o teórico e o prático, calcada no diagnóstico da impossibilidade
de uma conciliação pela via do conhecimento. Para tanto
contribuiu também a crítica de Kant à continuidade hierárquica
do conhecimento, característica do século XVII, e impugnada
no século seguinte, a partir da constatação de que,
em pelo menos uma das partes do edifício único do saber,
a Metafísica, não se chegava a resultados cuja objetividade
e certeza equivalessem ao que se obtinha nas outras
ciências, como a Matemática e a Física. Essa diferença,
que podia ser detectada historicamente, tornava-se gritante
a partir da consolidação da física newtoniana como ciência
experimental totalmente autônoma. O resultado da critica
kantiana foi a delimitação do teórico como englobando
apenas a Matemática e a ciência experimental e a deslocação
da Metafísica para o campo do puro pensamento, em que
é impossível alcançar resultados objetivamente comprováveis.
A conseqüência dessa delimitação foi a restrição da
atividade do sujeito ao campo abrangido pela razão teórica,
rompendo assim a unidade do sujeito que, na filosofia
anterior, era o mesmo em qualquer campo do saber, uma
vez que à unidade do sujeito correspondiam a unidade
de método e a unidade do objeto, do ponto de vista metodológico.
Restava, entretanto, a outra face do sujeito, precisamente
a da ação moral. Como a dimensão ética permanecesse,
pelos critérios kantianos de objetividade, fora do campo
teórico, a solução foi constituir, através da Razão
Prática, o sujeito moral como instância independente.
Mas como a unidade substancial do sujeito havia sido
rompida, tanto o sujeito teórico quanto o sujeito prático
estavam comprometidos com a ausência de substancialidade,
uma vez que haviam perdido o estatuto metafísico. A
solução kantiana para a impossibilidade de afirmação
da unidade metafísica do sujeito é a constituição puramente
lógica da subjetividade. Doravante, o sujeito não é
nem substância espiritual, nem pessoa, nem consciência
metafisicamente autônoma, mas uma estrutura lógica de
requisito formais do conhecimento. O sujeito é pura
forma. No campo prático esse formalismo se repete, com
o intuito de purificar a dimensão ética de qualquer
determinação sensível ou intelectual, o que comprometeria
a autonomia da decisão moral. Ora, autonomia significa
liberdade e liberdade é uma noção metafísica. Para não
reintroduzir a metafísica, que havia sido eliminada
da concepção formal do sujeito, Kant é obrigado a conceber
o fundamento da moral no nível da pura forma, sem qualquer
conteúdo. Foi assim que nasceu o célebre Imperativo
Categórico, a partir do qual somente se admite como
critério ético aquele, que puder ser concebido como
absolutamente universal. O caráter absolutamente universal
do imperativo ético o esvazia de todo e qualquer conteúdo
determinado, fazendo com que a razão prática, ao enunciá-lo,
não se comprometa com qualquer motivação que não seja
a pura e simples forma de lei moral. É por esta razão
que o sujeito moral tem que ser outro, e diferente até
mesmo oposto ao sujeito teórico: este, na medida em
que se relaciona com o saber teórico, entendido como
ciência experimental, está inserido no universo da experiência
e jungido às determinações físico naturais próprias
desse campo. Não é um sujeito que se possa conceber
como livre, assim como não posso conceber como livre
qualquer fenômeno abordado no encadeamento causal determinístico
que constitui o contexto da experiência teórica. Já
o sujeito moral, na medida em que decide livremente,
atua como se fora aquela "primeira causa"
dos metafísicos tradicionais.
É
claro que se trata do mesmo homem, mas considerado sob
dois aspectos absolutamente diferentes e em duas dimensões
radicalmente diversas. De um lado, o homem está inserido
num universo fenomênico, sujeito à contingência e às
determinações naturais. Suas ações são todas motivadas,
pois sempre se poderá encontrar uma causa que determinou
a ação no encadeamento que caracteriza o mundo empírico.
