Antipsicóticos
de nova geração e
transtorno bipolar
Thomas
A. M. Kramer, MD
Professor Associado de Psiquiatria,
Universidade de Chicago, Illinois.
Os
antipsicóticos de nova geração
ou atípicos - medicamentos que inicialmente foram
desenvolvidos para o tratamento de psicoses em geral
e esquizofrenia em particular - estão sendo usados
cada vez mais no tratamento de transtorno bipolar. Medicamentos
como a olanzapina, que tem indicação formal
para doença bipolar pela US Food and Drug Administration,
a clozapina, a quetiapina e a risperidona tornaram-se
importantes instrumentos para o clínico, ajudando-o
a estabilizar pacientes bipolares com doença
aguda, impedindo-os de adoecer novamente. Esses medicamentos
podem ter eficácia além de simplesmente
agentes antimaníacos, podendo ter utilidade como
verdadeiros estabilizadores do humor; podem realmente
ajudar a impedir as flutuações do humor
que interferem nas funções social e profissional.
É
importante observar que esses medicamentos têm
utilidade além da simples eficácia. Muitos
são agentes antimaníacos eficazes. A clorpromazina
e o haloperidol, por exemplo, têm demonstrado
eficácia no tratamento da mania aguda. Não
os usamos de rotina porque seu perfil de efeitos colaterais
torna-os menos desejáveis e porque parecem não
ter outra eficácia além de suas propriedades
antimaníacas na doença bipolar. Podem
tratar a mania, mas não estabilizam o humor e
são ineficazes como antidepressivos. O que torna
a nova geração de antipsicóticos
tão potencialmente importante no tratamento da
doença bipolar é que apresenta todas essas
três propriedades, em maior ou menor grau, desejáveis
em uma medicação para doença bipolar.
Igualmente importante é o fato de que esses medicamentos
geralmente são muito bem tolerados. Isso se torna
crucial porque os estabilizadores do humor, em sua maior
parte, são medicamentos que o paciente tomará
indefinidamente. Assim, se for desagradável tomá-los,
serão essencialmente ineficazes.
Não
há dúvida de que os medicamentos que bloqueiam
o receptor D2 tratarão a mania aguda. O que é
consideravelmente mais especulativo são as outras
propriedades desses medicamentos, que os tornam úteis
como estabilizadores do humor. Para se obter possíveis
respostas para essa pergunta, podemos ver sua outra
ação farmacodinâmica mais comum,
o bloqueio dos receptores pós-sinápticos
de serotonina, especificamente o receptor 5HT2A. O bloqueio
desse receptor inibe uma alça invertida de feedback
no córtex pré-frontal, no qual a serotonina
diminui o tono dopaminérgico, de modo que, quando
esses medicamentos bloqueiam esses receptores, o tono
dopaminérgico aumentará no córtex
pré-frontal. No tratamento de distúrbios
psicóticos e, em particular, da esquizofrenia,
esse efeito serve, no mínimo, para limitar o
efeito colateral do embotamento cognitivo que ocorre
com os bloqueadores D2, podendo até ajudar a
tratar os sintomas negativos da esquizofrenia. O efeito
que esses medicamentos têm em pacientes com doença
bipolar é consideravelmente menos claro.
A dopamina
é um neurotransmissor crucial no córtex
pré-frontal; assim, um aumento no tono dopaminérgico
naquela área significa essencialmente maior atividade
no córtex pré-frontal. Pensa-se que essa
seja a área "executiva" do cérebro,
na qual residem a tomada de decisão, o julgamento
e o controle de impulsos. Se essas funções
estiverem potencializadas, poderão ajudar o paciente
bipolar a controlar seu comportamento de maneira útil.
Semelhantemente, o aumento dessas funções
também pode ajudar a tratar depressão
e pode explicar por que os antipsicóticos de
nova geração comprovaram ser tão
úteis como potencializadores na depressão
maior. Sabemos realmente que tais medicamentos aumentam
a cognição em esquizofrênicos, e
pensa-se atualmente que isso se deva ao aumento da atividade
no córtex pré-frontal. Não há
razão para acreditar que esse fato seja verdade
e relação aos pacientes bipolares.
Também
é importante observar que, em sua maior parte,
esses medicamentos são extremamente seguros.
O risco de discinesia tardia, sempre uma preocupação
maior em relação à geração
mais antiga de antipsicóticos, é consideravelmente
menor com esses agentes mais modernos. Até a
presença de sintomas extrapiramidais, o que era
virtualmente certo com os antipsicóticos de alta
potência de geração mais antiga,
é consideravelmente menos comum com os agentes
de nova geração, provavelmente porque
sua inibição da alça de feedback
de serotonina - dopamina descrita acima nos permita
bloquear menos receptores D2 no córtex pré-frontal
e no sistema extrapiramidal, onde ocorrem os efeitos
colaterais do bloqueio de D2 e onde o aumento do tono
dopaminérgico causado pelo bloqueio da alça
de feedback cria mais competição para
os receptores de dopamina entre o medicamento e o aumento
da quantidade de dopamina, causando menos bloqueio de
D2. Inversamente, essa alça de feedback não
opera no sistema mesolímbico - no qual acreditamos
que um estado hiperdopaminérgico cause sintomas
de esquizofrenia ou de doença bipolar - e então
podemos bloquear mais receptores onde quisermos bloqueá-los.
Finalmente,
é importante reiterar que essa geração
de antipsicóticos é muito diferente da
anterior e não representa simplesmente a melhora
de uma classe inteiramente nova de medicamentos. Assim
sendo, precisamos ver além das indicações
para a geração anterior - principalmente
esquizofrenia e transtornos psicóticos - e continuar
a explorar outros usos que possam ser benéficos
a nossos pacientes.
NeuroPsicoNews
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de Patologias Médicas - SBIPM - 2003
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