Quando agimos, fazemo-lo a partir de algo e visando
algo; somos movidos por interesses de variada espécie.
Para Kant, não interessa se a motivação é nobre ou mesquinha;
havendo determinação, o ato moral deixa de ser autônomo
e perde a sua característica propriamente moral. De
outro lado, o sujeito moral, que se guia apenas pela
universalidade formal do critério ético, não se submete
a nenhuma determinação. A decisão é absolutamente livre,
é a causa primeira que desencadeia efeitos no mundo
natural, sem ser ela mesma causada por qualquer outra
coisa. É a dimensão supra-sensível do sujeito, que só
existe no universo prático, cenário de liberdade e criação.
O
que caracteriza, pois, essa concepção ética é a incondicionalidade
do ato moral. Mas será possível mantê-la? Não será mais
realista considerar que o peso dos fatores psicológicos,
sociológicos, históricos, etnológicos, religiosos em
nenhuma hipótese poderá ser abstraído da escolha moral?
Pelo contrário, só existiria escolha na medida em que
todos esses fatores, como motivações internas e externas,
se colocam diante do indivíduo, fazendo parte da sua
vida e dos seus atos, favorecendo, dificultando, esclarecendo
ou obscurecendo as situações de opção ética. Muitos
viram na superestimação formal da liberdade um esvaziamento
da concretude que caracteriza a escolha moral. A liberdade
não será sempre inseparável da situação concreta em
que é exercida?
Em
contrapartida, há que se considerar o problema de harmonizar
a autenticidade ética da escolha com as motivações,
se as entendemos necessariamente presentes em todos
os atos. Se o comportamento moral é condicionado, temos
que levar em conta a diversidade das condições e a mesma
ação moral praticada sob diferentes condições. Aquele
que mente para obter vantagem para si age da mesma forma
que aquele que mente para esconder um perseguido político
num regime totalitário? O que opta por sacrificar a
sua vida na guerra dá menos valor a ela do que aquele
que escolhe preservá-la por egoísmo ou covardia? O interesse
social deve prevalecer sobre o individual mesmo nos
casos em que o indivíduo esteja convencido de que a
sua conduta seria mais correta que a de todos os outros?
Qual é o preço do bem-estar e da felicidade do indivíduo
ou do grupo? São questões que revelam aquele que talvez
seja o mais candente de todos os problemas éticos: a
adequação entre o relativo e o absoluto. Certamente
há graus de relatividade: há o interesse do indivíduo,
o do grupo, o da nação, o da humanidade. Há muita diversidade
nos valores em que as pessoas crêem e nos quais baseiam
a conduta. A Ética consiste no discernimento para encontrar,
entre todos esses fatores, o critério de justa escolha.
No
século XIX inglês, filósofos como Benthan e Stuart Mill
propuseram que a utilidade do ato poderia ser medida
da moralidade. O que fosse mais útil para o maior número
de pessoas, ou o que proporcionasse a maior soma de
felicidade e bem-estar deveria ser eleito como a ação
mais justa. Isto põe o difícil problema de eleição do
valor que deverá medir a moralidade dos atos. Esse valor
deverá ser a utilidade? Em que se fundamentaria essa
afirmação? Felicidade, utilidade, bem-estar, prazer
são critérios que podem, imediatamente, ser considerados
como universais? Como e por que elegemos tais e tais
valores de preferência a outros?
Uma
coisa é certa: valores não são coisas, embora deles
possamos ter experiência. Esta constatação encorajou
alguns teóricos a afirmar que é possível pensar numa
região de valores, indefiníveis objetivamente, mas que
poderiam ser intuídos a partir de atitudes mentais e
afetivas adequadas. Seriam como essências que transcendem
o mundo, mas às quais poderíamos ter acesso, de maneira
semelhante à que os platônicos pensavam poder atingir
um mundo de idéias. Fenomenólogos como Scheller esposaram
esta concepção. Mas se a moral depende de "objetos"
que nos transcendem a tal ponto, como entender a mediação
entre tais essências e a ação concreta? Não cairíamos
aqui numa outra armadilha do absoluto, análoga ao formalismo
moral? Critérios éticos despojados da concretude moral
não são meras palavras? Em suma, é possível questionar
a pertinência de "objetos ideais" a ações
concretas. Ou tais objetos estariam distanciados da
densidade complexa da vida ética efetiva, caso em que
seriam "meramente" ideais; ou, se concretos
e reais, somente poderiam ser entendidos como duplicações
de valores vividos, caso em que dificilmente se compreenderia
a razão de sua existência. O fato é que a ética não
pode ser separada da experiência efetiva dos valores.
A
questão está em saber de que experiência se trata. Tendências
neo-positivistas em filosofia questionaram a concepção
que expusemos acima argumentando que palavras ou enunciados
que não descrevem fatos ou não expressam tautologia
lógico-matemáticas carecem de sentido objetivo. Assim,
proposições éticas alicerçadas em objetos ideais e que
não denotem fatos de experiência não teriam significado
real. Seriam, no máximo, expressões de emoções subjetivas.
Trata-se talvez do extremo oposto à concepção de um
"mundo de valores". Mas, por outro lado, não
se pode aceitar a exigência de que enunciados éticos
se refiram direta e exclusivamente a fatos: isto seria
violentar a especificidade da Ética. É o caso de se
recordar aqui uma obviedade: as coisas ou os fatos são;
os valores valem. Isto não significa a inexistência
da experiência moral. Pelo contrário, esta é, provavelmente,
a única realidade moral efetiva. Só que se trata de
uma experiência íntima, praticamente irredutível à descrição
factual. Qualquer um que tenha vivido um conflito ético
em alguma situação específica sabe avaliar a realidade
dessa experiência íntima, e o seu caráter, muitas vezes
doloroso, é a maior prova de sua existência real. Outra
coisa é exprimi-la e descrevê-la como o faríamos com
fatos. Se aceitamos esta maior abrangência da noção
de experiência, não há porque negar a significação da
experiência moral e de suas expressões aproximativas
ou indiretas. É próprio das vivências interiores poderem
ser descritas apenas metaforicamente.
A
ausência de objetividade factual nos impede de esperar
que a Ética seja a ciência de justa escolha. Ela seria
mais um discernimento do tipo daquele que, como vimos
mais atrás, Aristóteles havia chamado de prudência.
O rápido sumário histórico que esboçamos aqui nos mostrou
as dificuldades do formalismo e do intelectualismo,
mas também as aporias do relativismo total e de um radical
subjetivismo. Devemos aceitar, embora possa parecer
paradoxal, que a experiência ética é íntima mas também
intersubjetiva. Qualquer decisão moral é sempre tomada
tendo como pano de fundo a comunidade humana. O discernimento
é inseparável da intimidade e da intersubjetividade.
Julgamos não apenas as ações mas o valor que nelas se
encarna: a grandeza ou a mesquinharia existem não apenas
nas ações grandiosas ou mesquinhas mas antes delas,
embora, como valores, só sejam vivenciadas e julgadas
na experiência. É esta aparente ambigüidade que faz
com que qualquer decisão envolva risco, que é apenas
a conseqüência de não sermos oniscientes.
Referências
Bibliográficas
-
Alquié
F. La morale de Kant. Paris: CDU, 1965.
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Aubengue
P. La prudence chez Aristote. Paris: PUF, 1963.
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Frankena
W. Ethics. Englewood Cliff: Prentice Hall, 1973.
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1983: 431-48.
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Robin
L. A moral antiga. Porto: Edições Despertar, s.d.
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Teixeira
L. Ensaio sobre a moral de Descartes. São Paulo:
Braziliense, 1990.
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